A conta é nossa
Em Berlim,
Fifa pressiona Brasil para que governo assuma responsabilidades pelos
investimentos para receber a Copa de 2014; só com estádios,
Alemanha gastou R$ 4,15 bilhões
FÁBIO
VICTOR
RICARDO PERRONE
ENVIADOS ESPECIAIS A
BERLIM
O presidente da CBF, Ricardo
Teixeira, não cansa de afirmar que seu projeto para a possível
Copa de 2014 no Brasil é baseado em investimentos da
iniciativa privada. Os colegas do dirigente na alta cartolagem
mundial, no entanto, começam a pressionar os poderes públicos
do país para que se comprometam com o evento.
Segundo o
rodízio continental determinado pela Fifa, a edição
de 2014 será na América do Sul -foi na Ásia em
2002, é na Europa agora e será na África em
2010. E a Conmebol (Confederação Sul-Americana) já
deu o seu apoio à postulação única do
Brasil. As candidaturas serão apresentadas até dezembro
deste ano, e a escolha acontecerá em 2008.
Ontem, em
Berlim, num congresso do comitê da Fifa responsável pela
organização do Mundial alemão, alguns dos
principais atores da definição sobre 2014 ouvidos pela
Folha jogaram no colo dos governos a responsabilidade por garantir a
realização da Copa brasileira.
A começar por
João Havelange, presidente de honra da Fifa e ex-sogro de
Ricardo Teixeira. "Querendo ou não, o Brasil vai ser a
sede da Copa de 2014. Isso já está decidido",
disse ele. Questionado se o país terá condições
para construir novos estádios, Havelange, visivelmente
irritado, replicou: "Isso é ao governo brasileiro que o
senhor deve perguntar, ao presidente, aos governadores, aos
prefeitos".
É o mesmo discurso utilizado pelos
cartolas sul-americanos, que passaram a adotar um tom entre a
cobrança e a provocação. Esses dirigentes têm
importância fundamental porque, além do próprio
país candidato (caso este não cumpra as exigências
da Fifa), são eles, em tese, os únicos que poderiam
melar a realização do Mundial, caso retirassem o apoio
à candidatura brasileira.
"Achamos que o Brasil já
deveria estar fazendo coisas. Chegou a hora de começar a
trabalhar, ou pelo menos de dar sinais de que as coisas podem sair do
papel, e isso depende de vontade política. O que falta não
é apoio do mundo esportivo, o que falta é vontade
política", afirmou o secretário-geral da Conmebol,
o argentino Eduardo Deluca.
Um dos mais influentes cartolas do
mundo, o também argentino Julio Grondona, presidente da
federação de seu país e vice da Fifa, respondeu
com uma pergunta à questão sobre como a comunidade
internacional vê a preparação do Brasil para a
Copa: "Você já perguntou isso ao Lula? Porque isso
é um problema de Estado".
Dirigentes europeus
seguiram a toada. "O Brasil tem o melhor futebol do mundo e
poderia, claro, organizar de novo uma Copa, mas um evento desta
magnitude depende antes de tudo de apoio do governo", declarou o
diretor de relações internacionais da federação
italiana, Sergio di Cesare.
Em contraste com o discurso sobre
o plano de uma "Copa privada", Teixeira articula nos
bastidores com políticos de todos os espectros
partidários.
Mas ainda não se sentou com o governo
federal para discutir a fundo o tema.
"O presidente Lula
já disse, publicamente e pessoalmente a Ricardo Teixeira, que
apóia a Copa-2014 no Brasil. Acreditamos que, apesar de as
arenas serem o local dos jogos, há outros itens, como
transporte, segurança e infra-estrutura de turismo, que não
são vinculados à CBF", disse o ministro do
Esporte, Orlando Silva Jr.
O ministro contou ter marcado uma
reunião com Teixeira sobre o assunto para depois do Mundial
alemão e admitiu que é incerto um eventual investimento
do governo brasileiro em estádios. "Isso depende de nossa
conversa com a CBF", concluiu Silva Jr.
Entre tantas
lacunas de infra-estrutura no país, a questão do palco
das partidas é crucial, já que, segundo as
especificações da Fifa, não há hoje um
único estádio no Brasil capaz de receber um jogo de
Copa do Mundo -algo que já foi ressaltado pelo presidente da
entidade, Joseph Blatter.
Na Copa da Alemanha, foi gasto 1,5
bilhão (R$ 4,15 bilhões) só com estádios,
cerca de 20% do total investido na realização do
torneio. Deste 1,5 bilhão, cerca de 600 milhões vieram
do Estado.
No Jogos Pan-Americanos do próximo ano, no Rio
de Janeiro, os poderes públicos vão absorver quase 100%
das despesas, atualmente calculadas em R$ 2,5 bilhões.
Só
o governo federal entrará com R$ 1,29 bilhão, o que
representa mais de 50% do orçamento total -no início do
projeto, a parte da União se resumia a 17%. A Prefeitura do
Rio e o governo estadual são os outros investidores
estatais.
(Folha de S. Paulo, Folha Esporte, 07/07/2006)