Bola
fora: apesar dos contratos milionários, CBF deve R$ 2,4
milhões à União
Às
vésperas do início da Copa do Mundo, para a
Confederação Brasileira de Futebol (CBF) vale a teoria
de que “quem vai bem nos campos, vai mal nas contas”.
Faltando uma semana para o início dos jogos da Seleção
Brasileira na Alemanha, a Confederação Brasileira de
Futebol (CBF), que conta com diversos patrocínios milionários
de empresas brasileiras e estrangeiras, está devendo aos
cofres públicos. A entidade, que deve faturar por volta de R$
60 milhões só este ano, está sofrendo uma ação
de execução fiscal no valor de R$ 2,4 milhões.
Um verdadeiro gol contra, antes mesmo de entrar em campo rumo ao
hexa.
Com o dinheiro dessa dívida da CBF com a União
daria para hospedar, durante toda a Copa, 75 pessoas no quarto mais
barato do hotel em que a Seleção Brasileira estava na
Suíça. O processo contra a entidade foi autuado em 18
de março deste ano e está tramitando na 4ª Vara de
Execução Fiscal do Rio de Janeiro. A CBF deve ser
citada nos próximos dias. A dívida da Confederação
que gerou o processo se refere ao vencimento de Imposto de Renda em
junho de 2002. Clique aqui para ver o Termo de Autuação
da CBF.
O motivo para o não pagamento da dívida
com a União, sem dúvida, não é a falta de
dinheiro. Só o último contrato firmado com a Nike, por
exemplo, repassa US$ 12 milhões por ano, o equivalente a R$ 25
milhões, à confederação. Isso sem contar
com a bolada que a CBF está faturando com a Copa do Mundo.
Estima-se que a concentração da seleção
brasileira na cidade Suíça Weggis já tenha
rendido à confederação cerca de US$ 4 milhões.
Menos da metade desse valor seria suficiente para quitar a dívida
de imposto de renda com a União. A CBF recebe ainda
patrocínios da Companhia de Bebidas das Américas
(Ambev) e da companhia telefônica Vivo.
O registro de
inadimplência da entidade comandada por Ricardo Teixeira também
foi encontrado no Informativo de Créditos não Quitados
do Setor Público Federal (CADIN). O registro da inadimplência
foi efetuado pela Procuradoria-Geral do Ministério da Fazenda
em 25/06/2004. O CADIN é um banco de dados onde ficam
registrados os nomes de pessoas físicas e jurídicas em
débito com órgãos e entidades federais. O
registro encontrado no informativo não quer dizer que haja
apenas uma dívida. Mesmo com a existência de mais de um
débito, o CADIN efetua apenas um registro que só pode
ser retirado quando todos forem quitados. Clique aqui para ver a
inadimplência da CBF no CADIN.
Ao que tudo indica, a CBF
também possui pendências junto à Caixa Econômica
Federal (CEF). Com o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica
(CNPJ) da confederação, não é possível
obter um certificado de regularidade junto do Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço, FGTS. De acordo com a CEF, que não
informa o motivo do impedimento para obter o certificado, o problema
pode ser tanto por dívidas, quanto por motivos cadastrais.
Clique aqui para ver que não há comprovação
automática da regularidade da CBF.
Segundo informações
do último balanço feito pela Secretaria da Receita
Previdenciária (SRP), a CBF e federações têm
uma dívida de aproximadamente R$ 71 milhões com a
União. Incluindo todos os clubes, mais a CBF e as federações,
a Previdência tem a receber R$ 1,1 bilhões. A sonegação
de impostos e contribuições, inadimplência e
fraudes são os principais motivos para a existência
deste montante.
Os problemas da CBF com o poder público,
no entanto, vêm de outras Copas do Mundo. Pouco antes da
seleção brasileira conquistar o penta, a entidade foi
alvo de investigações de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito instalada na Câmara dos
Deputados em 2000, que evidenciou a situação caótica
da administração do futebol brasileiro, comandada pela
CBF. A CPI, que tinha como objetivo inicial analisar o contrato entre
a Confederação e a Nike, acabou descobrindo uma série
de irregularidades na entidade e nas federações, como
uso indevido de recursos, doações ilegais para
políticos em campanha eleitoral, dentre outros.
De
acordo com o Deputado do PSDB-SP Sílvio Torres, que participou
da CPI da Nike, a CBF tem contratos milionários, mas a má
administração da confederação, vem sendo
desastrosa desde o início. “Mesmo nos momentos em que
CBF mais arrecadou, as contas nunca estiveram corretas e a
desorganização vem se perpetuando”, disse. Sílvio
Torres criticou a justificativa dada pela CBF de que não
divulga suas contas porque não recebe dinheiro do Governo.
Segundo ele o Governo Federal tem uma parceria com a CBF. “Eles
administram um patrimônio público que é a seleção
brasileira”, acrescentou.
A dívida com a União,
no entanto, não é exclusividade da CBF. Juntos, os Três
Poderes têm aproximadamente R$ 317,6 bilhões a receber
de seus credores inscritos na dívida ativa. Os créditos
em processo de inscrição na dívida irão
somar mais R$ 2,4 bilhões ao valor total. Desse valor, a
provisão de perdas (dinheiro que a União terá
dificuldades para receber) chega a R$ 78,4 bilhões. Os dados,
com posição até 31 de maio deste ano, são
do Sistema Integrado de Administração Financeira,
Siafi.
Até o fechamento da matéria a CBF não
se pronunciou sobre o assunto. A assessoria de comunicação
da entidade disse que somente o assessor da CBF, Rodrigo Paiva,
poderia dar mais esclarecimentos. O Contas Abertas entrou em contato,
por telefone, com o assessor que está na Europa com a Seleção
Brasileira e deixou recado na secretária eletrônica
informando o motivo da ligação, mas não obteve
retorno.
Aline
Sá Teles
Do Contas Abertas
(Contas Abertas, http://contasabertas.uol.com.br/noticias/detalhes_noticias.asp?auto=1410, 05/06/2006)