RECUPERAÇÃO - Governo teme queda no consumo e abalo na economia



EUA TENTAM EVITAR CRISE DE CONFIANÇA PÓS-WORLDCOM



TOM RAUM, Associated Press


A onda de escândalos envolvendo contabilidade fraudulenta de empresas que se abateu sobre Wall Street ameaça afetar a economia americana como um todo, comprometendo a confiança dos consumidores e fazendo soar alarmes entre os políticos de Washington.


Com os investidores já preocupados com a violência no Oriente Médio e a ameaça de novos ataques terroristas, a revelação da fraude contábil de US$ 3,8 bilhões na WorldCom caiu como um raio. Os preços de ações caíram. Do Canadá, onde participa da cúpula do G-8, o presidente George W. Bush chamou as revelações de "ultrajantes" e anunciou a abertura de uma investigação federal. Ele disse estar preocupado com o impacto econômico de atos de "líderes empresariais que não cumpriram com suas responsabilidades".


O secretário do Tesouro, Paul O'Neill, afirmou que o caso mostra a necessidade de tornar mais severas as leis que regem a atividade corporativa. Ele defendeu que os acusados no caso sejam processados criminalmente. Tom Daschle, líder democrata no Senado, foi mais agressivo ao dizer que "alguém tem de ir para a cadeia" e o deputado Richard Gephardt falou em uma "crise de confiança".


Os senadores John McCain, republicano, e Byron Dorgan, democrata, questionaram o fato de a SEC, equivalente à CVM brasileira, não ter sido capaz de prever o escândalo. Horas depois, a SEC entrou com um processo civil, acusando a WorldCom de fraude em um tribunal federal de Nova York. O presidente da SEC, Harvey Pitt, disse que um dos objetivos do processo é impedir que a empresa destrua documentos ou transfira dinheiro a seus executivos. Uma comissão da Câmara dos Deputados intimou três executivos da WorldCom e um analista de ações que recomendou os papéis da companhia a depor em 8 de julho.


A velocidade com que o presidente Bush reagiu às revelações - tomando a iniciativa abordar o assunto anteontem, durante reunião com o premiê britânico, Tony Blair - mostra a gravidade do caso.


A conduta contrasta com o comportamento de Bush e de seus principais assessores quando estourou o escândalo da Enron, no fim do ano passado. Na época, a Casa Branca buscou atenuar a ligação entre Bush e Kenneth Lay, ex-presidente da Enron e amigo de longa data do presidente.


Funcionários do governo se negaram a responder a perguntas gerais sobre contatos da Enron com a Casa Branca e tentaram impedir que o Congresso os investigasse. O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, chegou a qualificar as tentativas de apuração da oposição democrata "expedições de pesca".


Mas, com a crise de desconfiança nas empresas americanas se agravando a cada nova revelação, Bush tomou a iniciativa. "Vamos fazer uma investigação completa e responsabilizar pessoas por ludibriar não apenas acionistas, mas empregados também."


Problemas de contabilidade têm afetado outras empresas americanas, como Tyco, Global Crossing e Adelphia Communications, que entrou na terça com pedido de concordata.


Economistas começam a sugerir que o escândalo vai abalar a confiança de consumidores e investidores, em parte porque atualmente muitos americanos têm ações em Bolsa, a maioria em planos de previdência privada.


"Isto certamente está abalando a confiança de investidores, empresas, e acho que, em breve, de consumidores", disse Mark Zandi, economista-chefe da Economy.com. "Vai bater duro na economia", acredita.


As revelações sobre a WorldCom são o último golpe nos mercados acionários, que já vêm apresentando desempenho ruim há meses. Pela primeira vez desde a década de 20, as bolsas estão caindo nos primeiros meses de uma recuperação econômica.


Gene Sperling, ex-assessor econômico do ex-presidente Bill Clinton, diz acreditar que a modesta recuperação vai continuar, mas considera que os eventos recentes são perturbadores.


"Acho que a demanda que as pessoas esperavam para estimular a economia foi enfraquecida por incertezas em várias frentes: dos escândalos de contabilidade à incerteza no Oriente Médio, até a deterioração de nossa situação fiscal", disse.


"Quando se vê um erro de US$ 4 bilhões, você não se pergunta apenas como uma pessoa pode ter errado tanto. Você pensa em como toda a comunidade de analistas deixou passar algo tão grande e flagrante."





(VALOR ECONÔMICO,
28/6/2002, Ano 3, Nº 539,1º Caderno)