LENDO AS CONTAS PÚBLICAS
OFICIAIS
José
Roberto R. Afonso
Não
é raro vermos entrevistas em que se pergunta sobre um assunto
e se responde sobre outro, totalmente diferente.
Míriam
Leitão publicou uma coluna (9/2) sobre minha leitura dos
recentes dados oficiais do déficit. O secretário do
Tesouro Nacional, Joaquim Levy, reagiu, em declarações
à jornalista (11/2) e em artigo publicado no GLOBO do dia
seguinte. Será uma honra debater com tão importante
autoridade do governo Lula. Mas, como ele mudou de assunto,
insistirei aqui no tema original — o déficit nominal.
Isto é, o excesso de tudo o que os governos gastam além
do que arrecadam. A diferença para o tão falado
superávit primário é que este último não
computa os juros dentre as despesas.
O conceito só foi
resgatado há pouco e (com estardalhaço) pelo próprio
governo. O presidente do BC anunciou (na Suíça, em 11
de janeiro deste ano) que “(...) o déficit nominal (...)
obtido pelo país em 2004 atende aos critérios do
Tratado de Maastricht, que criou a União Européia”.
Vejamos algumas revelações extraídas dos
números oficiais.
O setor público brasileiro
ainda gasta mais do que arrecada — o déficit nominal foi
de R$ 47 bilhões (2,7% do PIB) em 2004.
Apesar de
excelente, o superávit primário foi insuficiente para
atender às despesas com juros: R$ 81 bilhões contra R$
128 bilhões, no ano passado.
O resultado final tem
sido majoritariamente influenciado pelas contas financeiras, como
revela uma comparação entre 2002 e 2004:
—
o déficit nominal caiu em 1,9 ponto percentual do PIB nesse
período, mas o aumento do superávit primário só
explica 0,7 ponto;
— no custo da dívida, por um
lado, diminuiu a parcela gasta com atualizações
monetária e cambial, em 3,3 pontos do PIB;
— os
juros reais da dívida interna, por outro lado, explodiram, de
irrisórios 0,04% do PIB em 2002 para 2,2% do PIB em 2004; em
apenas dois anos, o governo Lula elevou o gasto público com
juros reais no triplo do que aumentou o superávit primário;
— por esfera de governo, a melhoria do resultado
nacional decorreu da queda do déficit estadual e municipal
(-2,2 pontos do PIB), já que o do governo central mais que
dobrou durante o mesmo período (embora, agregada suas
estatais, aumentou apenas 0,3 ponto).
São fatos,
evidências eloqüentes das estatísticas oficiais.
Para o secretário do Tesouro, agora, “é
um erro avaliar apenas o resultado nominal das contas públicas”.
A meta prometida ao FMI é só de superávit
primário. Mas a Lei de Responsabilidade Fiscal é mais
moderna e abrangente. Não menciona “superávit”,
e sim “resultado”. E exige metas, legais, para os dois
conceitos — “nominal” e “primário”.
Poucos sabem que a União tem uma meta de resultado
nominal para 2005, também fixada na LDO: um déficit (
sic
) de R$ 11,7 bilhões, proposto pelo presidente Lula e aplicado
ao conjunto de governo mais estatais (talvez para esconder o pior
resultado do Tesouro).
Olhar para o déficit nominal em
nada desmerece os árduos esforços feitos para a geração
de maiores superávits primários. A sociedade bem sabe o
quanto está custando tal esforço, com a perversa
combinação em que o governo Lula arrecada muito (e cada
vez mais) e gasta mal.
É importante uma visão
mais abrangente dos gastos e questões fiscais. Reconhecer o
tamanho dos encargos da dívida e divulgar o impacto de cada
novo aumento na taxa de juros não significa negar o que se
deve. Ao contrário, o atalho mais curto para o calote é
a falta de transparência (13 mil fornecedores da Prefeitura de
São Paulo reclamam que a gestão anterior do PT apagou
da contabilidade as dívidas por gastos que eles declaram terem
sido efetivamente realizados — espero que o secretário
do Tesouro não continue considerando normal tal prática).
Para Levy, “o nosso objetivo é sempre o
primário, que a gente controla”.
Juros e câmbio
caem do céu? Imaginem um empresário, ao discutir a
situação de sua empresa, pedir que se ignore no balanço
o maior item de suas despesas, as financeiras, alegando que decorrem
de “variáveis que ele não controla”!
A
maioria das economias avançadas adota regimes de câmbio
flutuante e metas inflacionárias, usando o déficit
nominal na análise e até mesmo como restrição
orçamentária — caso da União Européia
(que usa o superávit primário como variável
auxiliar, assim como o investimento público).
Cumprimento
o secretário Levy pela iniciativa de incluir a rolagem da
dívida estadual e municipal como nova pauta para um futuro
debate.
Mas não cabe misturar esse tema com a presente
discussão, de outro e maior assunto — o déficit
público. Ninguém quer confundir juros devidos com juros
pagos. São bem diferentes no caso da rolagem. Para o cálculo
oficial do déficit, os juros refletem o ritmo de correção
das dívidas estaduais e municipais, atrelada à variação
do IGP. Já o que eles pagam resulta de uma vinculação
de suas receitas (como foram crescentes, o Tesouro só teria
recebido menos se não executasse garantias de quem lhe desse
calote).
Enfim, é preciso mudar a imagem de “caixa
preta” que ainda cerca os assuntos fiscais, esclarecendo
conceitos e salientando dados (sempre oficiais), como nesta
oportunidade de debate aberta pelo economista do PT.
JOSÉ
ROBERTO R. AFONSO é mestre em Economia e funcionário
do BNDES, a serviço da Câmara dos Deputados
(O Globo, Economia, 16/02/2005, p. 27)