ESSE OBSCURO OBJETO DO FUTEBOL



Balanços de clubes do Rio são os menos transparentes

Fellipe Awi - O GLOBO

Domingo, 20/06/2004

RIO DE JANEIRO - Celebrada como um instrumento de moralização do futebol, a publicação dos balanços financeiros dos clubes tem convencido apenas os leitores leigos. Aos olhos de especialistas, os documentos apresentados pelos cartolas não são transparentes e contêm várias irregularidades contábeis.


A situação é tão caótica que o Conselho Regional de Contabilidade do Estado do Rio (CRC-RJ) abriu processos administrativos contra Flamengo, Fluminense e Vasco e contra as auditorias independentes que aprovaram os balanços destes clubes.


Para tomar esta atitude, o conselho analisou, durante um mês, o balanço de 2002/2003 de dez clubes brasileiros: Flamengo, Fluminense, Vasco, Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Internacional, Grêmio, Atlético-MG e Cruzeiro — os de fora do Rio, a título de comparação. O Botafogo só não foi incluído porque sequer publicou balanço, alegando falta de documentos da diretoria anterior. De todos, foram os balanços dos clubes do Rio os considerados menos transparentes. Nenhum deles atingiu o seu principal objetivo: mostrar a verdadeira situação financeira e patrimonial das entidades. Mesmo assim, ainda ficou claro que são também os times cariocas os que têm a pior saúde financeira.


Todos estão em situação caótica. Com o patrimônio apresentado, os clubes do Rio não têm nenhuma condição de pagar suas dívidas. E isso porque eles ainda têm de explicar vários pontos obscuros nos seus balanços — afirma o presidente do conselho, Nélson Rocha.


Antes da promulgação da Lei Pelé, os clubes de futebol só precisavam prestar contas aos seus conselhos fiscais. A nova legislação os obriga a publicar seus balanços em jornais ou revistas de grande circulação. De acordo com o artigo 46 da Lei 10.672/2003, que alterou a Lei Pelé, o dirigente de clube que não publicar corretamente seu balanço deve ficar inelegível por cinco anos.


VASCO SUPERVALORIZA SEUS JOGADORES

São variadas as deficiências dos documentos publicados. A mais comum delas é a falta de registro de dívidas potenciais. O Vasco, por exemplo, considerado o clube menos transparente pelo CRC, não registrou as eventuais dívidas de vários processos trabalhistas movidos por ex-atletas como Edmundo e Fernanda Venturini.


Tem que provisionar uma possível perda. Quem vai querer investir numa empresa que não sabe bem como está a sua saúde? — pergunta o fiscal contador José Antônio Felgueiras, um dos responsáveis pela análise do conselho.


Além disso, segundo o balanço do clube, o Vasco tinha, no dia 31 de dezembro de 2003, R$ 53 milhões de ativos no item “Passes de atletas”. O Vasco jogou o seu último jogo do ano passado com um time nada valioso: Fábio, Alex Silva, Henrique,Wescley e Vítor Boleta; Coutinho, Igor, Rodrigo Souto e Morais; Régis e Valdir. Segundo o conselho, só por causa destes fatores que o Vasco conseguiu apresentar patrimônio líquido positivo. Faltou ainda ao clube apresentar os resultados do exercício de 2002, item obrigatório em balanços.


Só para comparar: o balanço do Palmeiras tem uma página e meia enquanto o do Vasco tem apenas meia página. Faltam muitas explicações — afirma Felgueiras.


De fato, se comparados com o de outros clubes do país, os balanços dos cariocas impressionam pela modéstia. Não é feita uma reavaliação dos ativos imobilizados (bens imóveis). A ordem parece ser evitar o detalhamento de qualquer item. No caso de Flamengo, Grêmio e Internacional, o balanço foi publicado sem o parecer de uma auditoria independente, o que é obrigatório. Segundo o vice-presidente de finanças do clube rubro-negro, Sebastião Pedrazzi, isso só aconteceu no dia seguinte, quando foi percebida a falha. O documento do Flamengo revela uma sucessão de administrações temerárias. Em 2003, o rubro-negro teve quase R$ 24 milhões de prejuízo, o equivalente a 45% de sua receita. O patrimônio líquido negativo é de mais de R$ 136 milhões. Tudo isso o leva ser considerado pelo CRC como o clube de pior situação financeira e patrimonial.


PRÓXIMO ALVO DA ANÁLISE É O BOTAFOGO

O balanço do Fluminense não tem propriamente erros técnicos mas também peca na transparência. Suas notas explicativas, segundo o conselho, poderiam ser bem mais elucidativas. Do que se pode enxergar no documento, a situação é muito ruim. Ao fim de 2003, o clube tricolor só tinha R$ 11,7 milhões em ativos circulantes (créditos a receber a curto prazo) para pagar passivos de R$ 128,3 milhões. Este foi um dos fatores que contribuiu para o déficit de quase R$ 10 milhões no exercício do ano passado, bem como para um patrimônio líquido negativo de R$ 81,1 milhões.


Por não ter apresentado balanço, alegando a falta de documentos da diretoria anterior, o Botafogo ainda não está sendo processado mas, segundo Felgueiras, isso deverá ser uma questão de tempo. Segundo o CRC, o clube deveria ter publicado pelo menos os números do primeiro ano do mandato do presidente Bebeto de Freitas.


A sucessão de maus resultados financeiros, associada à falta de transparência dos balanços patrimoniais, leva o presidente do conselho a sugerir no Brasil o modelo do futebol francês. Em 2002, por causa de problemas contábeis, o Monaco chegou a ser rebaixado para a Segunda Divisão nacional. Só conseguiu permanecer na Série A depois de aceitar a intervenção de um órgão da federação francesa, que podia impedir até a contratação de jogadores.



Não basta publicar. Tem que publicar e ser transparente — afirma Nélson Rocha, que ainda sugere aos clubes balanços trimestrais e não anuais, como nas empresas de capital aberto.


CONHEÇA A SITUAÇÃO DOS DEZ TIMES ANALISADOS

RANKING DA TRANSPARÊNCIA*

PATRIMÔNIO LÍQUIDO

RESULTADO DO EXERCÍCIO DE 2003

RANKING DA SAÚDE FINANCEIRA*

1

PALMEIRAS

PALMEIRAS ....... R$ 135,8 milhões

SÃO PAULO ........... R$ 7,1 milhões

1

SÃO PAULO

2

CORINTHIANS

SÃO PAULO ...... R$ 119,4 milhões

CRUZEIRO .............. R$ 248 mil

2

CORINTHIANS

3

GRÊMIO

CORINTHIANS .. R$ 90 milhões

GRÊMIO ............... (R$ 4,5 milhões)

3

CRUZEIRO

4

SÃO PAULO

CRUZEIRO ........ R$ 48,5 milhões

ATLÉTICO-MG ...... (R$ 7,8 milhões)

4

PALMEIRAS

5

ATLÉTICO-MG

ATLÉTICO-MG ... R$ 39,6 milhões

FLUMINENSE ...... (R$ 9,9 milhões)

5

GRÊMIO

6

INTER-RS

GRÊMIO ........... R$ 10,7 milhões

CORINTHIANS .... (R$ 10,4 milhões)

6

ATLÉTICO-MG

7

CRUZEIRO

VASCO ............ R$ 6,9 milhões

INTER-RS ............. (R$ 10,6 milhões)

7

INTER-RS

8

FLUMINENSE

INTER-RS ....... (R$ 13,2 milhões)

VASCO ................ (R$ 13 milhões)

8

VASCO

9

FLAMENGO

FLUMINENSE . (R$ 87,2 milhões)

PALMEIRAS ........ (R$ 15,2 milhões)

9

FLUMINENSE

10

VASCO

FLAMENGO ... (R$ 139,7 milhões)

FLAMENGO......... (R$ 23, 8 milhões)

10

FLAMENGO

GLOSSÁRIO:
ATIVOS: Bens e direitos;
PASSIVOS: Obrigações;
PATRIMÔNIO LÍQUIDO: Diferença entre os ativos e passivos.

(*) Segundo o Conselho Regional de Contabilidade-RJ
FONTE: O Globo, Esportes, 20/6/2004.






(O GLOBO, ESPORTES, 20/6/2004)




CBF E FEDERAÇÃO DO RIO TAMBÉM TÊM PROBLEMAS




Entidade nacional cometeu um erro contábil que transformou prejuízo de R$ 23 milhões em lucro


No futebol brasileiro, o exemplo não vem de cima. A CBF e Federação de Futebol do Rio, cada uma a seu jeito, também apresentam irregularidades em seus balanços, de acordo com o Conselho Regional de Contabilidade do Estado do Rio (CRC-RJ). Assim como aconteceu com os clubes, o conselho abriu processos administrativos contra as duas entidades.


O erro contábil cometido pela CBF foi motivo de uma ressalva da auditoria que fez o parecer do balanço. A entidade considerou como receita, no exercício de 2003, o valor de R$ 28 milhões de patrocinadores referente a uma parcela que sé venceria em 2004. A contabilização correta deste adiantamento evidenciaria um déficit de R$ 23 milhões em 2003 e um patrimônio líquido negativo de R$ 21 milhões. No balanço, a CBF se apresentou com um superávit de R$4,8 milhões e com um patrimônio líquido positivo de R$6,4 milhões.


-A CBF representa o Brasil no mundo. Tem o compromisso de ser transparente para a sociedade – diz o presidente do CRC, Nélson Rocha.


O contador da CBF, Maurício Costa, confirma o erro contábil mas explica que, como a entidade registra o adiantamento da Nike desta maneira há muito tempo, ele não poderia mudar o critério.

-Contabilmente não cumprimos o princípio da competência mas fiscalmente, sim – afirma.



BALANÇO DA FERJ IMPRESSIONOU FISCAL PELA FALTA DE TRANSPARÊNCIA


O conselho considerou o balanço da Federação do Rio um dos menos transparentes de todos. Segundo o fiscal contador José Antônio Felgueiras, há contas em que é até impossível descobrir do que se trata. As notas explicativas são modestíssimas. A entidade sequer publicou o item “passivos exigíveis a longo prazo”, que se refere às dívidas para pagamentos após o término do exercício seguinte.


-É impossível saber a situação real da Federação através do seu balanço – afirma Felgueiras.


Para o advogado da FERJ, Luis Gutman, o conselho de contabilidade está “exacerbando seus poderes” ao fazer uma análise do balanço das federações e dos clubes:
-O conselho serve para fiscalizar o exercício da profissão. Existem diversas técnicas de análises de balanço, e qualificá-las não é competência deles. Nem fazer isso direito eles sabem.



O QUE DIZEM OS DIRIGENTES:


Abaixo, as explicações dos quatro grandes clubes do Rio para a avaliação do Conselho Regional de Contabilidade.

VASCO: O vice-presidente do Vasco, Amadeu Pinto da Rocha, não quis fazer maiores considerações sobre as irregularidades encontradas pelo Conselho Regional de Contabilidade. Disse apenas que é difícil avaliar o valor dos direitos federativos dos jogadores. “Nosso balanço reflete a realidade do Vasco”, afirmou Amadeu. Depois, argumentou que o presidente do conselho, Nélson Rocha, é membro do Movimento Unido Vascaíno, de oposição à atual diretoria.


FLAMENGO: O vice-presidente de finanças rubro-negro, Sebastião Pedrazzi, confirmou que o Flamengo não publicou o parecer de uma auditoria independente junto com o balanço. Mas disse que o erro foi corrigido nos jornais no dia seguinte. “Foi um esquecimento”, disse.


BOTAFOGO: Segundo a assessoria de imprensa do Botafogo, o clube não publicou o balanço patrimonial porque a diretoria anterior não deixou documentos contábeis dos anos anteriores. Ainda segundo a assessoria, era necessária uma comparação com o outro exercício para que se pudesse avaliar o primeiro ano de mandato do presidente Bebeto de Freitas.


FLUMINENSE: O cargo de vice-presidente de Finanças não está ocupado. O presidente tricolor, David Fischel, não foi encontrado.




(O GLOBO, ESPORTES, 20/6/2004)