GLOBO
DIVIDIRÁ CONTROLE DA NET COM A TELMEX
Empresa
mexicana vai investir até US$370 milhões na operação
de TV a cabo
Menos
de uma semana depois da aprovação da compra da
Embratel, a Telmex anunciou um novo negócio no País: a
empresa mexicana participará do bloco de controle da Net
Serviços, maior companhia de TV paga do País, ao lado
da Globopar, holding das Organizações Globo. Segundo
comunicado da Telmex, a empresa investirá de US$250 milhões
a US$370 milhõesemações da empresa, passando a
controlar entre 30% e 60% do capital total. O negócio depende,
entre outros fatores, do sucesso na renegociação da
dívida da Net, que soma cerca de R$1,5 bilhão.
A
Telmex e a Globopar serão sócias em uma nova empresa,
que deterá 51% das ações com direito a voto da
Net. A legislação brasileira proíbe estrangeiros
de deterem o controle de empresas de TV a cabo e, por isso, aGlobopar
terá o controle da nova holding, com 51%, enquanto a empresa
mexicana deve ficar com 49%.
O
diretor de Alianças Estratégicas da Telmex, Arturo
Alias Ayub, afirmou ontem que o interesse da empresa é
adquirir o controle da Net, caso ocorra umamudança na
legislação.
Ele
acrescentou que, mesmo se a lei não mudar, a Telmex continuará
como minoritária, buscando espaço para atuações
em conjunto da empresa deTV paga com a Embratel. “Temos a boa
fé de poder fazer atividadesemconjunto”, disse o
executivo, acrescentando que ainda não existe nenhum acordo
formal para explorar sinergias.
Ayub
disse que o relacionamento da empresa com a família Marinho,
dona da Globo, é “muito novo, porém muito bom”.
Ele afirmou que serão estudadas parcerias de conteúdo
entre a Globo e a Televisa, maior empresa de mídia do México,
que tem entre os sócios Carlos Slim Helú, dono da
Telmex.
O
principal interesse da Telmex na Net é a rede da empresa, que
passa pela frente de 6,6 milhões de residências. Esta
infraestrutura poderia ser usada pela Embratel para oferecer
telefonia fixa e internet rápida.
Vinte
por cento da rede já é bidirecional.
Ou
seja, já está pronta para oferecer o serviço.
“Nos Estados Unidos, as empresas de cabo são grandes
concorrentes das operadoras de telefonia local”, afirmou a
analista Andréa Rivas, do Yankee Group. “No Chile, a
companhia de cabo VTRé a segunda maior na telefonia local, com
7% das linhas.”
Caso
a renegociação da dívida da Net não dê
resultado, a Globopar ainda tem a opção de vender 34%
da Net para Telmex, por US$ 130 milhões, entre 30 de outubro
deste ano e 1.º de julho de 2005. “A Telmex deve ter um
impacto positivo na reestruturação da dívida”,
reconheceu Francisco Valim, presidente da Net. A empresa precisa da
adesão de 95% dos credores para o plano de renegociação
e, até agora, conseguiu 70%. A empresa espera terminar o
processo até novembro.
A
Net suspendeu o pagamento da dívida em dezembro de 2002, e
desde então tenta renegociá-la. A proposta final,
divulgada ontem, prevê a redução do endividamento
total estimado em R$1,5 bilhão para R$1,395 bilhão, com
o perdão de multas por atraso de pagamento. Perto de 60%
seriam substituídos por outros papéis com vencimento
até 2010. O restante teria pagamento emdinheiro, resultado de
um aumento de capital garantido pela operação com a
Telmex. Caso não dê certo a entrada da empresa mexicana
na companhia, os credores correm o risco de receber parte ou todos os
40% restantes em ações e o prazo total de pagamento
passaria a 2012. “A Net deve deixar de ser uma empresa olhada
porque tem problema e passar para uma situação de
normalidade”, explicou Valim. O plano prevê o lançamento
de 1,825 bilhão de ações. Ontem, os papéis
preferenciais da Net fecharam com queda 18,18% na Bolsa de Valores de
São Paulo.
Na
semana passada, antes do anúncio, haviam subido 14,1%.
Além
da Globopar, estão no controle da Net a RBS, o BNDESPar e a
Bradespar.Opresidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES), Carlos Lessa, disse que não foi informado
sobre o negócio com a Telmex. Segundo a Globopar, o acordo foi
concluído domingo e só agora a empresa vai conversar
com os outros acionistas para apresentar o que foi acertado com o
grupo mexicano. “A operação será divulgada
passo a passo”, informou uma fonte da holding da
famíliaMarinho.
O
investimento da Telmex não irá para o caixa da Net,
pois a empresa vai adquirir ações da Net. Parte dos
recursos serão destinados à Globopar e parte aos
credores.
(GRAZIELLA
VALENTI, DANIELA MILANESE, MÔNICA CIARELLI, ALAOR BARBOSA E
RENATO CRUZ)
(O
ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA E NEGÓCIOS, 29/6/2004, p.B-6)
COMPETIÇÃO
NA TELEFONIA LOCAL PODE AUMENTAR
A
entrada da Telmex no controle da Net, maior operadora de TV por
assinatura do País, pode aumentar a concorrência na
telefonia fixa. A Embratel, que também pertence à
Telmex, tem condições de usar a rede da empresa para
chegar à casa do assinante e competir com a Telefônica,
Telemar e Brasil Telecom. “Faz todo o sentido para a Embratel
se posicionar no mercado”, disse a analista Andréa
Rivas, do Yankee Group.
A
aquisição faz parte do movimento de consolidação
no mercado de telecomunicações. Quando o Sistema
Telebrás foi privatizado, em 1998, a previsão era de
que sobrassem, com o passar dos anos, 4 ou 5 grandes grupos. Hoje,
esses grupos são os ibéricos (com a Telefônica e
a Vivo), os mexicanos (com a Embratel e a Claro), os italianos (com a
TIM), a Telemar (que controla a Oi) e o Banco Opportunity (com a
Brasil Telecom e a Telemig Celular). A Intelig, concorrente da
Embratel, é apontada como próximo alvo de compra.
O
negócio trouxe otimismo ao setor de TV paga, que enfrentou uma
séria crise nos últimos dois anos. “Vemos isso
tudo de maneira positiva”, afirmou a diretora-superintendente
da TVA, Leila Loria. “O plano anunciado pela Net é o
início do fim de um período turbulento para o mercado
de TV por assinatura como um todo.”
(CLARISSA
OLIVEIRA e R.C.)
(O
ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA E NEGÓCIOS, 29/6/2004, p.B-6)