OS AUDITORES E O ESCÂNDALO PARMALAT




CELSO MING


O presidente da filial brasileira da Deloitte Touche Tohmatsu, Alcides Hellmeister Filho, pede que esta coluna publique esclarecimentos seus sobre questões levantadas no comentário do dia 22 (Cegos, mas guias de cegos), que, segundo ele, contêm conclusões equivocadas.


Resumidamente, aqui vai a contestação de Hellmeister Filho:

(1)Não é justo generalizar fato isolado ocorrido há dois anos nos Estados Unidos (o escândalo da En-ron) em prejuízo da reputação dos profissionais da área de auditoria.

(2)O problema com a Parmalat está relacionado com uma empresa financeira do grupo não auditada pela Deloitte, e sim por outra firma, representada no Brasil por uma conhecida empresa local de auditoria não mencionada na coluna.

(3)A Deloitte contribuiu para a descoberta do rombo durante o processo de auditoria feito na Parmalat.

(4)Não está correia a afirmação de que a Deloitte herdou a maioria das contas internacionais da Arthur Andersen, a auditora da Enron. Seus antigos clientes buscaram novos auditores, "em um ambiente de extrema concorrência e alguns optaram pela Deloitte".


SEM GOLEIRO - Ninguém está subestimando a importância do trabalho dos auditores. Sem eles, uma empresa é como um time de futebol sem goleiro.


Esta coluna não está apenas denunciando a cada vez mais freqüente "cegueira" ou, até mesmo, a conivência de profissionais da área com práticas criminosas ou com a chamada "contabilidade criativa" determinada por dirigentes de empresas de todos os calibres. Está questionando, também, a falta de procedimentos mais seguros do que os adotados pelas empresas de auditoria.


Infelizmente, o escândalo Enron não é um caso isolado, como afirma Hellmeister Filho. Na sua edição do dia 25, o The New York Times lista nada menos que 14 desastres recentes, apenas no mercado americano, em que "o auditor teve uma longa relação com a empresa e deveria ter conhecimento de sobra". São eles: Tyco, Ahold, Enron, Rite Aid, Xerox, Cendant, HealthSouth, WorldCom, Micros-trategy, W. R. Grace, Sun-beam, Lucent, Oxford Health e Adelphia. Os mais rumorosos casos ocorridos no Brasil foram mencionados neste espaço na edição do dia 22.


A Deloitte não é a responsável pelos serviços de auditoria realizados em um suspeito braço financeiro da Parmalat sediado nas Ilhas Cayman. E foi a primeira a apontar o problema. Mas isso não muda as coisas. A Deloitte assumiu a auditoria da Parmalat italiana em 1999 e, desde então, ou porque confiou no trabalho de terceiros ou porque não enxergou o câncer que havia anos se espalhara no organismo da Parmalat, vinha atestando, em balanços trimestrais, que os demonstrativos contábeis de sua cliente refletiam saúde patrimonial e financeira.


INSEGURANÇA - E, no entanto, a empresa que pediu concordata quarta-feira na Itália não foi um braço financeiro mergulhado num paraíso fiscal; foi o corpo inteiro da Parmalat. O mínimo que se pode dizer é que os atuais procedimentos não são seguros a ponto de permitirem que um auditor afira a verdadeira situação contábil de uma empresa quando não controle também as contas de coligadas.


Não houve por parte desta coluna intenção de poupar a "conhecida empresa local de auditoria não mencionada no artigo", que representa no Brasil a encarregada de examinar a contabilidade da filial da Parmalat sediada nas Ilhas Cayman - como ficou insinuado na carta do presidente da Deloitte. Fica tudo mais claro se forem dados nomes aos bois.


A auditora da Bonlat Financing Corp., a subsidiária da Parmalat onde está o foco da encrenca, é, há 13 anos, a Grant Thornton, cujo representante no Brasil é a auditoria Trevisan.


Falta dizer alguma coisa a respeito dos antigos clientes da Arthur Andersen "herdados" pela Deloitte. Pelo menos um grande concorrente brasileiro da Deloitte, a Price Waterhouse, não aceita o argumento de que os antigos clientes da Arthur Andersen foram conquistados "em um ambiente de extrema concorrência" e que, por isso, a Deloitte está dispensada, no caso desses novos clientes, de submeter-se à obrigatoriedade de rotação de auditores imposta pela CVM. Esta é matéria em discussão na Justiça.



(O ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA, 27/12/2003)