ECONOMIA


CEGOS, MAS GUIAS DE CEGOS




Os escândalos nas grandes corporações vêm-se sucedendo com desconcertante regularidade. Todos eles apontam para estranhos casos de cegueira que acometem particularmente os auditores.


Há dois anos estourou o caso Enron e em seguida o da WorldCom. Depois de histórias de calibre relativamente mais baixo, é a italiana Parmalat que sacode o mundo das finanças.


Desta vez, o rombo emergiu no início do mês, quando a empresa não conseguiu honrar uma dívida de 150 milhões. Na sexta-feira, apareceu um crédito fantasma, supostamente junto ao Bank of America, de nada menos que 3,9 bilhões. Sabe-se ainda do sumiço de outros 2,9 bilhões em ações da própria empresa, que deveriam estar custodiados em tesouraria, e não estão.


Quando um esqueleto é retirado a cada dia do mesmo ou de vários armários, é difícil avaliar previamente o tamanho da devastação. Ainda assim, este serial killer conta com um apoio solidário importante: o do primeiro-ministro da Itália, o controvertido Silvio Berlusconi. Ele já passou o recado de que pretende despejar dinheiro público para salvar a multinacional italiana, porque não pode deixar que se percam 4 mil empregos.


(Apenas para dar alguma proporção às coisas, 3 mil empregos foi quanto a Volskwagen brasileira pretendeu destruir por carta em novembro de 2001. Acabou admitindo que 1,5 mil fossem recontratados e 1,5 mil recebessem licença remunerada.)


PARA QUÊ? - Questão ainda mais relevante do que os escândalos de gerenciamento corporativo é a mesma que permaneceu sem solução nos episódios anteriores. Trata-se de saber para que serve, afinal, um auditor independente. Em princípio, ele está lá para atestar a acionistas, analistas, credores e quaisquer outros interessados que as demonstrações contábeis são confiáveis. A principal auditora da Parmalat é a Deloitte & Touche, a mesma que herdou a maioria das contas internacionais da Arthur Andersen, a auditora da Enron que foi reconhecida como cúmplice na falcatrua e, por isso, obrigada a encerrar suas atividades.


Como das outras vezes, os executivos da Deloitte Internacional e da Grant Thornton, auditoria que vinha cuidando de algumas subsidiárias da Parmalat, asseguram que cumpriram todos os procedimentos esperados.


Também como das outras vezes, vão dizer que são apenas auditores e que lidam com demonstrações financeiras; e não são detetives especializados em fraudes corporativas.


No caso da Parmalat, não estamos falando de uma mosca que, lá pelas tantas, caiu no latão de leite. Lá está um paquiderme de pelo menos 7 bilhões. E, no entanto, o auditor não o viu ou fingiu que não o viu.


Histórias parecidas o brasileiro viu muitas. Em 1994, a KPMG, encarregada de passar certidão de confiabilidade nos balanços do Banco Nacional, garantia que em, quase dez anos de rastreamento, não conseguiu detectar um rombo de US$ 7 bilhões num total de ativos de US$ 13 bilhões.


CAROCHINHA - Poucas semanas depois, o Banco Econômico sofreu intervenção do Banco Central por não apresentar patrimônio líquido suficiente para honrar seus compromissos. Curiosamente, isso aconteceu dias depois que a Ernest & Young atestara lisura nos balanços da empresa.


Dois anos depois, quando o Banco Boavista foi repassado para o grupo português Espírito Santo, verificou-se que seu lucro líquido, de R$ 56,8 milhões, não passava de conto da carochinha.


Até hoje não ficou explicado por que a PriceWaterhouse deixou passar uma fraude de R$ 242 milhões nos livros do Banco Noroeste, cerca da metade do seu patrimônio líquido, detectada apenas após sua incorporação pelo Banco Santander.


A questão merece vários desdobramentos, mas acaba desembocando numa vala comum: alguém precisa cobrar qualidade no serviço prestado pelos auditores.


O diabo é que, também aí, eles pretendem assegurar independência e auto-regulação, sob o surrado argumento de que a atividade deles é altamente especializada, inacessível para leigos: quem não tem diploma de auditor não tem competência para fiscalizar auditor.


Escândalo após escândalo, a coisa vai ficando entre eles e morre aí. Em fevereiro de 2002, quando do trauma causado pela Enron, o The Wall Street Journal observava que o sistema de auto-regulação "nunca propôs alguma punição contra grandes firmas do setor". Quem puder que o desminta.



(O ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA, 22/12/2003)