LIVRE
MERCADO PRECISA DE NOVAS REGRAS
ESTÁ
EM RISCO A CONFIANÇA DEPOSITADA NOS MERCADOS E, POR EXTENSÃO,
NO FUTURO DOS EUA
JOHN MCCAIN
The New York Times
Numa
série de falências e escândalos de companhias
norte-americanas, desde a Enron até a WorldCom, vimos os
primeiros princípios dos mercados livres - transparência
e confiança - caírem vítimas de executivos
oportunistas que exploram um clima de regulamentação
frouxa.
Há
muito tempo sou contrário à regulamentação
desnecessária da atividade empresarial, por estar consciente
de que a mão forte do governo pode desestimular a
criatividade. Mas, no clima atual, somente a restauração
do sistema de controles que outrora protegiam o investidor
norte-americano - e que se deteriorou seriamente nos dez últimos
anos - poderá restaurar a confiança que faz funcionar
os mercados financeiros.
O
Congresso e o presidente dos Estados Unidos devem agir rapidamente
para criar um projeto de lei de reforma da administração
empresarial e da supervisão governamental. E eu gostaria de
acrescentar uma sugestão: deveriam pedir também a
renúncia de Harvey Pitt, "chairman" da Securities
and Exchange Commission (SEC, Comissão de Títulos e
Valores Mobiliários).
Embora
Pitt possa ser um bom homem, deu agora a impressão de ser
lento e inseguro quando se trata de enfrentar abusos da contabilidade
e resta ainda o receio de que ele não se distanciou
suficientemente de seus antigos clientes.
A
necessidade de ação e de supervisão do governo
ficou evidente. As companhias inventaram lucros, ocultaram gastos e
estabeleceram parcerias com base em balanços falsos para
mascarar seus passivos e inflar os lucros.
Alguns
executivos aumentaram ao máximo seus salários com
planos de opções de ações que oneraram as
companhias com custos enormes, e esses custos foram ocultados dos
investidores. Conceituadas firmas de contabilidade, depois de virarem
os olhos enquanto as companhias adulteravam os livros contábeis,
destruíram documentos para ocultar atos ilegais de seus
clientes. Embora a política fiscal norte-americana as tenha
encorajado a agir assim, as companhias que mudam suas sedes legais
para o exterior a fim de evitar impostos parecem ser notoriamente
ingratas ao país cujos jovens - homens e mulheres - estão
hoje arriscando a vida para defendê-las.
As
reformas devem garantir uma completa separação dos
serviços de auditoria e de consultoria fornecidos por uma
firma de contabilidade: uma empresa encarregada de auditorar uma
companhia deve ser proibida de fornecer - para sempre - qualquer
serviço de consultoria a essa companhia. O projeto de lei
patrocinado pelo senador Paul Sarbanes prevê a criação
de um Accounting Oversight Board (Conselho de Supervisão da
Contabilidade) para estabelecer e fazer cumprir os padrões
para auditorias de companhias cujas ações são
negociadas nas bolsas. Mas este órgão de supervisão
deveria ser completamente independente da indústria,
financiado como parte integrante da SEC ou como uma agência
separada.
As
opções de ações, embora uma forma
legítima e valiosa de compensação para os
empregados, deveria ser identificada como um gasto operacional nos
informes financeiros de uma companhia registrada na Bolsa. Os altos
executivos deveriam ser proibidos de vender as participações
que possuem no capital social da companhia, enquanto estão a
serviço da companhia. Os executivos deveriam ser autorizados a
exercer suas opções, mas seus lucros líquidos
após o pagamento de impostos deveriam ser mantidos no capital
da companhia até 90 dias depois de terem deixado a empresa.
Os
executivos deveriam ser obrigados a devolver toda compensação
financeira derivada diretamente de conduta ilegal comprovada. Além
disso, a comissão de salários da companhia deveria ser
formada por membros da diretoria que não têm nenhum
relacionamento importante com a companhia ou nenhum relacionamento
pessoal com sua equipe administrativa. Na verdade, toda a diretoria
deveria ser igualmente independente, com exceção apenas
do presidente-executivo.
Os
altos executivos deveriam ser obrigados a atestar pessoalmente a
exatidão dos relatórios públicos da companhia e
a revelação cabal de todas as informações
essenciais para a saúde financeira da companhia.
Se
atestarem falsamente, deveriam ir para a cadeia.
O
governo deveria eliminar importantes "conflitos de interesse"
em instituições financeiras de "serviço
pleno". Os serviços de investimento, inclusive a
pesquisa, deveriam ser separados da concessão de empréstimos,
da subscrição de ações e das transações
com títulos e ações.
Mesmo
depois da adoção destas e outras medidas necessárias,
pedir a renúncia de Pitt contribuiria para mostrar ao público
a nossa seriedade. Durante seus primeiros dez meses como "chairman"
da SEC, Pitt não participou de 29 das votações
da Comissão – a maioria delas envolvendo antigos
clientes seus.
Para
enfrentar a conduta ilegal das companhias, ele parece preferir o
autopoliciamento da indústria à criação
de uma legislação necessária. As exigências
do governo para a contabilidade das companhias só poderão
ser confiáveis se os executivos do governo também
puderem ser responsabilizados por seus atos.
O
que está em risco é a confiança que os
investidores, os empregados e todos os norte-americanos depositam em
nossos mercados e, por extensão, no futuro do país.
Amar o mercado livre é detestar o comportamento escandaloso
dos que traíram os valores da abertura que estão no
âmago de um sistema capitalista sadio e próspero.
John
McCain é senador republicano pelo Estado de Arizona (EUA)
(O
ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA, 11/7/2002, p.B-2)