A MESMA ARTHUR ANDERSEN




A fraude da WorldCom, de US$ 3,8 bilhões, montada por meio da contabilização de despesas e outros gastos operacionais da empresa na rubrica de investimentos, inflando o balanço da gigante de telecomunicações, intensifica a desconfiança internacional não só quanto aos balanços das empresas americanas, mas também em relação às empresas de auditoria. No caso da WorldCom, a responsável é a Arthur Andersen, a mesma que auditou as contas da Enron e que, por causa disso, quebrou. Para aferição de suas contas, a WorldCom pagou à Arthur Anderson US$ 3 milhões, segundo contou ontem Antoninho Marmo Trevisan, da Trevisan e Associados, depois de analisar o balanço da empresa. Ao mesmo tempo, a empresa pagou à auditoria outros US$ 8 milhões pela tarefa de consultoria. "Está claro aí, mais uma vez, o conflito de interesses", contabiliza Trevisan, lembrando que, com o movimento de crescimento econômico, as empresas americanas experimentaram um processo rápido de reestruturação por meio de fusões e aquisições, introduzindo o conceito de premiação por bônus. "Os executivos, em período de bonança, recebiam fortunas por causa do conceito e, quando isso começou a ruir e o mercado a exigir desempenho, os executivos passaram a buscar a criatividade contábil para compensar", explica. E aí entram as empresas de dupla função, consultoria/auditoria. Trevisan, no entanto, ressalva: não é pecado ser criativo, desde que não se cometa fraudes.


Há duas décadas, segundo Trevisan, o auditor não trabalhava nos dois campos. Com o crescimento vertiginoso do mercado americano, porém, os profissionais do setor resolveram que deveriam crescer também, aumentando seus ganhos como consultor. "O auditor foi assim perdendo sua natureza e a prova maior disso apareceu de maneira gritante com a Enron e, agora, com a complacência da Arthur Andersen em relação à WorldCom." Segundo Trevisan, não há qualquer ressalva registrada no balanço da empresa para o fato de despesas terem sido misturadas com investimentos. "O que demonstra a concordância com a contabilização das despesas relacionadas com todo tipo de gasto e nenhum valor de investimento, tratadas como se investimento fossem, feita de modo grosseiro."


SÔNIA RACY



(O ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA, 28/6/2002)