FRAUDE
DA WORLDCOM DERRUBA BOLSAS E AMEAÇA O FUTURO DA COMPANHIA
POR
JARED SANDBERG, DEBORAH SOLOMON
E REBECCA BLUMENSTEIN
THE Wall
Street Journal
NOVA
YORK - Tudo começou há poucas semanas com uma checagem
de rotina conduzida por Cynthia Cooper, uma auditora interna da
Worldcom Inc. O novo diretor-presidente da telefônica
americana, dona da Embratel, havia requisitado uma revisão
completa nos livros da empresa, e a missão dela era examinar
uma lista de investimentos de capital.
De
acordo com fontes a par do caso, Cooper logo achou algo que chamou
sua atenção. Trimestre após trimestre, começando
em 2001, o diretor financeiro da empresa, Scott Sullivan, havia usado
uma técnica heterodoxa para contabilizar uma das maiores
despesas da telefônica de longa distância: o pagamento
feito a telefônicas locais para completar ligações.
Em
vez de lançá-los como despesa operacional, ele moveu
porções significativas dos gastos para a categoria de
investimentos de capital. A manobra, que movimentou centenas de
milhões de dólares dos resultados da WorldCom, teve o
efeito de transformar prejuízos de todo o ano de 2001 e do
primeiro trimestre de 2002 em lucro.
Cooper
telefonou para Max Bobbitt, chefe do comitê de auditoria da
WorldCom, desencadeando uma série de eventos que resultaram na
demissão de Sullivan na terça-feira. A companhia disse
que havia encontrado US$3,8 bilhões de despesas foram
contabilizadas inadequadamente e agora serão corrigidas.
Mesmo
numa temporada em que empresas gigantescas vêm sucumbindo com
escandalos contábeis, a revelação da WorldCom se
destaca. A reapresentação de resultados da telefônica
deverá ser uma das maiores da história corporativa,
mais de seis vezes superior à feita pela concordatária
empresa de energia Enron Corp.
Mais
importante, ela oferece o mais claro aviso até agora da
maneira fácil como telefônicas, operando nos limites da
contabilidade, podem manipular seus livros para disfarçar
problemas e inflar seus lucros.
A
perda de confiança por parte de investidores, consumidores e
instituições financeiras foi profunda. "Havia
tanta pressão sobre as empresas para continuar a crescer e
sustentar aquelas cotações de ações",
diz Charles H. Noski, vice-presidente do conselho da AT&T Corp. e
ex-diretor financeiro desta telefônica. A AT&T não
está sendo atacada por causa de sua contabilidade.
Ontem,
ações de telefônicas despencaram nos EUA - e
bolsas caíram ao redor do mundo, com a ação da
Embratel despencando 25,5% na Bovespa, numa rápida reação
à crescente e desconfortável sensação de
que, como a própria WorldCom, muito do explosivo crescimento
das bolsas americanas pode ter sido uma miragem. O próprio
presidente americano George W. Bush demandou uma completa
investigação do escândalo, chamando as
irregularidades contábeis de "ultrajantes".
Para
a Worldcom, esses fatos podem indicar o fim da segunda maior
telefônica de longa distância dos Estados Unidos, que se
vende aos consumidores sob a marca MCI - nome da empresa que ela
adquiriu e que foi a compradora da Embratel na privatização
de 1998. Bancos da Worldcom disseram que não vão
acionar imediatamente cláusulas de financiamento que poderiam
permitir que exigissem a quitação de empréstimos.
Mas pessoas familiarizadas com a situação dizem que
concordata continua sendo uma opção.
O
presidente da comissão de valores mobiliários
americana, Harvey Pitt, anunciou ontem que a agência planeja
abrir um processo civil contra a Worldcom. O Departamento de Justiça
dos EUA abriu uma investigação que pode resultar num
possível indiciamento criminal, de acordo com pessoas
familiarizadas com a questão. Essas fontes dizem que a
WorldCom e Sullívan poderiam potencialmente enfrentar
acusações de fraude com ações, fraude
bancária e fraude postal.
Andrew
J. Graham, advogado de Sullivan, disse que ele não iria
comentar. Mas pessoas familiarizadas com Sullivan dizem que ele
acredita firmemente que não fez nada errado.
Brad
Bunis, porta-voz da Worldcom, disse que a empresa está "muito
concentrada em servir seus consumidores, trabalhando com nossos
agentes financeiros e assegurando nossos empregados de que vamos
superar estes tempos difíceis".

(O
ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA., 27/6/2002, P.B-12)