ERNST & YOUNG É ACUSADA DE CONFLITO DE INTERESSE NOS EUA



MICHAEL SHROEDER
E SCOT J. PALTROW
THE WALL STREET JOURNAL



WASHINGTON - A Securities and Exchange Commission (SEC, comissão de valores mobiliários americana) acusou a Ernst & Young LLP de ter violado suas normas ao fechar negócios lucrativos com uma firma de software por ela auditada.


A SEC alega que o acordo de comercialização firmado pela Ernest & Young ao fim da década de 90 com a PeopleSoft Inc.teria abalado sua neutralidade na hora de efetuar a auditoria dos livros da empresa, um papel regulamentado em âmbito federal nos Estados Unidos com o intuito de proteger o público investidor.


Incomum, o caso certamente intensificará o debate em Washington sobre a pertinência de novas restrições à atuação de firmas de auditoria em outras áreas, caso da consultoria de informática prestada pela Ernst & Young.


O caso da Ernst & Young é fruto de um inquérito há anos em andamento na SEC sobre a auditoria prestada pela firma a duas grandes empresas de software, a Peoplesoft, dos EUA, e a Baan Co. NV, da Holanda.


Ambas fabricam software para automatização e.integração de processos administrativos básicos como recursos humanos e contabilidade. Segundo uma fonte a par do processo, a investigação da BAAN, que envolve um pacto de comercialização semelhante, prossegue.


O processo contra a Ernst & Young também vira os holofotes para uma autoridade da SEC, o diretor de contabilidade Robert K. Herdman. Herdman foi vice-presidente do conselho da auditoria até outubro, quando entrou para SEC a convite de seu presidente, Harvey Pitt. AIém do caso pendente da PeopleSoft, a comissão investiga atividades ocorridas em pelo menos quatro outras empresas auditadas pela Emst & Young durante o mandato.de Herdman. A Ernst & Young confirma que os advogados da SEC solicitaram que Herdman comparecesse diante dos mesmos no ano passado. Pitt já representou a Ernst & Young no papel de advogado particular, mas não se sabe se cuidou de questões Iigadas à PeopleSoft ou à Baan.


A SEC investiga ainda se a Ernst & Young teria violado as normas na auditoria de duas empresas sujeitas a medidas disciplinares, a Cendant e a Informix, dizem fontes a par das investigações. As mesmas fontes informam que a firma de auditoria é alvo de outro inquérito, pelo serviço contábil prestado ao banco PNC Financial. Em outra investigação da SEC, o material da auditoria feita pela Ernst & Young à Ccmputer Associates Intemational Inc. terá de ser apresentado à comissão, diz a firma de auditoria.


A legislação do mercado de valores americano proíbe - laços estreitos entre contadores e as empresas por eles auditadas, já que o papel dos primeiros é dar uma opinião neutra sobre a exatidão dos relatórios financeiros analisados. A maioria das firmas de auditoria, porém, partiu hoje

para a arena mais lucrativa da consultoria, que cresce a um ritmo mais veloz que o das receitas da auditoria.


A suposta falha da Ernst & Young foi fechar um acordo para vender e instalar o software da PeopleSoft. A firma virou parte da equipe de vendas da PeopleSoft e chegou a ter mil funcionários seus destacados para instalar o software da cliente em centenas de empresas, algumas clientes de seus serviços de auditoria.


Das alegações da SEC não consta que a idoneidade dos relatórios financeiros da PeopleSoft tenha sido prejudicada pela parceria.


Num comunicado público, a Ernst & Young negou qualquer ato excuso e prometeu combater vigorosamente as acusações. Sua parceria com a PeopleSoft era “totalmente apropriada e permitida à luz das normas da classe. (A parceria) não afetou nosso cliente, seus acionistas ou o público investidor, e tampouco a SEC alega a ocorrência de falhas em nossas auditorias ou nos relatórios financeiros de nossa cliente em conseqüência dela”, disse a firma de auditoria num comunicado. “A atenção da SEC está voltada às atividades de nossos antigos consultores na instalação do software da PeopleSoft para terceiros. Isso ocorreu entre 1994 e 1999 e não exerce influência nenhuma sobre nossos negócios atuais. Na verdade, nosso braço de consultoria foi vendido à Cap Gemini em maio de 2000.”


A PeopleSoft, que não é acusada de ter violado a legislação do mercado de valores, já não usa a Ernst & Young para suas auditorias, que hoje são feitas pela Arthur Andersen. Não foi possível localizar um representante da empresa .para comentários.




(O ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA, 21/5/2002, P.B12)