ENRON, AÇO E O FUTURO DA GLOBALIZAÇÃO





ATITUDE DOS EUA DÁ MUNIÇÃO AOS QUE SE OPÕEM À LIBERALIZAÇÃO DO COMÉRCIO INTERNACIONAL


EDWARD AMADEO


A globalização não é um processo linear, e sua evolução é uma matéria de economia política. Assim como a esquerda na Europa opõe-se à liberalização dos mercados para defender a renda agrícola, os republicanos nos EUA opõem-se a ela para defender indústrias obsoletas, como a siderurgia. Aliás, historicamente, como mostra Harold James (The End of Globalization: lessons from de the Great Depression), a direita e a esquerda têm a mesma posição quando se trata de reações antiglobalização.


O ziguezague da globalização não tem um ponto final já definido. Por mais que a OMC exista para estabelecer regras que aumentem os ganhos da troca entre os países, com a redução de artifícios protecionistas, ou por mais que o Banco Mundial se esforce para difundir práticas contábeis transparentes e de boa governança societária, as forças políticas e grupos de interesses terão enorme peso no desenrolar dos acontecimentos.


Os casos da Enron e das tarifas sobre a importação do aço nos EUA têm algo em comum. Ambos revelam comportamentos dissonantes com o discurso anglo-saxão. No caso da Enron, com enorme desvio da boa "governance" e relações pouco ortodoxas entre o Estado e o setor privado. No caso do aço, distorcendo preços de mercado com efeitos colaterais negativos para o resto da economia americana e do mundo. Paul Samuelson, em recente artigo, chama a atenção para os riscos do "capitalismo de protegidos" nos EUA e relembra as críticas no Ocidente ao mesmo tipo de capitalismo na Ásia.


O problema com práticas protecionistas nos EUA em meio às negociações da OMC e da Alca é o risco de retaliações e, a prazo mais longo, a propagação de práticas protecionistas. O Estado publicou uma matéria do The Wall Street Journal sobre os riscos do contágio ideológico do que vem acontecendo na Argentina - vítima, segundo alguns, do neoliberalismo - para outros países da América Latina. Por que não falar de contágio ideológico do protecionismo americano, quando os fatos originários vêm do país que mais propaga as vantagens da economia de mercado?


No momento em que o presidente FHC sai pelo mundo mostrando que a globalização deve ser uma via de mão dupla e que, pela primeira vez, em Doha, se vislumbrou a possibilidade de alguma abertura européia para produtos agrícolas, a atitude do governo norte-americano dá munição para os que se opõem à liberalização do comércio internacional. Provoca contágio ideológico no Brasil e em outras partes do mundo.


Haverá quem por aqui dirá que, "se os EUA fazem, por que nós seremos mais católicos que o papa?" E não importa se, do ponto de vista teórico e, principalmente empírico, sejam parcas as evidências de que é vantajoso para um país ter práticas protecionistas. A literatura sobre ação coletiva é rica em exemplos de decisões erradas devidas à pressão de grupos fazendo valer seus interesses contra aqueles da maioria silenciosa.


O fim da globalização do século 19 foi marcado por uma escalada protecionista depois da depressão de 1929. Politicamente, a onda protecionista era o caminho possível para lidar com as ameaças externas (competição de produtos baratos e migração) no bojo do esforço de recuperação das economias nacionais.


Hoje, há menos razões para práticas protecionistas. Os EUA vivem o ápice de sua prosperidade. A Europa reviu sua plataforma socialista, do início do século, sendo o protecionismo agrícola um resquício anacrônico. A China é um enorme mercado para o resto do mundo e filiou-se à OMC. Os países da América Latina fizeram um esforço de liberalização unilateral demonstrando sua disposição para participar do comércio internacional.


A globalização, como qualquer movimento que se baseia no funcionamento dos mercados, requer instituições de regulação. O mercado é imperfeito e, no comércio internacional, abundam os exemplos de imperfeições. Daí a necessidade de regras. Daí a relevância da OMC. Daí a importância, no Brasil, de estarmos cada vez mais equipados - como de fato estamos - para lidar com aspectos regulatórios do comércio internacional.


Mas, se EUA e Europa mantiverem e recrudecerem suas práticas protecionistas como resultado de sua incapacidade de ter um sistema político menos vulnerável a grupos de pressão, o esforço para ampliar o comércio internacional com uma divisão mais igualitária dos benefícios será em vão.



Edward Amadeo é sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada


(O ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA, “OPINIÃO”, 17/3/2002, P.B-2)