PRESSIONADA PELA JUSTIÇA, ANDERSEN PODE SEPARAR AUDITORIA DE CONSULTORIA



POR CASSELL BRYAN-LOW, MlLO GEYELIN
Repórteres do The Wall Street Journal


Nomais recente sinal da velocidade com que os fatos estão forçando uma mudança na Arthur Andersen LLP, o ex-presidente do banco central americano Paul A. Volcker apressou-se ontem a anunciar uma lista de reformas para a conturbada firma de auditoria, que o indicou no mês passado para liderar um painel com amplos poderes para implementar mudanças


Suas recomendações eram aguardadas para daqui a algumas semanas. Mas numa entrevista coletiva em Nova York, ele detalhou um plano que prevê dividir a empresa de 88 anos em duas operações separadas, uma de auditoria, outra de consultoria. Tal divisão teria como alvo eliminar os muitos incentivos financeiros que as firmas de contabilidade e seus sócios têm para ser menos rigorosos na auditoria de clientes que também as usam para lucrativos serviços de consultoria.


Mas a reforma recomendada por Volcker está sendo ofuscada por dois outros frontes de rápidas mudanças. Um é o esforço da Andersen para vender toda ou parte de sua operação à rival Deloitte Touche Tohmatsu, e possivelmente a algumas outras concorrentes. (Ontem, a Andersen perdeu outro grande cliente de auditorias, a FedEx Corp.)  O segundo fronte são as negociações com o Departamento de Justiça americano para resolver a ameaça de abertura de processos criminais contra a firma por obstrução da Justiça em conexão com a admitida destruição de documentos relacionados às auditorias da concordatária empresa de energia Enron Corp.


Autoridades do Departamento de deram à Andersen um prazo até quinta-feira para elaborar uma proposta de acordo ou ser acusada de obstrução da justiça, e essas negociações estão continuando, de acordo com fontes a par da situação. Advogados da Andersen argumentaram que uma infração criminal levaria a uma resposta por parte de autoridades federais e estaduais do mercado financeiro que poderia interromper o trabalho de auditoria dê quase um quinto das empresas de capital aberto dos Estados Unidos - e acabar ameaçando a sobrevivência da firma, segundo pessoas familiarizadas com a situação.


Ontem, pessoas familiarizadas com a situação disseram que as conversas com a Deloitte continuam. Mas elas estão longe de ser uma negociação comum. Isso porque qualquer pacto teria de ser estruturado de forma a proteger a Deloitte do complexo processo judicial que a Andersen está prestes a encarar pelas auditorias que fez na Enron e pela destruição de documentos relacionados ao caso. Uma possível estratégia seria, de acordo com pessoas a par da negociação, que a Andersen entrasse com pedido de concordata e criasse um fundo fiduciário para gerenciar os processos na Justiça.


O objetivo, segundo especialistas em leis de sociedade, é transferir o máximo de ativos da Andersen para a Deloitte para tomar a aquisição mais atraente, e ao mesmo tempo deixar ativos suficientes para pagar as eventuais multas resultantes do processo. Uma fusão ou venda enfrentaria barreiras legais e regulatórias significativas, inclusive uma investigação antitruste nos EUA e na Europa.


Notando que a Andersen precisa eliminar conflitos de interesse reais e potenciais, Volcker disse especificamente que as divisões de planejamento estratégico, trabalho jurídico, recnitamento de executivos e algumas áreas de planejamento tributário "agressivo" devem ser separadas em sociedades administradas independentemente dos serviços de auditoria.


O painel chefiado por Volcker também recomendou, entre outras coisas, maior supervisão interna da firma, uma rotação entre os sócios que fazem serviços de auditoria corporativa pelo menos a cada cinco anos e uma quarentena antes que os auditores da Andersen comecem novos trabalhos para clientes da firma. Ele diz esperar que as mudanças que estão sendo recomendadas possibilitem à Andersen assumir "um papel de liderança" na profissão, que precisa de uma reforma.


Quando anunciou a criação do painel de Volcker, o presidente da Andersen,  Joseph Berardino, disse que a firma iria cumprir todas as recomendações feitas por ele. Charlie Leonard, porta-voz da Andersen, disse ontem que os executivos da firma ainda estavam digerindo as conclusões de Volcker. Perguntado se as mudanças seriam implementadas, ele se limitou a dizer: "Elas serão consideradas com seriedade."


Volcker optou por antecipar a divulgação pública das decisões do painel por causa dos últimos acontecimentos. "Certamente, não prevíamos os eventos em Washington", disse Volcker, que reconheceu que o futuro da Andersen depende não só dos promotores públicos mas de seus 2.300 clientes de auditorias nos EUA. Nos últimos dez dias, a firma perdeu vários clientes de peso. O mais recente foi a FedEx, que está abandonando os serviços da Andersen depois de 30 anos.


Mitchell Pacelle e Rick Brooks colaboram neste artigo



(O ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA, 12/3/2002, P.B-12)