A LUTA PELO DIREITO DE PRESTAR CONSULTORIA


POR KEN BROWN
Repórter do The Wall Street Journal


O colapso da Enron Corp. levantou o espectro de uma grande reestruturação das firmas de auditoria, baseada no princópio de que auditores deveriam auditar e nada mais.


Esse pode ser o único modo de satisfazer legisladores bravos, executivos preocupados e nervosos que já estavam forçando as empresas a limitar a ampla variedade de trabalho além de auditoria que desempenhavam para elas - de consultoria tributária e análise de risco a compensação de executivos e informática.


Maiores restrições vão levar o setor de volta aos anos 70, quando firmas de auditoria faziam pouco mais que auditar as contas das empresas e ajudá-las a fazer a papelada dos impostos. Isso seria uma boa coisa, argumentam os críticos atuais do setor, porque, quando as firmas oferecem serviços de auditoria e de consultoria ao cliente, elas podem ficar menos inclinadas a questionar práticas de contabilidade temendo perder os lucrativos contratos de consultoria.


Agora, parlamentares dos Estados Unidos parecem pretender criar restrições ainda maiores, praticamente proibindo que auditores façam qualquer serviço de consultoria.


Isso deixaria as firmas apenas com as operações de auditoria, de margens relativamente baixas. Tais firmas encolhidas, dizem executivos do setor, teriam de enfrentar problemas como atrair e reter funcionários talentosos e contadores ambiciosos, e acumular lucros para cobrir qualquer indenização futura contra elas. E esses executivos estão combatendo vigorosamente essas restrições.


Quando os computadores entraram em cena, o primeiro uso deles foi nos departamentos. financeiros das empresas, de forma que os gerentes recorreram aos contadores para ajudá-los a instalar os sistemas. À medida que esses serviços proliferaram, as firmas de auditoria perceberam que obter contratos para trabalhos de auditoria iria abrir as portas a novas oportunidades.


Dessa forma, começaram uma guerra de preços da auditoria.

Jay Nisberg, consultor do setor de contabilidade, diz que os preços das auditorias caíram de 35% a 50% da metade dos anos 80 para a metade dos anos 90. Uma parte crescente do faturamento das auditorias passou a vir de serviços que não de auditoria.


Algumas pessoas dizem que é possível voltar no tempo.


"Auditorias podem ser lucrativas", diz Nisberg. "É um trabalho chato, mas há pessoas que gostam de fazer coisas chatas."


Isso posto, muitos acreditam que, apesar do barulho em Washington, as firmas de auditorias ainda serão autorizadas a prestar alguns serviços extras a seus clientes.



NEGÓCIOS LUCRATIVOS

Das 30 empresas que fazem parte da Média Industrial Dow Jones, 26 pagaram aos seus auditores mais por serviços de consultoria e outros do que por serviços de auditoria, segundo dados apresentados às autoridades.


 

 Comissão por auditoria (em US$ milhões)

 Comissão de outros serviços (como % do total)

AUDITOR

 SBS Communications

 3,0

 92,2

EY

 International Paper (1)

 4,7

 86,7

AA

 AT&T

 7,9

 86

PWC

 Honeywell

 5,1

 84,5

PWC

 Walt Disney

 8,7

 83,2

PWC

 Coca-Cola

 5,0

 82,7

EY

 General Motors

 17,0

 82,3

DT

 Johnson & Johnson

 9,3

 82,3

PWC

 DuPont

 7,0

 81,1

PWC

 IBM

 12,2

 80,7

PWC

 J.P. Morgan Chase

 21,3

 79,8

PWC

 ExxonMobil

 18,3

 78,1

PWC

 Home Deport

 1,0

 78,1

KPMG

 American Express

 7,4

 77,2

EY

 Caterpillar

 7,6

 77,1

PWC

 General Electric

 23,9

 76,9

KPMG

 Microsoft

 4,7

 75,8

DT

 Eastman Kodak

 3,8

 74

PWC

 United Technologies

 9,1

 73,9

PWC

 Boeing

 10,5

 69,8

DT

 McDonald´s

 2,7

 69,7

EY

 Philip Morris

 17,3

 62,9

PWC

 3M

 4,5

 61,5

PWC

 Intel

 4,1

 59

EY

 Procter & Gamble

 11,0

 59

DT

 Alcoa

 5,7

 54,8

PWC

 Citigroup

 26,1

 48,5

KPMG

 Wal-Mart Stores

 2,8

 41,7

EY

 Merck

4,2

33,3

AA

Hewlett-Packard (2)

 

 

EY

SIGLA DOS AUDITORES: EY = Ernst & Young; AA = Arthur Andersen; PWC = PricewaterhouseCoopers; DT = Deloitte & Touche

(1) US$15,3 milhões foram para a Andersen Consulting, agora Accenture, até 7/8/2000.
(2) Hewlett-Packard trocou de auditor e não informou sobre comissões nos relatórios às autoridades referentes ao ano fiscal de 2000.
Fonte: SEC





(O ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA, 8/3/2002, P.B-12)