EMPRESA
GASTOU MILHÕES PARA MANTER POSIÇÃO DE
SUPERIORIDADE
Tudo
que a Enron fazia tinha de ser o melhor e nenhum gesto parecia
generoso demais
THE NEW YORK TIMES
HOUSTON,
Estados Unidos - Durante anos a Enron desenvolveu-se à custa
de grandes gastos e, ainda em outubro - em meio a advertências
sobre a sua falta de solidez financeira soando em voz alta -, ninguém
na empresa via nenhum motivo para mudanças.
A
companhia havia destinado US$ 1,5 milhão para gastar em uma
festa de Natal no Enron Field, novo e brilhante estádio
esportivo que recebeu seu nome, na esperança de igualar a
festa de 2001 às festas suntuosas dos anos anteriores. A
celebração só foi cancelada em meados de
novembro, quando a gigante de energia, arruinada, estava prestes a
falir e tentando se vender à Dynegy, sua rival com sede no
outro lado da cidade.
Tudo
o que a Enron fazia tinha de ser do melhor, mais brilhante - desde os
novos empreendimentos comerciais que anunciava praticamente a cada
ano, até o seu modo de comemorar o Dia da Secretária
com presentes de cristal Waterford - e nenhum gesto parecia generoso
demais, segundo admitem funcionários e concorrentes da
empresa.
Não
foram as extravagâncias, por si só, que derrubaram a
companhia. Mas seus gastos refletiam uma cultura empresarial em que,
segundo funcionários da companhia, os executivos principais
deixavam de lado os controles comerciais tradicionais. E isso
a começar
por funcionários de alto escalão que insistiram em
afirmar que ignoravam detalhes financeiros, até a atitude de
indiferença em relação a conflitos que dividiram
os executivos a propósito de negócios no valor de
milhões de dólares - contribuiu extraordinariamente
para o colapso da Enron.
"A
falta de controle dos riscos era assombrosa," observou Gary
Cardone, presidente da Dynegy Europe, empresa cuja matriz contratou
uma série de funcionários da Enron. "A cultura
Enron foi longe demais." Vance Meyer, porta-voz da Enron,
afirmou que essas críticas são vagas e injustas.
"Quando alguém fala sobre controles e a cultura da Enron,
minha esperança é a de que as pessoas não pintem
todos os funcionários com as mesmas pinceladas largas, sem
levar em conta o que uma parte dessas pessoas pode ter feito ou
deixado de fazer," disse o porta-voz.
"Há
umas 20 mil pessoas ótimas, que mereciam ser encorajadas a
colocar esta companhia em pé novamente." A Enron
distanciou-se daqueles que considerava os velhos antiquados da
indústria de energia, reivindicando o direito de se incluir
entre as ponto.com, como companhia que dependia mais de informações
e de novas idéias do que de ativos sólidos. E, como
tantas outras companhias iniciantes da Internet nos seus tempos de
glória, investiu prodigamente na sua imagem e no luxo.
Nas
reuniões de funcionários de uma divisão - a
Enron International - foi apresentado um elefante vivo, duas vezes. A
Enron Energy Services, outra unidade deficitária, gastou
centenas de milhares de dólares na construção de
uma imitação do pregão da bolsa para
impressionar os analistas de valores mobiliários convidados
para uma conferência, embora a unidade não tivesse nada
a ver com corretagem de ações.
Os
executivos da Enron tinham um talento especial para gerar novos
negócios e rebatizar os antigos. Algumas unidades às
vezes chegavam a ser reorganizadas três ou quatro vezes por ano
- o que sempre significava a transferência de pessoas de um
lado para outro - ao custo de aproximadamente US$ 500 por pessoa, de
acordo com Cheryl Brashier, que trabalhou para a companhia durante 11
anos como assistente administrativa.
O
setor de contabilidade tinha dificuldades para acompanhar as reformas
contínuas, disseram ex-funcionários da empresa, e isso
dava aos departamentos a oportunidade de ocultar seus gastos
excessivos. Assim que um setor era reorganizado, recebia seu "código
de custos" contábeis, ou número de identificação,
mas os velhos códigos não eram eliminados do sistema
imediatamente.
(O
ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA, 27/2/2002)