PARTICIPAÇÃO DA ANDERSEN PÕE AUDITORIAS EM XEQUE NO MUNDO



Caso do Banco Nacional, no Brasil, também provocou debates sobre auditores


CARLOS FRANCO


A quebra da Enron não levou à bancarrota apenas funcionários e investidores, que apostavam no sucesso dessa empresa global, presente no Brasil por meio da Elektro, e confiavam na liquidez de suas ações. Prejuízo e quebradeira atingiram diretamente uma das grandes auditorias independentes do mundo. No caso, a Andersen, que rivaliza com PriceWaterhouseCoopers, KPMG, Ernest & Young e Accenture as assinaturas de balanços das companhias abertas globais.


Auditoria que assegurava a credibilidade das informações da Enron ao mercado financeiro, a Andersen, em vez de trazer luz, pôs mais lenha na fogueira.


Profissionais destacados para cuidar da Enron - nas consultorias são sócios, que atendem contas específicas e ganham comissões e gratificações sobre o trabalho - destruíram papéis que poderiam esclarecer a sua relação com os executivos da empresa.


O escândalo levou o presidente da Andersen, Joseph Berardino, a afastar da companhia o sócio David Duncan, demitido sob a acusação de ter desaparecido com os documentos que explicariam a relação da Enron com a auditoria. Outros três profissionais da equipe de Duncan foram suspensos. Como só isso não seria suficiente para assegurar o principal ativo de uma auditoria, a sua credibilidade, Berardino ocupou, na imprensa mundial, páginas em muitos jornais do mundo, até mesmo no Brasil, na quarta-feira e na quinta-feira.


Como recomendam os manuais de administração de crise, Berardino se apresenta como presidente da Andersen e, numa tentativa de demonstrar sinceridade afirma: "Sem dúvida, este é o momento mais difícil e o caso mais complicado na história da firma", para depois dizer que estava, como de praxe, tomando as medidas necessárias para a completa apuração do caso.


O estrago, porém, está feito e suscita dúvidas. No Brasil, onde a quebra do Banco Nacional expôs a KPMG - que emprestava sua assinatura aos balanços da instituição financeira -, a saída não foi diferente. Profissionais afastados, anúncios nos jornais e uma discussão acirrada sobre a responsabilidade de quem assina esses balanços e quem deve puni-los. Os Estados Unidos hoje discutem as mesmas questões.


Mas por que a assinatura de uma auditoria independente é tão importante? O presidente da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), Raymundo Magliano Filho, responde: "A assinatura de uma auditoria independente atesta ao investidor a credibilidade das informações. Tem o papel similar ao de um ombudsman, que age como fiscal dos interesses dos investidores ao apontar problemas de caixa ou investimentos e gastos indevidos". O que é, segundo Magliano, vital para que o investidor estipule o preço de uma ação. "Uma auditoria tem de apontar os riscos de uma empresa, caso contrário não tem sentido essa exigência dos reguladores do mercado", diz ele.


No caso americano, a SEC, similar da brasileira Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ambas funcionam como espécies de "xerifes" do mercado de capitais, justamente para evitar que investidores sejam prejudicados por informações falsas de balanço.


Magliano lembra que as auditorias são parte desse arcabouço que dá credibilidade às informações das empresas e maior transparência ao mercado de capitais. Sem isso, diz ele, um elo fica partido. Ou números, como no caso da gigante Enron, ficam envoltos em cortina de fumaça.






(O ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA, 20/1/2002, P.B-12)