AÇÃO ENTRE COMPADRES



Jorge J. Okubaro


Frase: O caso Enron, a gigante da área de energia que quebrou, é um exemplo do "capitalismo de compadres" "Crony capitalism" - algo como "capitalismo de compadres". Era assim, de maneira que denotava, mais do que jocosidade, um certo desprezo, que as principais publicações econômico-financeiras do mundo se referiam ao sistema econômico predominante nos países do Sudeste Asiático que mergulharam numa profunda crise em 1997. Era uma expressão que trazia, em si, a explicação para a crise.


O que é esse capitalismo de compadres? Na descrição dos que cunharam a expressão, é um sistema que, na aparência, tem muitas das características do capitalismo. O mercado parece funcionar, a competição parece ser aberta, as empresas parecem ter liberdade para fazer ou deixar de fazer de acordo com seus interesses e objetivos, a liberdade de iniciativa parece assegurada, o Estado parece exercer funções regulatórias. Mas o capitalismo baseado no compadrio tinha defeitos sérios, frutos de maus hábitos consolidados ao longo dos anos. Grandes corporações empresariais foram construídas sobre dinheiro público generosamente concedido em troca de favores, que iam do financiamento de campanhas eleitorais até o suborno.


O resultado, sempre de acordo com aqueles que disseminaram o uso da expressão, era uma mixórdia entre interesse público e interesse privado.


Dirigentes empresariais falavam de seus interesses como se falassem dos interesses da pátria. Governantes defendiam as empresas como se defendessem a própria nação. Fortunas privadas e carreiras públicas foram assim construídas.


Quando a crise eclodiu, o que se viu foi um conjunto extraordinariamente frágil. As empresas, embora faturassem muito e tivessem forte presença nos principais mercados mundiais, não tinham solidez financeira, não eram geridas de acordo com critérios administrativos eficazes e, sobretudo, não adotavam práticas comuns no Ocidente de transparência contábil e de confiabilidade. Os governos, de sua parte, tinham muitos problemas fiscais decorrentes da generosidade com que, até então, tinham apoiado as empresas "dos compadres".


É difícil, se aceitarmos sem restrições esse tipo de crítica, entender como, com uma estrutura tão podre e ineficiente, os países "dos compadres do capitalismo" puderam crescer tanto nas três décadas que precederam a crise de 1997 e, depois dela, conseguiram recuperar-se de maneira tão rápida e exuberante. Não há dúvida que, em alguns casos, o "compadrio" existiu, talvez ainda exista, e foi longe demais. Algumas "chaebol" coreanas foram construídas desse modo e não resistiram à crise de 1997. O fenômeno, porém, parece localizado.


Mas o "compadrio" não é um fenômeno exclusivo dos países asiáticos. Num artigo que publicou na imprensa há alguns dias, o economista Joseph E. Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia de 2001 e ex-vice-presidente do Banco Mundial, recuperou a expressão "capitalismo de compadres", que andava meio esquecida, mas não para falar mal dos países asiáticos, e sim dos Estados Unidos.


O caso Enron, a gigante da área de energia que quebrou há algum tempo, é um exemplo desse capitalismo, diz Stiglitz. A Enron, segundo ele, utilizou truques contábeis para iludir os investidores e "usou dinheiro para comprar influência e poder" - a empresa, como se sabe, foi uma das grandes financiadoras da campanha de George W. Bush e sugeriu pelo menos dois nomes para ocuparem postos de importância na definição e gestão da política energética dos EUA.


Stiglitz cita também o caso da ação do governo Bush na proteção dos interesses das grandes usinas de aço norte-americanas - que enfrentam dificuldades por conta de perda de competitividade e de má gestão financeira - como forma de manifestação do "capitalismo de compadres". Também as usinas de aço são grandes financiadoras de campanhas eleitorais.


Poderíamos citar ainda o caso do subsídios agrícolas concedidos pelo governo norte-americano, que, de 1978 até agora, somam US$ 300 bilhões. Os subsídios distorcem o mercado, mas não ajudam a economia norte-americana. Ajudam apenas um grupo restrito de agricultores. Mas qual o político norte-americano capaz de enfrentar a pressão desses agricultores? "Os subsídios agrícolas são enormes subornos políticos", afirmou o economista Robert J. Samuelson, em artigo que escreveu há cerca de duas semanas para o jornal The Washington Post. E suborno como política de Estado não é coisa típica do "capitalismo de compadres"?


Jorge J. Okubaro é jornalista, editorialista do "Jornal da Tarde" e autor de "O Automóvel, um Condenado?" (Editora Senac)



(JORNAL DA TARDE, 17/2/2002)