NEGÓCIOS
Sexta-feira,
11 de janeiro de 2002
ENRONGATE
Conexões
do maior escândalo empresarial dos Estados Unidos chegam à
Inglaterra e atingem executivo brasileiro
Rosenildo
Gomes Ferreira
O
lamaçal no qual se transformou a falência da Enron não
respingou apenas sobre a administração do presidente
americano George W. Bush e de seu irmão, Jeb, governador da
Flórida, beneficiados com generosas doações da
Enron para suas campanhas políticas. As ditas ligações
perigosas entre o outrora poderoso conglomerado do setor
energético e os políticos, sabe-se agora, também
atravessam o Atlântico em direção à
Downing Street número 10, sede do governo britânico. Na
semana passada, o primeiro-ministro Tony Blair teve de explicar os
laços estreitos do seu gabinete e de outros próceres do
Partido Trabalhista com a Enron. A ponta do iceberg foi a descoberta
de que o braço europeu da companhia doou US$ 50 mil para
bancar recepções sociais e políticas promovidas
pelos trabalhistas. Democrática, a Enron nunca distinguiu
matiz ideológica. O Partido Conservador também está
sob pressão.
Lord
Wakeham, ministro de Energia na gestão de Margaret Tatcher,
foi acusado de ter facilitado o caminho da Enron na disputa por um
contrato de US$ 900 milhões junto ao governo britânico,
na década de 80. As relações simbióticas
entre a gigante do setor de energia cujos ativos somam US$
63,4 bilhões e o mundo político não são
novas. Se intensificaram, no entanto, ao longo da década de
90, em meio ao debate para a desregulamentação do setor
energético americano. A abertura atabalhoada desencadeou uma
crise de abastecimento no período 2000-2001 levando à
estratosfera o preço da energia, que pulou de US$ 32 para US$
317 o megawatt. Foi nessa época que a Enron viveu seu melhor
momento. Mesmo na ante-sala da falência, a companhia não
descuidou das boas relações com os políticos
americanos. No ano passado, nada menos que US$ 1,6 milhão
foram gastos para azeitar os contatos no legislativo dos EUA.
A
família Bush e os demais congressistas que até então
cultivavam estreitas relações com a Enron já
abandonaram o barco. Na quarta-feira 30, o Congresso abriu uma CPI
para investigar se o Executivo sabia da real situação
financeira da Enron. Bush, por sua vez, insiste em tirar o corpo
fora. Essa não é uma questão política.
É meramente econômica, disse. O recado é
claro: o grupo vai ter de contar com as próprias forças
para sair do buraco. Pelo visto, a direção da Enron
entendeu a mensagem. Um dia após Bush ter reiterado que não
queria saber do caso, a empresa anunciou a contratação
do veterano executivo Stephen Cooper, 55 anos, especialista em
recolocar nos trilhos negócios problemáticos. Sócio
da consultoria Zolfo Cooper LLC, ele já resolveu outros
pepinos tão indigestos quanto este. A lista
inclui: Sunbeam, Polaroid e Trans World Airlines. Ele é
respeitado em Wall Street, é uma pessoa de trato afável
e tem um grande senso de humor, disse à DINHEIRO um
porta-voz da Enron. Segundo a mesma fonte, Cooper chega à
empresa com carta branca e disposto a olhar para a frente: A
Enron é forte o bastante para dar a volta por cima,
garantiu Cooper. Ele também dei-xou claro que não
pretende ficar apenas no discurso. A opção que está
ao alcance da mão é a venda de ativos. O primeiro
deles, a trading do grupo, foi passada nos cobres ainda na gestão
do ex-presidente da Enron, Kenneth Lay, e foi parar nos braços
do banco UBS Warburg. E mais, o estratégico gasoduto que corta
a rica região nordeste dos Estados Unidos está sendo
negociado com a rival Dynergy.
O
novo presidente da Enron assume em um momento especialmente delicado.
Poucos dias antes da posse, o ex-vice-presidente J. Clifford Baxter
foi encontrado morto, próximo à sua casa no Texas. Ele
era um dos 29 executivos arrolados no inquérito que investiga
a maquiagem dos balanços da companhia. Em outro processo,
movido pelo fundo de pensão dos empregados da Enron, o
ex-banqueiro brasileiro Paulo Ferraz que ocupou um assento no
Conselho Administrativo também figura como réu.
Os funcionários acusam os diretores de terem incentivado a
compra de ações da Enron, quando, segundo eles, sabiam
que a falência era iminente.
O
Brasil pode ter uma papel de destaque na recuperação da
Enron. Aqui, a grupo dispõe de ativos avaliados em US$ 4
bilhões, tais como: a Elektro empresa de energia
elétrica que atua no interior de São Paulo, uma posição
estratégica no gasoduto Brasil-Bolívia e usinas
termelétricas. Como esse patrimônio ficou fora do
processo de falência, a dire-ção da Enron diz não
precisar de autorização da Justiça americana,
caso decida passá-lo adiante. A Petrobras negocia a compra dos
25,3% que a Enron detém na Companhia Estadual de Gás do
Rio. A direção da estatal, contudo, quer o sinal verde
dos credores da Enron pa-ra levar à frente sua oferta. Seja
como for, o novo chefão da Enron precisará de todo seu
talento para mostrar que a empresa ainda tem salvação.
(ISTOÉ
DINHEIRO, 11/1/2002)