ESCÂNDALO



O COLAPSO DA ANDERSEN



Assinar embaixo e compactuar com a roubalheira praticada por executivos da Enron, que foi a sétima maior corporação americana e desmoronou como um castelo de areia em menos de um ano, está custando a sobrevivência da quinta empresa internacional de contabilidade e auditoria Arthur Andersen, uma potência desacreditada com 385 escritórios em 84 países e 85 mil funcionários. Na quinta-feira 14, a empresa foi indiciada na Justiça por destruir toneladas de documentos que comprometiam a Enron, obstruindo as investigações. "A Arthur Andersen está sendo acusada por um crime que ataca o sistema judiciário, por impedir as investigações", disse Larry Yhompson, vice-procurador-geral.


Esta é a primeira vez que uma empresa de contabilidade dos Estados Unidos passa por tal situação, um abalo para a credibilidade de todo o setor.


Os clientes da Andersen estão correndo para se livrar de seus serviços e proteger seu próprio prestígio. Segundo o jornal inglês Financial Times, 34 grandes empresas "demitiram" a Andersen desde dezembro. Entre elas, a Delta Airlines, o grupo farmacêutico Merck, a FedEx, gigante do setor de encomendas expressas e o Riggs National, maior banco com sede em Washington. É uma debandada em massa - de grandes clientes e de funcionários - num momento em que a empresa é despejada do "Big Five", o grupo que reunia as circo maiores empresas do setor (pela ordem, PricewaterhouseCoopers, Deloitte, KPMG, Ernst & Young e Andersen) e se apressa em fazer a correção para o "Big Four", para se livrar de qualquer contaminação.


Se não for vendida rapidamente, o destino da Andersen é a dissolução pura e simples. Acusada de malversação contábil que permitiu aos principais executivos da Enron desviar US$1,1 bilhão, a Andersen não sairá dessa enrascada com facilidade. Já pagou US$217 milhões para evitar um processo movido por investidores do Arizona e tenta, com US$750 milhões, finalizar um acordo para conter a inevitável enxurrada de processos de empresas e pessoas físicas prejudicadas com a quebra da Enron. Em um ano, a ação da empresa caiu de US$90 para menos de US$1, transformando em pó o patrimônio de investidores e de quatro mil funcionários que participavarn do fundo de pensão.


Segundo o The New York Times, a empresa estaria negociando sua venda para a Deloitte Touche Tohmatsu, outra gigante do setor, que, antes do indiciamento, havia confirmado estar interessada no negócio, mas não nos seus escombros. O indiciamento, porém, pode emperrar a negociação.


No Brasil, a empresa enfim se manifestou por meio de um comunicado que tenta desvincular suas operações do escândalo americano. Não é bem assim. Os 84 escritórios da Andersen no mundo são, sim, independentes, as decisões são descentralizadas, mas todos estão vinculados à Andersen Worldwide, baseada nos Estados Unidos. Além disso, todos vão arcar com o comprometimento do nome que carregam - que não é pequeno.




(ISTOÉ, "ECONOMIA & NEGÓCIOS", 20/3/2002, P.67)