ECONOMIA & NEGÓCIOS

ESCÂNDALO



BANG-BANG NO TEXAS



Principais executivos fraudaram balanços, ludibriaram 4 mil empregados e saíram da falência com US$ 1,1 bilhão no bolso


LUIZ ANTONIO CINTRA



A falência da Enron já entrou para a história do capitalismo como a maior e mais rápida já ocorrida nos Estados Unidos. Sediada em Houston, no Texas, era a sétima corporação americana no início de 2001, faturava US$ 100 bilhões ao ano e seus papéis eram sucesso absoluto de público e crítica em Wall Street. Quando os ventos sopravam a favor – e como sopraram –, muitos investidores se dispuseram a pagar até US$ 90 por uma ação da empresa. Nem desconfiavam que na ponta vendedora estavam alguns dos principais executivos da empresa, que corriam contra o relógio para fazer o caminho inverso. Kenneth Lay e Jeffrey Skilling, que nos últimos anos se revezaram no comando da Enron, e outros espertalhões da direção da empresa sabiam como ninguém que era a hora de saltar daquela canoa. Tiveram tempo de levantar US$ 1,1 bilhão antes que o caldo entornasse de vez.


Quando a situação virou, em agosto passado, veio à tona a estratégia de seus executivos para o que parecia ser o toque de Midas, que transformava em ouro todos os negócios em que metiam a empresa, tradicionalmente ligada à geração e transmissão de energia. Eles simplesmente escondiam os prejuízos – mais de US$ 10 bilhões, descobriu a investigação iniciada para apurar a falência –, fraudavam os balanços por meio de subsidiárias criadas em paraísos fiscais, bem longe da vista das autoridades responsáveis. Quando a casa caiu, as ações da empresa despencaram de US$ 90 para menos de US$ 1. Na terça-feira 15, a Bolsa suspendeu os negócios com as ações da Enron, diante da absoluta falta de credibilidade da empresa.


Quem não estava no esquema e soube das fraudes pela imprensa viu seu patrimônio virar pó. Não só investidores, mas também os 4 mil funcionários que participavam do fundo de pensão da Enron e perderam, junto com o emprego, a economia acumulada em anos de trabalho. Cerca de 60% do patrimônio do fundo, que serviria para bancar aposentadorias, foi investido em ações da própria Enron. “Sempre fomos leais à empresa. Não fazíamos a menor idéia de que a contabilidade estava uma bagunça”, disse Charles Prestwood, 63 anos, aposentado no ano 2000 pelo fundo de pensão da Enron, depois de trabalhar 33 anos em várias empresas do setor de energia. Prestwood perdeu US$ 1,3 milhão. Como os demais funcionários, recebeu várias correspondências assinadas por Lay incentivando-o a depositar no tal fundo. Lay, por sua vez, embolsou pelo menos US$ 400 milhões quando vendeu, em janeiro de 2001, as ações que possuía.


Alvo de uma investigação inédita do Departamento de Justiça do governo americano, do Departamento de Trabalho e da Comissão de Valores Mobiliários – órgão responsável pela fiscalização das empresas com ações em Bolsas –, as falcatruas do alto escalão da Enron ainda devem fazer muito barulho. Na semana passada, a lama voou com tudo sobre a Arthur Andersen, uma das cinco maiores empresas de auditoria do mundo, responsável nos últimos anos por analisar os balanços da Enron. Aprovou os livros com louvor e recebeu pelo serviço US$ 25 milhões anuais.


Parceria da Andersen – Depois de alguns dias de corpo mole, a Andersen cedeu à pressão das autoridades americanas e abriu o jogo: confessou que seus funcionários trataram de queimar milhares de documentos relacionados aos balanços da Enron assim que as suspeitas se tornaram públicas. No dia 12 de outubro, funcionários da Andersen foram orientados a eliminar todos os registros que possuíssem. “Embora a empresa esteja levantando todos os fatos, é inegável que houve um esforço deliberado para destruir os documentos em Houston (onde fica a sede da Enron)”, afirmou um comunicado da auditoria. A Andersen anunciou ainda que decidiu demitir David Duncan, principal executivo da empresa responsável pelos balanços da Enron. Duncan teria sido também o mandante da destruição dos documentos.


Dona da Elektro, distribuidora de energia em São Paulo e no Mato Grosso, a Enron apostou no mercado brasileiro pós-privatização. O País também atraiu o interesse de alguns chefões da empresa – o ex-presidente Skilling, suspeito de ter participado das fraudes, chegou a comprar uma casa no Rio de Janeiro avaliada em US$ 1,5 milhão. Teria vendido o imóvel há um ano para um dirigente da empresa no Brasil.


Em Washington, o colapso da Enron está cada vez mais próximo de George W. Bush. Amigo de Kenneth Lay, principal executivo da Enron, Bush recebeu pelo menos US$ 700 mil da empresa para suas campanhas. Senadores democratas, que fazem oposição a Bush, afirmaram que a influência da Enron sobre a atual administração é indiscutível. Como resposta, Bush disse que o governo irá propor regras mais severas para os balanços das empresas e para os fundos de pensão. O sentimento generalizado é que a ligação entre Bush e Lay ainda não foi completamente esclarecida.


O caso já está sendo comparado ao escândalo Whitewater, empreendimento imobiliário suspeito que envolveu o presidente Clinton e contribuiu para a vitória de Bush. Agora veio o troco.



BANDIDAGEM EM ALTO ESTILO



A fraude corporativa custa à economia americana mais de US$ 400 milhões, de acordo com a Association of Certified Fraud Examiners (ACFE). No Brasil, fala-se em 10% do PIB, cerca de R$ 120 milhões. Um único caso, desvendado pelo escritório brasileiro do grupo inglês de avaliação e gerenciamento de risco Control Risk, constatou fraude de US$ 36 milhões, praticada durante 12 anos. A empresa descobriu tudo e a única punição que o executivo recebeu foi a demissão. Polícia? Nem pensar. As empresas têm medo de denunciar casos como esse porque eles, de certa forma, refletem sua incompetência administrativa, pesam contra sua imagem, afetam seu desempenho no mercado de ações. Por tantos motivos, todos os números referentes a fraudes são conservadores. Segundos especialistas, 75% das fraudes não são detectadas. Quando são, a maioria das empresas prefere esconder. Segundo a ACFE, as empresas perdem cerca de 6% de seu faturamento anual com fraudes. “É um problema muito mais frequente do que se imagina e atinge neste momento 80% das empresas do país”, diz James Wygand, diretor do grupo inglês no Brasil.


Quanto mais poderoso o empregado, mais pesada é sua mão na prática de desvios. Há o caso de um executivo de uma grande empresa que desviou o suficiente para comprar várias fazendas nos Estados Unidos. Já ouviu falar no estado de Ideho, situado no noroeste dos Estados Unidos? Pois esse esperto executivo escolheu Ideho para fazer seu patrimônio com o dinheiro que desviou da empresa, supondo que jamais seria descoberto. Depois de diligências infrutíferas no mercado imobiliário de Paris, Nova York e Miami, a investigação acabou chegando às fazendas de Ideho e do norte do Texas.


O tal executivo foi demitido sem escândalo por decisão da empresa. Ele tentou se defender com uma desculpa esfarrapada: tudo pertencia à sua mulher, que tinha recebido uma herança. Mentira frágil diante do profissionalismo das investigações, que logo constataram que não existia nenhuma herança que justificasse aquele patrimônio. A empresa desconfiou porque, apesar do salário alto que recebia, ele exibia sinais de riqueza acima de seus rendimentos.


Um caso desse porte leva tempo para ser esclarecido porque é bem feito. Três, quatro meses, até um ano.


Como os casos de fraudes não são divulgados, as companhias caminham como se “aquilo” nunca fosse acontecer com elas. Mas acontece, e como acontece! Houve uma fábrica de televisão que foi enganada um bom tempo por funcionários do almoxarifado. Tamanho o rombo que suas mulheres acabaram montando uma revenda de aparelhos de tevê por preços bem atraentes. Combinações em licitações fajutas são frequentes. Pode funcionar assim: pedem-se três orçamentos para a aquisição de alguma coisa; o escolhido é aquele que antecipadamente acerta um pagamento por fora por quem o contratou, dentro de um preço previamente combinado.

Com a guarda baixa, as empresas permitem que seus departamentos de compras, um dos focos mais vulneráveis a fraudes, trabalhem sem uma auditoria interna, independente, com linha direta com a cúpula. O cargo do auditor interno foi praticamente extinto com o enxugamento das companhias. O que acontece, em alguns casos, é que, até para se cadastrarem, eventuais fornecedores são forçados a pagar pedágio.


Especialistas que trabalham na área contam que já foram contratados para recuperar hélices de navios roubadas que pesam toneladas e custam milhões, aviões contratados em regime de leasing e até plataformas de petróleo. Roubam-se embalagens, que são revendidas no varejo popular. Rouba-se em despesas de viagem (tanto que é cada vez mais frequente a adoção da verba de representação pré-definida). Roubam-se cheques de pequeno valor no “contas a pagar”: a conta não é paga agora; no mês ou quinzena seguinte, paga-se o débito anterior com outro cheque desviado. Rouba-se em grupo, porque as pessoas juntas se sentem mais fortalecidas.


Nos escalões mais baixos, o mordomo suspeito dessas histórias é sempre aquele funcionário centralizador, ironizado por companheiros como “ativo fixo” da empresa, que não tira férias, chega mais cedo e sai mais tarde. Ele não larga o osso, diz sempre que deu o sangue pela empresa e por aí vai. “Ninguém é operário-padrão em nenhum nível”, diz James Wygand. “Quando é, alguma coisa deve estar errada.”


Uma das razões do crescimento do número de fraudes é a eliminação de algumas funções de administração e controle em vários níveis das empresas, o festejado downsizing, diz um relatório da Kroll. Outra razão são as pressões econômicas que provocam atos desesperados – inclusive a fraude. O que as empresas podem fazer, recomendam os especialistas, é estabelecer, primeiro, um código de ética com informações sobre o que é tolerável e o que não é (para evitar o “eu não sabia”); implantar um esquema de aprovação de decisões por mais de uma pessoa; promover rodízios nas funções; e adotar uma política de reconhecimento e compensação na administração de recursos humanos. Eliminar o risco da fraude é impossível, até porque o exemplo tem vindo de cima.




(REVISTA ISTOÉ, ed. 1686, 23/1/2002)