AUDITORIAS
MENORES DEFENDEM SEPARAÇÃO DO SERVIÇO DE
CONSULTORIA
Algumas
auditorias de menor porte, não incluídas no grupo de
multinacionais hoje conhecido como "Big Four", têm um
discurso afinado a favor da separação entre os
serviços de auditoria e consultoria prestados para um mesmo
cliente. No embalo das críticas lançadas sobre a
independência do trabalho do auditor no pós-Enron e
menos dependentes das receitas de consultoria que as concorrentes de
grande porte, elas defendem o parágrafo único do artigo
23 da instrução 308 da Comissão de Valores
Mobiliários (CVM) - dispositivo que proíbe as
auditorias de prestar consultoria para o mesmo cliente e que está
suspenso por liminar judicial há dois anos.
"A
auditoria é profissão e não um negócio",
afirma José Fernando Boucinhas, presidente da Boucinhas e
Campos + Soteconti. "Acredito que as chances de sucesso da
instrução 308 são muito maiores agora, em
função dos escândalos nos Estados Unidos",
afirma. Ernesto Gelbcke, presidente da BDO Directa Auditores, também
elogia a instrução. "Foi uma atitude visionária
da comissão", afirma.
Antoninho
Marmo Trevisan, sócio-fundador da Trevisan Auditores, avalia
que os trabalhos de consultoria fazem com que a empresa se torne uma
parceira do cliente, uma espécie de co-gestora nas definições
estratégicas das quais participa. "Essa aproximação
naturalmente compromete a independência da auditoria",
afirma. Marcio Martins Villas, sócio da Villas Rodil Gorioux
Faro Auditores, acredita que o conflito de interesses é
inerente à união das duas atividades. "É
fundamental que se faça logo alguma coisa para impedir essa
prática", afirma.
Ao
contrário das grandes firmas, elas têm pouco a perder
com a entrada da 308 em vigor. A Villas Rodil presta serviços
de consultoria fiscal para os clientes de auditoria, mas não
se forem empresas abertas. "A instrução não
teria efeitos sobre o nosso negócio", garante Villas. A
Boucinhas e Campos também oferece serviços de
assessoria fiscal e avaliação de empresas para clientes
de auditoria, alguns de capital aberto.
"Perderíamos
apenas 3% do nosso faturamento caso a instrução
entrasse em vigor", conta. Gelbcke, da BDO, e Trevisan, afirmam
que suas operações estão separadas e que também
não seriam atingidas pela instrução.
As
perdas seriam maiores nas firmas multinacionais. Além de ter
mais companhias abertas entre os clientes de auditoria, elas ainda
carregam importantes contratos de consultoria para estes clientes,
principalmente na área de planejamento fiscal. A desconfiança
do mercado, contudo, provocou mudanças nos últimos
anos, principalmente depois da quebra da Enron. Todas as "Big
Four" desfizeram-se de suas áreas de consultoria em
tecnologia, segmento em que o conflito de interesses é mais
evidente. A Price e a Deloitte só venderam o negócio
recentemente, depois do episódio entre Enron e Andersen.
Henrique
Luz, sócio da Price, afirma que a empresa conserva rígidos
procedimentos éticos para garantir a preservação
da independência. Um deles assegura que nenhum cliente de
auditoria represente mais de 3% do faturamento da Price.
"Gostaríamos que a CVM definisse melhor o que é
independência. Será que um escritório pequeno com
três clientes de auditoria também não está
comprometido com aquele que oferece o maior faturamento?",
questiona.
Julio
Cardozo, presidente da Ernst & Young, afirma que a empresa está
em linha com a 308, menos no que diz respeito à consultoria
de planejamento tributário. Na opinião do executivo, a
norma não considera os reais propósitos desse serviço.
"O planejamento tributário tem que ser necessariamente
lícito e, portanto, não tem nenhuma influência
sobre o trabalho do auditor", defende.
O
caso Enron reforçou a tese da separação depois
de vir a público que os honorários da Andersen com
outros serviços prestados à Enron superavam as receitas
de auditoria. Nos Estados Unidos, antes dos escândalos, a SEC
lançou uma proposta de plena separação dos dois
trabalhos que não vingou graças ao lobby das
auditorias.
Mas
o assunto voltou à tona e foi incluído na
Sarbanes-Oxley, a legislação assinada por George W.
Bush em 30 de julho com o intuito de recuperar a confiança do
mercado financeiro. A Sarbanes proibiu que as auditorias prestem
serviços de consultoria em tecnologia e auditoria interna para
clientes de auditoria externa. Exigiu também que outros
serviços sejam permitidos somente com a aprovação
dos comitês de auditoria - uma engenhosa alternativa para
restringi-los, uma vez que os comitês, pela nova lei, serão
formados apenas por conselheiros independentes.
Simone
Azevedo
(Gazeta
Mercantil, CAPITAL ABERTO, 19/8/2002, p.B-3)