INVESTIDORES DESCONFIADOS DE MAIS EMPRESAS




Nova York - Onde há fumaça, há fogo. Esta é aparentemente a teoria, pelo menos em vários fundos de hedge, fundos mútuos e outros investidores institucionais que, na esteira do escândalo contábil da WorldCom, estão preocupados em conseguir uma lista de clientes recentes e antigos da Arthur Andersen. Isto ressalta as crescentes dúvidas dos investidores quanto à confiabilidade dos livros contábeis auditados pela empresa de auditoria condenada, que há muito tempo trabalhava para a WorldCom e para a Enron Corp. e outras companhias que estão sob investigação por práticas contábeis questionáveis, como a Qwest Communications International e a Global Crossing.


"A sensação é que não se trata mais de uma coincidência", diz Robert Willens, especialista em contabilidade da Lehman Brothers, que tem respondido às ligações de investidores institucionais que procuram uma lista de clientes da Andersen. "Percebe-se que há um padrão que eles não podem ignorar. Eles acham que a coisa mais responsável a fazer por enquanto é manter distância dos clientes da Andersen até que seus livros contábeis sejam examinados por uma nova empresa de auditoria".


Alguns investidores talvez possam estar buscando oportunidades para ganhar dinheiro provocando curto circuito nas ações de companhias que tinham a Andersen como auditora, afirmam observadores do setor.


O porta-voz da Andersen, Patrick Dorton, diz: "O fato é que a Andersen realizou milhares de auditorias para muitos clientes sem que jamais fosse levantada alguma questão".


A lista de clientes da Andersen, que vem diminuindo desde que a empresa foi pronunciada criminalmente em março por causa de suas auditorias malfeitas na Enron, costumava conter cerca de 2.300 empresas negociadas em bolsa. Na lista havia muitos dos mais destacados clientes entre as 500 mais da Fortune, como Merck & Co., Freddie Mac e Georgia-Pacific.


"Não tenho certeza de que os investidores boicotarão os recentes clientes da Andersen em geral, mas eles querem saber quem está na lista", diz Willens. "Definitivamente não é uma boa coisa ser auditado pela Andersen, hoje em dia. Pode parecer um pouco irracional, mas se você administra recursos tem que levar isto em conta".


Antes da descoberta, na semana passada, dos problemas na WorldCom - talvez a maior fraude contábil da história - muitos investidores e observadores do setor achavam que o colapso da Enron Corp., atribuído em grande parte à manipulação dos livros contábeis da gigante do setor energético, era um incidente isolado, e não a evidência de um colapso sistêmico no processo de auditoria da Andersen. Mas agora alguns investidores parecem ter suas dúvidas.


O que preocupa particularmente no caso da WorldCom é que suas fraudes não passaram de uso impróprio de práticas contábeis das mais comezinhas, que deveriam ter sido descobertas pela Andersen, dizem alguns especialistas em contabilidade do setor.


Ao contrário da Enron, que usou centenas de complicados truques fora dos balanços patrimoniais para ocultar dívidas e inflar seus lucros, a WorldCom registrou impropriamente US$3,8 bilhões de despesas como gastos de capital, o que absolutamente não constitui uma acrobacia contábil.


"Tivemos a sensação de que na Enron as pessoas estavam insistindo neste tipo de coisa e talvez a Andersen se tivesse envolvido sem perceber o alcance", diz Art Bowman, publisher do "Bowman's Accounting Report", um boletim do setor. "Mas a fraude da WorldCom parece simples. Se a Andersen não se deu conta de algo tão simples, as pessoas começam a se perguntar o que mais pode não passado despercebido", diz Bowman, que também foi contactado por investidores institucionais em busca de uma lista de clientes da Andersen.


Um investidor institucional disse a Bowman: "Queremos saber quais as companhias em que temos um interesse financeiro, (como) empréstimos, investimentos, parcerias, que foram auditadas pela Andersen". A implicação, afirma Bowman, é que "estas companhias não confiam nas recentes auditorias da Andersen".


Um funcionário de alto escalão da Arthur Andersen, que pediu para não ser identificado, defendeu a auditoria da WorldCom feita pela companhia. "É extremamente difícil detectar uma fraude proposital da alta administração", disse esta pessoa. "As auditorias são feitas por amostras, não vasculham sistematicamente todos os itens".


(Dow Jones Newswires)

(GAZETA MERCANTIL, 1/7/2, P. 14)