XEROX INFLOU RECEITA EM US$1,9 BI




Stamford, Connecticut - Manipulação da contabilidade levou a SEC a multar a empresa em US$10 milhões. A Xerox Corporation, maior fabricante de copiadoras do mundo, entregou à Securities and Exchange Comissions (SEC, equivalente à Comissão de Valores Mobiliários - CVM), na sexta à noite, documento de 519 páginas com novos números para os balanços de 1997 a 2001. A empresa admitiu ter inflado as receitas em US$1,9 bilhão durante os cinco anos, declarando erroneamente vendas de equipamentos e contratos de serviços. A Xerox declarou ter registrado US$6, 4 bilhões como receitas de venda, sendo que US$5,1 bilhões desse montante foram, na realidade, recebidos por aluguel de equipamentos, serviços, terceirização de documentos e receitas financeiras.


Grande parte das correções feitas pela empresa em seus números referem-se aos resultados da América Latina. Em 2000, a empresa havia registrado US$58 milhões a mais nas operações de leasing na região. Em 1998, foram US$358 milhões que estavam registrados incorretamente na AL e, em 1997, os valores a mais foram de US$461 milhões.


A manipulação da contabilidade ajudou a companhia a cumprir as previsões de lucros. Em abril, a SEC aplicou à empresa uma multa recorde de US$10 milhões por causa da fraude contábil de aproximadamente US$3 bilhões em vendas.


"Evidentemente, a administração anterior estava infringindo as regras contábeis, mas não fabricava receitas", disse Brian Eisenbarth, que detém 700 mil ações da Xerox na Davidson Investment Advisors. "Trata-se de um ajuste de cronograma."


A porta-voz da SEC, Christi Harlan, não quis comentar o caso. A Xerox teve vendas de US$92,4 bilhões de 1997 até o final de 2001. A receita do período sofrerá redução de 2% e a renda antes dos impostos de US$368 milhões. O US$1,9 bilhão em vendas será registrado em trimestres futuros.


"As demonstrações financeiras corrigidas desafiam a realidade econômica", disse a KPMG, auditora da Xerox durante 30 anos. "Eles aparentemente concedem à Xerox o benefício de contabilizar em 2002 e nos próximos anos receitas já contabilizadas."


A KPMG foi demitida em setembro, por ter adiado a assinatura do mais recente relatório anual da Xerox devido a questões contábeis. A atual empresa de auditoria da Xerox, PricewaterhouseCoopers, não respondeu às solicitações de um comentário.


As ações da Xerox caíram US$1,21, ou 15%, para US$6,79 no final do pregão de sexta-feira. As notas com cupom a 9,75% da Xerox com vencimento em 2009 caíram 8 cents, para 83 cents por dólar, informaram operadores.


A publicação dos dados corrigidos ocorre também uma semana depois de a Xerox ter renegociado uma linha de crédito rotativo de US$7 bilhões. JP Morgan Chase, Citigroup e Bank One lideraram o financiamento, que foi garantido por ativos. Jack Neal, vice-presidente executivo do Bank One encarregado de grandes empréstimos a empresas, e o Citigroup e o JP Morgan não quiseram comentar o acordo.


Na semana retrasada, a Xerox concluiu a renegociação de uma linha de crédito rotativo de US$7 bilhões, liquidando US$2,8 bilhões do empréstimo. A Xerox recebeu cerca de US$2,7 bilhões em financiamentos da GE Capital, da General Electric, desde novembro, avalizado por letras de clientes na Grã-Bretanha, EUA e Canadá.


"Para todas as nossas transações e acordos com a Xerox usamos nossas rigorosas normas de aprovação de risco e de crédito", afirmou o porta-voz da GE Capital, Peter Stack.


SUBSIDIÁRIAS IRREGULARES

A Xerox também declarou à SEC que está realizando uma investigação interna para identificar "pagamentos impróprios" feitos durante anos por seus empregados da subsidiária na Índia, relacionados com vendas ao governo local. A Xerox estima que o montante desses pagamentos em 2000, quando a irregularidade foi descoberta, estavam entre US$600 mil e U$700 mil.


Segundo o documento, a Xerox também está analisando se ocorreram discrepâncias nos resultados ainda não consolidados da sua afiliada na África do Sul e da sua subsidiária na América do Sul.


INVESTIGAÇÃO DA SEC

Em abril, a SEC acusou a Xerox de ter declarado prematuramente US$3 bilhões de receitas e US$1,5 bilhão de lucros antes dos impostos de arrendamento de equipamentos na Europa, América Latina e Canadá. A dimensão da multa, a maior já aplicada contra uma companhia listada em bolsa por fraudes financeiras, refletiu a magnitude da desonestidade, disse a agência.


A companhia concordou em reapresentar os resultados corrigidos e ordenou nova auditoria. A questão é apenas de "cronograma e de alocação" da receita, disse a porta-voz Christa Carone em entrevista por telefone. "Não há receita fraudulenta e não há receita fictícia e nenhuma transação falsa."


A Xerox também se defronta com quedas das vendas e dos lucros por causa da concorrência, mudanças na administração e aumento vertiginoso dos custos dos empréstimos. No ano passado, a Xerox reapresentou as declarações de lucros para os três anos anteriores e para o primeiro trimestre de 2001, devido a irregularidades contábeis no México. No ano passado, a companhia informou receitas de US$16,5 bilhões.


A disputa entre a SEC e a Xerox se concentra em uma norma que permite que as empresas contabilizem imediatamente receitas e lucros auferidos de arrendamento com vistas a vendas, e não durante a vigência do aluguel.


Quando a Xerox arrenda uma copiadora, o pagamento do cliente inclui um pagamento principal e um encargo financeiro, e cobre os custos de suprimentos, como serviços de manutenção. O que está em questão é quando, em que trimestres e anos, a Xerox contabilizou certas receitas. Os problemas nas operações mexicanas foram elucidados dois anos atrás, disse Carone.


As manipulações da contabilidade pela Xerox provocaram "enorme impacto" nos resultados financeiros declarados, disse a SEC em abril. A agência também declarou que executivos de alto escalão invalidaram objeções da KPMG. Ao mesmo tempo, eles ganhavam milhões de dólares em bonificações e vendas de ações a preços inflados em decorrência das fraudes.


TAXAS ALTAS EM BÔNUS

A Xerox pagou os mais altos juros em janeiro para atrair compradores para sua primeira venda de bônus desde que a classificação de crédito da fabricante de copiadoras foi rebaixada para ação de altíssimo risco pelas agências de rating Moody’s, em dezembro de 2000, e Standard & Poor’s em outubro.



(Jim Gunsalus/Bloomberg News)

(Gazeta Mercantil, 1/7/2, p. A-14)