OBSTÁCULOS
PARA CRESCER
28
de Junho de 2002 - O escândalo da WorldCom, uma das gigantes
mundiais do setor de telecomunicações, talvez o maior
caso de fraude empresarial nos Estados Unidos, ocorre em um momento
particularmente sensível para a economia americana. É
impossível medir a extensão do abalo que o "affair"
provocará nos mercados financeiros, que ainda não
haviam absorvido inteiramente a rumorosa concordata da Enron. Os dois
casos têm evidente semelhança, uma vez que foram
provocados por práticas contábeis irregulares, que no
caso da WorldCom envolveram o lançamento de US$ 3,8 bilhões
de investimentos como despesas, de modo a inflar os seus lucros em
2001 e neste ano.
A
nova direção da empresa procura salvá-la de uma
quebra ruinosa e a situação pode ainda tornar-se mais
tensa em razão das investigações já
determinadas pela Comissão de Finanças da Câmara
de Deputados dos EUA. Há uma visível crise de confiança
nas demonstrações financeiras de grandes empresas dos
EUA, que pode levar a Securities & Exchange Commission (SEC), que
equivale à nossa CVM, a aumentar o número de exigências
com relação às contas de empresas abertas.
Seja
como for, o caso já provocou estragos. A insegurança
existente nos mercados financeiros nas últimas semanas
agravou-se com o escândalo e, em conseqüência, fez
reduzir a liquidez internacional, o que prejudica diretamente o
Brasil e outros países emergentes.
Trata-se,
portanto, de um quadro que pode vir a afetar os fundamentos
econômicos, gerando mais volatilidade. Isso é muito
diferente das percepções equivocadas da gestão
política em um ano eleitoral, que deram origem aos recentes
movimentos especulativos no Brasil.
A
economia americana pode vir a se ressentir desse golpe em uma fase em
que a recuperação tão esperada ainda não
chegou a apresentar sinais claros, e isso pode prejudicar o ritmo de
crescimento da economia mundial, com efeitos muito desfavoráveis
para as exportações brasileiras.
Em
uma atitude de cautela, em sua reunião desta semana, o Federal
Reserve Board (Fed) manteve a taxa básica de juros em 1,75%,
nível em que se encontra desde dezembro e que é o mais
baixo dos últimos 40 anos. O Comitê de Mercado Aberto do
Fed (FOMC) observou que, embora o ritmo de atividade econômica
continue a se intensificar nos EUA, o crescimento da demanda final
parece ter-se desacelerado. O mercado de trabalho não mostra
uma ampliação consistente, de modo a assegurar um
crescimento saudável do consumo, e há incertezas no
mercado de capitais. Incertezas essas mais acentuadas agora com a
fraude constatada na WorldCom.
Ontem,
o Departamento de Comércio revisou a taxa de expansão
da economia americana de 5,6% para 6,1%. É preciso observar,
contudo, que esse crescimento é em relação ao
quarto trimestre de 2001, quando a economia estava muito deprimida em
razão dos atentados de 11 de setembro. Os indicadores
macroeconômicos americanos não são nada bons. O
déficit da balança comercial continua em expansão,
pressionando o déficit em conta corrente, e há temores
de que, com a redução dos impostos e os gastos
crescentes com defesa do governo Bush, o superávit
orçamentário logo se transforme em déficit.
Como
resultado de tudo isso, o dólar vem há meses se
desvalorizando de maneira constante com relação ao euro
(cotado na quinta-feira a US$ 0,9863) e à libra esterlina
(cotada a US$ 1,5264). O iene recuou ontem, mas também tem
registrado ganhos significativos em relação ao dólar.
Isso
é bom para a economia americana, uma vez que deve funcionar
como estímulo à exportação e concorrer
para a redução das importações. Não
será surpresa se o euro nos próximos dias passar a
equivaler a US$ 1, mas, ainda assim, no entender de muitos analistas,
o dólar ainda não foi desvalorizado o suficiente. De
outra forma, como explicar que, estando a economia ainda em ritmo
lento, o déficit comercial dos Estados Unidos no primeiro
trimestre deste ano, projetado para um período anual, chegou a
US$ 450 bilhões, em comparação com US$ 380
bilhões no quarto trimestre do ano passado.
Isso
indica que os produtos importados estão baratos demais nos
EUA. O dólar pode se desvalorizar mais, embora haja o temor,
em Wall Street, de que, se a moeda se tornar fraca em relação,
isso desestimule os fluxos de investimento para os EUA. A perspectiva
mais otimista é de que medidas corretivas da SEC permitam
retomar a confiança na atividade empresarial e, por
conseqüência, na economia americana, com reflexos
positivos sobre a economia mundial.
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page: www.gazetamercantil.com.br/editorial
(Gazeta
Mercantil, Editorial, 28/6/2002, P.A3,web page:
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