DESAFIOS DAS AUDITORIAS
PÓS-ENRON
JOSÉ
FERNANDO BOUCINHAS *
O
sucesso e o fracasso de empresas fazem parte do jogo capitalista.
Porém, o golpe nos investidores com o beneplácito dos
auditores externos, seja por inépcia, seja por má-fé,
não. Já se escreveu que o caso Enron equivale ao 11 de
setembro do setor da auditoria externa. As conseqüências
são de tal monta que, pode-se dizer, equivalem às de um
terremoto. Além de colocar uma importante firma de auditoria
como uma das principais personagens do episódio, levou a
atividade como um todo ao escrutínio público, com
inúmeras de suas práticas e padrões sendo
duramente questionados pela imprensa, pelos políticos e pela
opinião pública. Muitas das críticas são
fundadas, enquanto outras não têm substância. De
qualquer modo, é preciso analisar o problema com serenidade e
sem espírito corporativo para identificar suas causas
estruturais.
É
necessário reconhecer que a concentração da
atividade em torno de poucas e gigantescas empresas de auditoria que
dominam a profissão em nível mundial é
indesejável e que o enfrentamento dessa questão é
essencial para formular mudanças que efetivamente minimizem a
probabilidade de fatos como este voltarem a ocorrer. Elas concentram
tal poder que influenciam decisivamente os organismos que estabelecem
os princípios contábeis, os padrões e os
procedimentos a serem aplicados pelos auditores independentes e a
sistemática de avaliação da qualidade do
trabalho de auditoria externa. Principalmente ao longo dos anos 90, o
argumento utilizado para justificar essa despropositada concentração
foi o de, com a globalização, surgiram empresas globais
que precisavam aplicar princípios de contabilidade globais e
que, conseqüentemente, teriam de ser auditadas por auditorias
também globais. Esse argumento, aparentemente lógico,
foi "comprado" pelos mercados financeiros, pois foi
apresentado como a única maneira de garantir a transparência
das informações e, portanto, a segurança dos
investidores. Na prática, foi decisivo para excluir empresas
menores e profissionais independentes do mercado, o que redundou no
domínio de mais de 90% do mercado mundial de auditoria por
cinco empresas. Enquanto esse domínio perdurar, dificilmente
se adotarão cursos de ação que atinjam o âmago
do problema. É preciso ampliar o número de atores nesse
mercado, fomentando o aprimoramento de empresas e de profissionais.
E, para atingir esse objetivo, o papel dos organismos internacionais,
dos governos e dos organismos de regulação da profissão
é fundamental.
Algumas
mudanças aventadas para evitar a repetição desse
tipo de episódio apontam na direção correta, mas
só atingirão seus objetivos se os problemas estruturais
da profissão forem enfrentados.
1)A
auto-regulação está sendo duramente questionada
e novos mecanismos de controle da qualidade do trabalho dos auditores
serão colocados em prática, na medida em que o processo
de revisão por pares não foi capaz de evitar o que
aconteceu. Esse processo, tão preciosamente desenvolvido e
mantido pela maioria das profissões liberais que, no Brasil,
são obrigadas a se vincular aos seus conselhos regionais e
organizações, não pode ser aplicado num campo de
atividade dominado globalmente por não mais de cinco empresas.
Ele só faz sentido quando a profissão é
"pulverizada", ou seja, composta por um grande número
de profissionais e de empresas independentes. Revisão por
pares entre poucos não é um procedimento razoável,
como o episódio Enron o demonstra. Se a concentração
da profissão não for reduzida, a solução
será a criação de agência independente de
controle.
2)A
prestação de serviços de auditoria independente
e de consultoria ao mesmo cliente, principalmente a companhias
abertas, é indesejável, não só porque
afeta a independência do auditor, mas também porque
contribui decisivamente para o gigantismo das empresas de
auditoria.
3)A
rotação obrigatória de auditores é outra
proposta razoável para evitar que relações
auditor-cliente que perdurem por tempo demasiado acabem levando a uma
"intimidade" indesejável. Enquanto a profissão
for dominada por poucas e gigantescas empresas, a eficácia
dessa mudança também é questionável.
Um
elenco muito maior de mudanças poderia ser citado e
provavelmente será aplicado, mas só surtirá
resultados quando a estrutura competitiva do setor for modificada.
Afinal, "não se faz omelete sem quebrar os ovos".
No
Brasil, a bem da verdade, algumas providências já foram
adotadas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores
Mobiliários (CVM). O BC, depois da crise do sistema financeiro
e dos casos do período 1995/96, determinou a rotação
de auditores de instituições financeiras a cada quatro
anos. A CVM, em resolução que vem sendo erroneamente
questionada na Justiça por algumas empresas, vetou a prestação
de serviços de auditoria e de consultoria ao mesmo cliente e
também estabeleceu a rotação de auditores a cada
cinco anos no âmbito das companhias abertas, algo que até
agora não foi conseguido nem nos EUA. Porém, a
concentração do setor conspira contra a efetividade
dessas determinações. Cabe também ressaltar o
papel do Conselho Federal de Contabilidade, que, imune às
pressões do lobby das grandes empresas, tem contribuído
efetivamente para promover o desenvolvimento da contabilidade e da
auditoria no Brasil, visando garantir a inserção do
País na economia internacional, sem abdicar de sua
soberania.
José
Fernando Boucinhas - Presidente da Boucinhas & Campos Auditores
Independentes.
(Gazeta
Mercantil, Editorial, 18/3/2002, P. A-2)