ENRON
DESISTE DE CONCESSÃO ARGENTINA
Buenos
Aires, 27 de fevereiro de 2002- Foi uma coincidência que o
grupo Enron e a Argentina tenham anunciado suas respectivas quebras
com poucos dias de diferença, em dezembro passado, e que ambos
os casos tenham o custo aproximado de US$150 bilhões. Agora,
um outro fato volta a vincular a empresa e o país: a Azurix ,
subsidiária do grupo norte-americano que abastece grande parte
da Província de Buenos Aires com serviços de água
potável e esgoto, decidiu abandonar a concessão que
possui desde 1999, devido a um suposto não cumprimento
contratual da parte do governo da província.
O
desentendimento começou há quase um ano, por causa das
deficiências apresentadas no serviço, que levaram o
então governador de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, a convocar o
Congresso provincial, para analisar a possibilidade de rescisão
do contrato. Segundo a acusação de usuários e
autoridades, a Azurix vai deixar de cumprir 'importantes tarefas na
prestação de serviços e não vai realizar
obras contratadas'.
O
confronto entre o governo e a empresa prosseguiu, até que em
outubro passado a Azurix anunciou a intenção de
rescindir o contrato, a partir de 2 de janeiro, mas acabou ampliando
o prazo para a próxima sexta-feira (1/3/2).
A
empresa afirma que o governo da Província de Buenos Aires 'não
completou as obras de infra-estrutura que são essenciais para
o serviço', e garante que foi obrigada a operar 'com prejuízo,
desde o início'.
Outras
queixas levantadas pela Azurix são de que a entidade
regulamentadora da província não lhe permitiu aplicar a
tarifa sobre a avaliação real das moradias para as
quais presta serviço. Segundo a empresa, isso provocou um
prejuízo de US$ 10 milhões anuais.
Ante
o fato consumado de que a concessionária deixará de
prestar os serviços que lhe foram atribuídos, o governo
de Felipe Solá anunciou que reclamará em juízo
pelo 'não cumprimento do contrato' acordado por um prazo de 30
anos. O subsecretário de Serviços Públicos da
província de Buenos Aires, Eduardo Sicaro, sustentou que a
saída da concessionária 'será equiparada a
abandono de serviço, o qual dará lugar a uma série
de penalidades econômicas e ações judiciais
visando os interesses do Estado'.
Mas
a Azurix revidou, advertindo que 'não abandonou a concessão',
e atribuindo a responsabilidade de sua saída à falta de
cumprimento do acordo por parte da província, que não
efetuou as obras e as modificações legais acordadas.
Por esse motivo, a Azurix pediu uma indenização inicial
de US$ 600 milhões, que posteriormente foi reduzida para US$
200 milhões.
Esta
semana, a Azurix confirmou sua saída como prestadora de
serviços, e anunciou que requereu concordata na Justiça.
A empresa comunicou que atravessa um período de 'extrema
debilidade financeira', e denunciou a 'má vontade do governo
em trabalhar em prol de uma solução definitiva'. Com o
pedido de concordata, a empresa freia o processo judicial que o
governo deseja iniciar, por abandono de serviço.
Com
a saída da empresa privada, Sicaro confirmou que 'as
autoridades provinciais tomarão a seu cargo os serviços'
e que no médio prazo 'se definirá um novo esquema, com
maior participação dos municípios'.
Fontes
oficiais disseram que a prestação dos serviços
será garantida por um período de 180 dias, tempo que
consideram necessário para uma nova licitação.
A
empresa opera em 72 municípios da província desde julho
de 1999, tem 600 mil clientes e 2,5 milhões de usuários
com 1.300 funcionários.
O
único antecedente deste tipo, desde que começou a etapa
de concessão de serviços públicos no governo de
Carlos Menem, é o conflito que mantiveram o governo de Tucumán
e a distribuidora de água na província, Aguas de
Aconquija. Nesse caso, a rescisão do contrato resultou em um
grande conflito, que foi solucionado em 2000 em favor da parte
argentina em um tribunal internacional.
O
governo nacional também mantém uma disputa contra uma
prestadora de serviços de água Aguas Argentinas, que
opera na Capital Federal e na Grande Buenos Aires, que exigiu do
governo Duhalde a aplicação de uma espécie de
seguro de troca para cancelar as dívidas bancárias de
curto e longo prazos, que chegam aos US$ 200 milhões e a
compra de insumos importados. Além disso, solicitou a
reprogramação do plano de investimentos para paralisar
as obras de expansão que foram estabelecidas na última
renegociação.
A
empresa defende que o Estado deve facilitar-lhe dólares ao
câmbio de 1 peso por 1 dólar para adquirir os
equipamentos e insumos importados dos quais necessita para o
fornecimento de água potável.
A
empresa pretende implementar um 'plano de emergência' pelo
período que dure a renegociação dos contratos
que o Ministério da Economia deve dar prosseguimento com todos
os serviços privatizados.
OSCAR
VILAS
(GAZETA
MERCANTIL, 27/2/2002, P.C-4)