Furnas e as terceirizadoras
O
depoimento de Dimas Toledo à CPI dos Correios é uma
extraordinária demonstração de como é a
política brasileira. Parlamentares de todos os partidos se
revezaram para perguntar se a tal lista era verdadeira ou falsa. Dr.
Dimas respondeu que era falsa, e aí morreu Neves. Nenhuma
pergunta sobre o sistema de financiamento de campanha de Furnas, que
historicamente tem amparado políticos de várias cores,
os eletrocratas.
Tudo isso se dá à sombra de uma
atividade que passou a substituir as antigas empreiteiras, depois que
o Estado brasileiro quebrou e escassearam os recursos para
investimentos: as terceirizadoras de mão-de-obra.
Essas
empresas cresceram à sombra da Lei Camata -uma lei
bem-intencionada, que pretendia criar limites nos gastos com pessoal
na administração pública. A saída foi
recorrer maciçamente aos terceirizadores.
Praticamente em
cada administração há uma terceirizadora que
domina as licitações. Grande parte dos gastos
operacionais de Furnas era com uma terceirizadora de mão-de-obra,
a Bauruense, com 2.000 funcionários, e que chegou a faturar R$
800 milhões em três anos apenas com seu contrato de
Furnas. A Bauruense é a quarta terceirizadora paulista em
tamanho e cresceu na área pública a partir do governo
Álvaro Dias, no Paraná, de onde nasceu sólida
amizade do ex-governador com os irmãos Daré, donos da
empresa.
Em Brasília, a terceirização na área
federal é comandada pela Confederal (do ex-ministro das
Comunicações e deputado federal Eunício de
Oliveira). Em São Paulo, pela Tejofram (14 mil terceirizados)
e pela Gocil (mais de 8.000). E são sempre as mesmas. Mesmo
sendo um setor altamente rentável, não aparecem
concorrentes para disputar espaço e derrubar preços.
Nos
Estados Unidos, há 70 anos foi criado um mecanismo eficiente
de fiscalização, o GAO (General Accounting Office, ou
Escritório Geral de Contabilidade na tradução),
subordinado ao Congresso, conta o consultor André Araújo.
O GAO analisa a relação custo-benefício do gasto
público. Quer fazer um hospital com dinheiro federal? Eles
pesquisam se é necessário, se não é mais
barato arrendar um próximo, se não existem leitos
disponíveis na região, tudo antes do gasto e não
a posteriori, como procedem aqui os Tribunais de Contas.
Mais
ainda, o GAO publica e coloca à venda centenas de estudos
sobre relação custo-benefício, tornando públicos
todos os seus relatórios de análise do gasto federal.
Não se faz gasto federal nos Estados Unidos sem um relatório
de viabilidade econômico-financeira do GAO. Nos últimos
de 20 anos, os Estados Unidos fecharam 600 bases militares no país
e no exterior, a partir de um estudo do GAO que demonstrou serem elas
inúteis para a defesa. O sistema de Tribunais de Contas é
baseado no modelo francês (Cour de Comptes). Ocorre que a
administração pública francesa, de reconhecida
qualidade, é voltada para um Estado unitário, sem
nenhuma semelhança com um Estado Federal de um país
complexo e de baixa tradição administrativa, como o
Brasil.
É esse o problema, do qual a carga fiscal é
conseqüência. Como explicar um Congresso com 35 mil
funcionários, mais que os Parlamentos do G-77 somados?
LUÍS
NASSIF
(Folha de S. Paulo, Folha Dinheiro, 17/02/2006)