PIRES
NA MÃO
Queda na
arrecadação e aumento nos gastos deixam governos
estaduais quebrados; buraco pode chegar a US$80 bi
Déficit
de US$21,5 bi aflige Estados dos EUA
FERNANDO
CANZIAN
DE WASHINGTON
A
maioria dos Estados americanos vai encerrar o ano fiscal de 2003, em
junho, acumulando um déficit recorde de US$21,5 bilhões.
Para 2004, a previsão é mais sombria: o déficit
estadual projetado é de US$ 80 bilhões e deve atingir
41 dos 50 Estados.
Na
esfera federal, o déficit do atual ano fiscal que termina em
setembro deve chegar à cifra recorde de US$ 400 bilhões.
Nos últimos meses, os governadores vêm cortando
programas de educação, saúde e obras.
Alguns
admitem até regularizar jogos de azar e lançam títulos
indexados em recursos que ainda não têm a fim de
equilibrar contas. A queda na atividade econômica e o aumento
de despesas na área de segurança, principalmente, têm
corroído as finanças públicas nos EUA desde o
estouro da "bolha financeira", em 2000.
Nos
últimos 11 meses, 37 Estados deixaram de cumprir as projeções
de arrecadação para o atual ano fiscal. Desses, 19
acumularam déficits 10% superiores à receita.
"Já
atolados por uma arrecadação anêmica, os Estados
têm sido onerados por uma série de medidas federais e do
Congresso. Os cortes de gastos têm sido generalizados",
diz Angela Monson, presidente da National Conference of State
Legislatures, órgão que representa o conjunto dos
Estados.
O
governo George W. Bush repassou para os Estados várias
obrigações dispendiosas sem oferecer contrapartidas. Um
dos maiores programas ""federais" da área de
educação, por exemplo, uma espécie de ""provão",
passou a custar aos Estados US$ 35 bilhões a mais por ano.
Como
consequência, vários Estados estão antecipando o
final do ano escolar, demitindo funcionários e indo na
contramão do programa de corte de impostos federais de Bush.
Treze Estados devem encerrar o ano com taxas maiores sobre as vendas
no varejo e seis com aumentos no imposto sobre cigarros.
Os
Estados americanos em situação mais problemática
são a Califórnia, Nova York e o Distrito de Columbia,
que abrange a região da cidade de Washington.
A
maioria das pessoas que trabalham e usufruem dos serviços em
Washington moram nos Estados da Virgínia ou Maryland, onde
pagam a maior parte das taxas e impostos estaduais. O Distrito de
Columbia projeta um déficit estrutural anual de US$ 1,1
bilhão.
Ironicamente,
a indústria do cigarro foi quem mais ajudou a diminuir o
tamanho dos déficits estaduais. Por conta de ações
impetradas pelo conjunto do sistema público de saúde, a
indústria do tabaco aceitou recentemente indenizar, ao longo
dos próximos anos, em US$ 246 bilhões vários
Estados do país.
Vinte
e um deles já estão usando o dinheiro para tapar
buracos. Nova Jersey, por exemplo, transformou US$ 8 bilhões a
que tem direito no futuro em US$ 3 bilhões à vista,
vendendo títulos lastreados nas indenizações.
Na
área federal, a pedido de Bush, o Congresso aprovou
recentemente um novo corte de impostos, de US$ 350 bilhões em
dez anos. A medida, vista por especialistas como de fôlego
curto para ajudar na recuperação econômica, deve
agravar a situação das contas americanas nos próximos
anos e deteriorar ainda mais a qualidade dos serviços
públicos.
(FOLHA
DE S. PAULO, FOLHA DINHEIRO, 22/6/2003, p. B-11)
"Ginástica"
fiscal lembra a Enron, diz especialista
DE
WASHINGTON
Um
dos maiores especialistas em finanças públicas dos EUA,
o economista Michael Granof, da Universidade do Texas, compara a
"ginástica" que os governos estaduais e
federal vêm fazendo para ajustar seus balanços aos
subterfúgios usados por empresas americanas envolvidas em
fraudes contábeis, como a Enron.
"Os
Estados estão fazendo todo o tipo de "ginástica"
para tentar colocar seus balanços em ordem. Primeiro atrasam o
pagamento", disse. "Depois, começam a fazer
coisas mais sofisticadas, como criar entidades especiais para as
quais vendem seus ativos para depois fazer um contrato para tê-los
de volta. Ou seja, vendem seus ativos, pegam o dinheiro como receita
e fazem um leasing de volta. Como a Enron, esses Estados tomam
dinheiro emprestado sem contabilizá-lo como dívidas."
Para
Granof, os Estados fingem ter um balanço equilibrado. "Fingem
estar cobrindo o custo dos serviços, quando na realidade estão
empurrando a conta para os contribuintes do futuro".
(FOLHA
DE S. PAULO, FOLHA DINHEIRO, 22/6/2003, p. B-11)
|
A CRISE DOS ESTADOS NORTE-AMERICANOS |
|
|
|
|
|
1º)ALASCA |
25 |
|
2º)ARIZONA |
25 |
|
3º)NOVA YORK |
24 |
|
4º)CALIFÓRNIA |
20,5 |
|
5º)OREGON |
17 |
|
6º)MINNESOTA |
15,5 |
|
7º)COLORADO |
15 |
|
8º)CAROLINA DO NORTE |
14 |
|
9º)ILLINOIS |
13,5 |
|
10º)NEBRASKA |
13,5 |
|
11º)TEXAS |
12 |
|
12º)MASSACHUSETTS |
11 |
|
FONTE: National Conference of State Legislatures apud Folha de S. Paulo, Folha Dinheiro, 22/6/2003, p. B-11 |
|
PROGRAMA
DE GINÁSTICA ORÇAMENTÁRIA NOS EUA:
-Adiamento
do último salário (do ano fiscal terminado em junho) de
2003 para o primeiro de 2004;
-Antecipação do fim
das aulas nas escolas;
-Aumento de mensalidades em
universidades;
-Antecipação de receitas oferecendo
descontos em taxas aos contribuintes;
-Venda de títulos no
mercado lastreados em indenizações, como as recebidas
das indústrias de cigarros.
LEIA
MAIS:
- NCSL
- National Conference of State Legislatures.
(FOLHA
DE S. PAULO, FOLHA DINHEIRO, 22/6/2003, p. B-11)