FRAUDES
DO CAPITAL
Empresa que fez o Sivam lidera lista da S&P;
diferença entre receita real e "trucada" chega a
9.000%
RANKING
REVELA CAMPEÃS DO TRUQUE CONTÁBIL
SÉRGIO
DÁVILA
DE NOVA YORK
A
agência de classificação de risco Standard &
Poor's fez uma lista das empresas campeãs em usar truques
legais para maquiar suas receitas em 2001.
A Folha teve acesso aos
cinco primeiros nomes do relatório reservado, e o índice
de discrepância entre o valor declarado e os chamados "core
earnings" ("núcleo das receitas") vai de 976% a
9.000%.
"Core
earnings" quer dizer literalmente "núcleo das
receitas", em inglês, mas pode ser traduzido como receita
real do negócio da empresa, descontados os truques
contábeis.
Trata-se
de um conceito novo, introduzido pela própria S&P depois
da profusão de denúncias envolvendo grandes empresas
norte-americanas que começaram com o caso Enron, em dezembro
do ano passado.
Lidera
a lista a empresa de sistemas de defesa aerospacial Raytheon,
vencedora do processo de licitação para a compra de
equipamentos para o Sistema de Vigilância da Amazônia
(Sivam), que sofreu denúncia de irregularidades e foi um dos
primeiros escândalos do governo Fernando Henrique Cardoso.
Segundo a S&P, a diferença entre a receita declarada e a
real da Raytheon no ano de 2001 chega a 9.000 %.
A
Raytheon é seguida pela fabricante de instrumentos de análise
Perkin-Elmer (7,274%), pela rede de lojas de roupas The Gap (1,047%),
a fabricante de computadores Apple (1.003%) e o portal Yahoo!
(956%).
CONTABILIDADE
CRIATIVA
Todas
têm ações negociadas na Bolsa de Valores de Nova
York e nenhuma contestou os valores até agora. Segundo a S&P,
a diferença média geral de receita declarada e receita
real nas empresas listadas é entre 10% e 15%.
Na chamada
"contabilidade criativa", as empresas lançam mão
de instrumentos legais como não incluir a opção
de compra de ações como parte dos salários de
seus executivos ou incluir entre os lucros aqueles obtidos pelos
fundos de pensão, que na verdade são de propriedade dos
funcionários, e não do empregador.
Todos
os truques usados ainda estão dentro da lei norte-americana,
embora tenha começado a tramitar no Congresso norte-americano
um projeto que deve eliminar boa parte deles. Mas seriam éticos?
"Isso você tem de perguntar ao papa", disse à
Folha Michael Privitera, diretor da divisão de comunicações
da S&P.
Para
o autor do relatório, o analista David Blitzer, mesmo com a
lista nas mãos a agência de classificação
não teria sido hábil o suficiente para descobrir com
antecedência a megafraude na contabilidade da WorldCom. "Se
os números estão errados a princípio, tanto faz
a maneira como eles são somados", disse o analista.
Das
cinco empresas, pelo menos uma já começa a dar sinais
de desgaste. Trata-se justamente da Gap, loja de roupas que é
velha conhecida do turista brasileiro que visita os Estados Unidos.
Há alguns dias, seu presidente, Michael Drexler, pediu
demissão.
Em
conversas privadas, o executivo teria dito que os números
levantados pela agência não estão longe da
realidade.
CONVOCAÇÃO
À VERACIDADE
Como
primeira medida contra a "contabilidade criativa", a
Securities and Exchange Commission (SEC, órgão que
fiscaliza o mercado de ações nos EUA, equivalente em
escala muito maior da CVM brasileira) aprovou ontem instrução
em que convoca os executivos e diretores financeiros de mil das
maiores companhias norte-americanas a se certificar da exatidão
e da veracidade dos resultados financeiros que divulgam.
Os
executivos deverão também reconferir os resultados do
último relatório de resultados anual da empresa e de
cada informe divulgado desde então. "A medida é
necessária para assegurar a responsabilidade pessoal daqueles
que estão no topo das companhias", disse o presidente da
SEC, Harvey Pitt.
(FOLHA
DE S. PAULO, DINHIEIRO, 28/6/2002)