ESCÂNDALO


Duncan, ex-responsável pelas contas da companhia na Andersen e acusado de destruir arquivos, invoca a Quinta Emenda


AUDITOR SE RECUSA A DEPOR SOBRE CASO ENRON



DA REDAÇÃO


David Duncan, ex-auditor da consultoria Arthur Andersen e responsável pelas contas da Enron até o começo do ano, negou-se ontem a testemunhar perante a subcomissão do Congresso que investiga a bancarrota da empresa. Duncan foi demitido da Andersen depois de ter confessado que destruiu arquivos da companhia de energia.


O auditor invocou a Quinta Emenda da Constituição norte-americana para não prestar o testemunho. A emenda, entre outras coisas, defende suspeitos de terem cometido crimes contra a auto-incriminação.


O silêncio ocorreu porque antigos colegas, alguns entre os principais executivos da Andersen, colocaram nele toda a culpa pela destruição dos documentos.


"A Enron roubou o banco, a Arthur Andersen providenciou o carro para a fuga e estão falando que você estava no volante", disse o republicano Jim Greenwood, presidente da subcomissão que investiga o caso, na abertura da sessão.


Mas, quando o congressista iniciaria o interrogatório, indagando se Duncan recebeu ordens para destruir arquivos e "subverter investigações do governo", o auditor invocou o direito constitucional de permanecer calado.


O auditor invocou a Quinta Emenda duas vezes, dizendo: "Respeitosamente, essa será minha resposta para todas as suas questões". A testemunha acabou sendo dispensada.


Na sequência, Dorsey Baskin Jr., diretor de recursos humanos da Andersen, disse que Duncan comandou a eliminação de vários documentos. "Não estamos orgulhosos disso", afirmou.


Sob pressão de credores, o presidente da Enron, Kenneth Lay, 59, deixou o cargo. A companhia norte-americana de energia era uma das dez maiores empresas do país antes da concordata.


Lay, que dirigia a empresa desde 1986, disse que pediu demissão para cooperar com as investigações. Afirmou ainda que, afastado da direção, terá mais tempo para se dedicar à defesa da empresa.


"Quero que a Enron sobreviva, e, para isso, é preciso que haja alguém 100% focado no esforço de reorganizar a companhia e preservá-la para nossos credores e funcionários", disse o executivo.


Com agências internacionais



(FOLHA DE S. PAULO, DINHEIRO, 25/1/2002, P.B-9)




ENTENDA



QUEBRA DA EMPRESA É A MAIOR DA HISTÓRIA




DA REDAÇÃO


Há menos de um ano, a Enron era uma das empresas mais invejadas do mundo. Em menos de 20 anos, passou de uma pequena concessionária regional de oleodutos e gasodutos para a maior empresa de energia do planeta, atuando em vários setores e países, inclusive no Brasil.


Em dezembro, pressionada por credores e com suas ações se desvalorizando, a Enron foi obrigada a pedir concordata, para evitar a falência. Investidores perderam tudo, e milhares foram demitidos. É a maior empresa a quebrar na história.


A companhia, com sede em Houston (Texas), cresceu de maneira desordenada. Várias de suas subsidiárias eram deficitárias, mas os balanços não foram registrados corretamente.


Agora sua direção e seus auditores (no caso, a Arthur Andersen) estão sendo investigados, pela Justiça e pelo Congresso americanos.




(FOLHA DE S. PAULO, DINHEIRO, 25/1/2002, P.B-9)