ARTIGO
ENRON, UMA PARÁBOLA DE COBIÇA, CORRUPÇÃO E TRAPAÇA
HAMISH
McRAE
DO "INDEPENDENT"
Será
que o colapso da Enron, a maior concordata de todos os tempos,
sinaliza algo de novo e perturbador sobre a saúde do mundo das
empresas de porte gigantesco? Não, na verdade se trata de algo
de antigo e perturbador, pois simplesmente nos lembra dos defeitos já
antigos do menos pior entre os sistemas de organização
econômica já desenvolvidos: o capitalismo de mercado.
Trata-se de uma reprise, se bem que em escala muito maior, do nosso
escândalo [britânico" com Robert Maxwell, e os
Estados Unidos precisarão aprender as mesmas lições
que mais ou menos aprendemos a esse respeito.
O
cerne da história é fácil de contar. Uma empresa
de médio porte, administradora de oleodutos no Texas, teve a
inteligente idéia de não simplesmente distribuir
energia, mas negociar com ela também. O mercado de energia
estava sendo rapidamente liberalizado e o sistema por ela
desenvolvido fazia com que o novo mercado liberalizado de energia
funcionasse com mais eficiência. As pessoas pagavam menos pela
energia, e a Enron lucrava mais. Trata-se de uma atividade ainda hoje
lucrativa, e a empresa se tornou a sétima maior dos Estados
Unidos com base nesse sucesso.
Infeliz
e tolamente, ela então pensou que poderia aplicar essas mesmas
técnicas de mercado a outros segmentos. Expandiu-se de maneira
desordenada, às vezes por meio do estabelecimento de parcerias
e associações para explorar esses mercados. Mas todos
os mercados são diferentes, e muitas dessas empresas perderam
dinheiro. Quando elas começaram a encontrar problemas, a
matriz não registrou a situação corretamente na
contabilidade.
O
grupo de auditoria responsável por fiscalizar a contabilidade,
a Arthur Andersen, não encontrou esses erros, por motivos que
ainda não se tornaram muito claros. Quando as contas tiveram
de ser refeitas, havia um buraco negro nos lucros que deflagrou
diversas cláusulas de pagamento nos contratos de empréstimo
da empresa. O negócio todo implodiu.
Há
diversas outras características perturbadoras na história.
Uma é a destruição de documentos que aconteceu
quando os auditores perceberam claramente que a empresa estava com
problemas. Qualquer que seja a justificativa legal para isso, a
atitude parece terrível. Outra foi o fato de que os bancos de
investimento inflaram as ações do grupo, também
depois de ter ficado claro que a Enron estava com sérios
problemas. A questão óbvia é determinar se os
grandes honorários que a auditoria recebia por consultoria e
os bancos de investimento por sua assessoria de negócios
obscureceram seu julgamento quanto ao grupo.
Também
temos o triste fato de que muitos dos trabalhadores da empresa tinham
parte considerável de seus fundos de poupança e
aposentadoria investidos em ações do grupo. Enquanto
alguns dos principais executivos vendiam suas ações,
preocupados, presumivelmente, com a deterioração no
desempenho, os investidores menores estavam ou bloqueados sem poder
abandonar as suas posições no grupo ou foram
encorajados a permanecer. Como resultado, muitos deles perderam a
poupança de toda uma vida.
E
existe um contexto político mais amplo. Não é só
que a Enron tenha apoiado de maneira significativa a campanha
presidencial de Bush -ela também doou dinheiro aos democratas-
, porém mais o fato de que pessoas próximas a ela
estavam envolvidas com o cerne mesmo do mundo dos negócios dos
Estados Unidos.
O
problema não é que as pessoas tenham se comportado mal,
mas sim que toda a comunidade financeira tenha tantos relacionamentos
cruzados que é difícil sustentar qualquer forma real de
independência. Por exemplo, o presidente da Securities and
Exchange Commission (SEC, a agência federal norte-americana que
regulamenta e fiscaliza os mercados de valores), Harvey Pitt, era
sócio em um escritório de advocacia que representava,
entre outros clientes, a Arthur Andersen. Ninguém está
sugerindo que tenha havido comportamento impróprio de sua
parte, mas ele talvez precise se manter afastado das investigações
da SEC sobre a Arthur Andersen e a Enron.
Assim,
o que deveria acontecer? As pessoas hostis à idéia de
economia de mercado vêem o caso como mais um exemplo das
maneiras pelas quais o capitalismo pode ser corrompido. Elas alegarão
que, quando acontece um desastre corporativo, as pessoas no alto da
pirâmide protegem-se umas às outras e as que ficam por
baixo saem machucadas. Os chefões venderam seus milhões
de ações em tempo; os soldados rasos perderam as
aposentadorias.
E evidentemente elas estão certas: isso é
indefensável. Mas é importante aprender as lições
corretas, não as erradas, sobre o episódio. Eis cinco
sugestões:
A
primeira é a necessidade de auditoria independente. Determinar
se isso implica também a separação entre
serviços de auditoria e consultoria proibindo empresas do ramo
de auditoria de realizar trabalhos que envolvam receber honorários
de consultoria. Talvez a solução seja adotada como
resultado do fiasco da Enron, mas existem razões práticas
para permitir que as empresas de auditoria que descobrem problemas em
uma companhia ajudem-na a resolvê-los. De alguma maneira é
preciso que exista uma clara segregação entre as duas
funções. Se isso encorajar empresas do segundo escalão
a progredir e desafiar as líderes, melhor.
Segundo,
os mercados precisam aprender a desconfiar das recomendações
de ações dos bancos de investimentos. Quando uma dessas
empresas elogia as ações de uma grande companhia, como
muitas fizeram com a Enron no terceiro trimestre do ano passado, o
alerta de saúde pública deveria ser ainda mais
explícito. Os bancos de investimento precisam criar uma
cultura de independência entre seus funcionários. Eles
tendem a fazer o oposto, pressionando os analistas que escrevem
relatórios críticos (quando um analista londrino do
império Maxwell intitulou seu comentário de "Não
Posso Recomendar Uma Compra", foi demitido porque estava jogando
contra).
Terceiro,
é preciso que haja novas normas contábeis nos Estados
Unidos para transações mantidas fora dos balanços
que derrubaram a Enron.
Quarto,
os fundos de aposentadoria dos funcionários precisam ser
independentes da empresa, com uma espécie de limite à
proporção de seu dinheiro que pode ser investido na
empresa mesma.
Quinto,
e essa é a sugestão mais importante, nós, como
sociedades, precisamos voltar a cultivar a idéia de que a
reputação importa. Toda sociedade tem seus ratos, seus
pilantras, seus cupinchas.
Por
fim, quem quer que acredite que a separação entre
negócios e política é mais firme por aqui
deveria refletir sobre um triste fato. As ligações
entre Robert Maxwell e o governo britânico eram muito mais
estreitas do que os laços entre a Enron e o governo Bush.
Algum
dia daremos o devido valor aos homens de negócios que se
mantêm distantes dos políticos. Mas esse dia não
chegou.
Tradução
de Paulo Migliacci
(FOLHA
DE S. PAULO, DINHEIRO, 22/1/2002, p. B-2)