EMPRESAS




LIGAÇÕES PERIGOSAS


O escândalo da Enron mostra como é tênue a fronteira que se separa as atividades de consultoria financeira e de auditoria nas empresas


VLADIMIR BRANDÃO


A falência da Enron, a sétima maior empresa americana, teve efeito sobre um dos pilares do mundo dos negócios: a confiança. Ninguém imaginou que a bancarrota estava próxima porque os balanços da companhia retratavam números saudáveis.


A ilusão levou muita gente a aplicar as economias na empresa, mas era um golpe. As demonstrações mascararam dívidas e prejuízos. A empresa quebrou em dezembro.


O escândalo jogou sob os holofotes a Arthur Andersen, empresa de auditoria que avalizou os números. Na esteira, uma pane do setor ficou sob suspeita. Auditorias são contratadas para garantir aos investidores transparência nas análises dos cofres das empresas. Quando essa muralha de proteção falha, restam estragos como os semeados pela Enron. Estima-se que o rombo deixado eleva-se a US$80 bilhões.


O caso americano é o maior exemplo de uma história de relações sensíveis entre auditores e consultores. A Andersen - uma das cinco maiores do mundo na área - recebeu US$25 milhões em honorários em 2000 para auditar os números da Enron. E embolsou US$27 milhões por serviços de consultoria. As investigações apontam para a cumplicidade da Andersen na elaboração dos balanços fajutos.


O fato de uma mesma empresa fornecer auditoria e consultoria ao cliente é uma prática comum no mercado mundial, e não implica necessariamente manipulação de números. Há muitos trabalhos feitos honestamente. Existe, porém, um inegável conflito de interesses entre as duas funções. Menos bem remunerada, a atividade de auditoria pode ceder aos imperativos dos colegas consultores. O que se segue é um cuidado insuficiente com a análise das demonstrações financeiras.


"A relação é muitas vezes promíscua", admite Antonio Roque Citadini, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Se uma empresa fornece serviços de consultoria tributária ou avaliação de ativos a um cliente, como pode questionar com isenção os números que ela mesma ajudou a fornecer? "Se os auditores desabonarem as informações financeiras prestadas, poderão colocar em risco contratos milionários de consultoria com o mesmo cliente", diz um executivo do setor.


O caso Enron detonou uma crise. Obrigados a atuar em um momento de economia vulnerável, e porisso munidos de cautela redobrada, investidores de Wall Street estão se desvencilhando de papéis de empresas cujos balanços possam ter probÍemas. A falta de credibilidade se espalha: uma pesquisa da Business Week/Harris mostra que hoje apenas um quarto dos americanos acredita em relações francas e honestas das corporações com os consumidores e funcionários.


Os problemas não são privilégio americano. Na semana passada o juiz Marcos André Bizzo Moliari, da 1ª Vara Criminal Federal do Rio de Janeiro, condenou, além de ex-diretores e ex-controladores do Banco Nacional, um auditor por participação em fraudes na instituição, falida em 1995. Marco Aurélio Diniz Maciel, ex-sócio-diretor da KPMG, uma das grandes multinacionais do setor, assinou balanços fraudados por sete anos. Pegou dez anos e oito meses de prisão.

Segundo a promotoria, a KPMG mantinha profundas relações com o Nacional, e por isso não houve empenho para denunciar a fraude. O rombo de mais de US$9 bilhões não foi o único prejuizo. " Muita gente abandonou o mercado acionário por não sentir mais confiança nas informações ", diz o consultor Antonio Carlos Colangelo Luz.


Nas empresas como a Andersen e a KPMG, de fato, a divisão de consultoria é a mais próspera. Juntas, as maiores do setor, conhecidas como as Big Five (Pricewaterhouse Coopers, Emst & Young, KPMG, Deloitte e Arthur Andersen), faturam no mundo mais de US$60 bilhões por ano. Mais da metade vem da consultoria.


Outros exemplos de ligações estreitas e nem sempre isentas no Brasil levaram a Comissão de Valores Mobiliádos (CVM), fiscalizadora do mercado de capitais, a mudar certas regras em 1999. Evidências como as descobertas nas intervenções do Bamerindus e do Econômico fizeram a CVM proibir a dobradinha, entre outras atitudes. No caso do Bamerindus, um auditor da KPMG fazia parte do conselho fiscal da seguradora do banco. A regra da CVM está sendo contestada na Justiça por três das Big Five e pelo sindicato das consultorias.


"Não existe conflito. As duas atividades são desenvolvidas de maneira independente", garante Henrique Luz, sócio-diretor da Price.


O Banco Central, por seu lado, prepara nova regulamentação para auditorias em bancos que deve ser aprovada em maio, conforme adiantou a ÉPOCA o diretor de Normas, Sérgio Darcy. "As empresas terão de provar que têm tecnologia e pessoal qualificado suficientes para avalizar um balanço", diz. O BC saiu chamuscado do caso Nacional. Tereza Grossi, diretora de Fiscalização, admite que faltaram meios para enfrentar o problema. Agora o BC quer cobrar mais responsabilidade dos auditores. O que levanta outra controvérsia: até onde vai essa responsabilidade?


Técio Lins e Silva, advogado de Marco Aurélio Maciel, diz que para uma auditoria não existe o dever legal de descobrir a fraude."Existe o dever de aplicar determinadas normas,como fez Maciel", argumenta. A Trevisan, a maior empresa de auditoria de capital nacional,foi posta em xeque em 1993, quando auditou as contas do ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, acusado de enriquecimento ilícito. Ele apresentou suas contas, e a Trevisan deu o OK. Mas os números diziam respeito apenas às declarações de renda de pessoa física e de quatro das dez empresas das quais Quércia era sócio. Ele usou o documento como certificado de idoneidade, valendo-se do nome da Trevisan. A empresa fez corretamente o trabalho que lhe foi encomendado, mas há quem a acuse de não ter querido ver as suspeitas que pesavam sobre Quércia."Fomos inocentes", admite o vice-presidente Eduardo Pocetti.


Com VICTOR JAVOSKI, NEUZA SANCHES E ESTELA CAPARELLI




(REVISTA ÉPOCA, 4/2/2002, PP.40-41)