MURO DE
ENRON
MÍRIAM LEITÃO
A Enron desabou
sobre os mais caros valores do capitalismo moderno. Todo o arsenal
criado para proteger os direitos coletivos ruiu sob as evidências
de uma extravagante história em que falharam a
desregulamentação, a auditoria externa, a vigilância
do mercado de ações, a auto-regulação. A
idéia da empresa sem dono fica caricata diante dos lucros dos
ex-dirigentes.
O muro de Berlim caiu sobre os
desvios acumulados em 70 anos de ineficiêncla econômica,
autoritarismo e poder burocrático da nomenclatura comunista
que haviam destruído os valores primeiros de uma sociedade
igualitária. A Enron caiu sobre o capitalismo com um impacto
menor mas nada desprezível. Não é um caso
isolado. Não é apenas a falência da sétima
maior empresa americana.
Comportaram-se mal os executivos,
os auditores, a auto-regulação, órgãos
que fiscalizam companhias abertas, fundos, governo, reguladores. O
sistema falhou.
Não é o velho dilema
mercado versus Estado. É mais complexo e profundo.Talvez
demore muito tempo até todos entenderem o que tornou o caso
Enron possível, mas todos já estão convivendo
com a desconfortável sensação de que novas
enrons podem estar escondidas atrás de empresas bem cotadas,
com bons balanços, auditados por boas empresas e submetidas a
boa regulação.
O capitalismo americano se
apresentava como o mais admirável do mundo porque nele tudo
funcionava com o mínimo de intervenção. As
grandes empresas americanas não têm um dono. O velho
capitalista era Ford Rockefeller desapareceu.
Agora cada empresa pertence ao
público numa malha interminável de pequenos acionistas
que exercem seu direito de propriedade através de fundos de
pensão, ou de investimento. Os cidadãos detêm
partes infinitesimais das empresas.
Como proteger este bem público? Simples, dizem eles, e usam palavras difíceis de traduzir: accountability; disclosure; chinese wall, ou seja, prestar contas ao público, abrir todas as informações, impedir conflito de interesses. Para isto, empresas têm que seguir normas contábeis transparentes. E nenhuma norma é considerada melhor e mais clara que a americana, o US Gaap. Para que nada se esconda do acionista, da autoridade, do contribuinte, empresas externas auditam balanços.
E quem controla as auditorias?
Elas mesmas através de entidades de auto-regulação.
E existe o órgão regulador do mercado de capitais para
vigiar a saúde das empresas que estão vendendo ações
ao público. E existe o próprio mercado: milhões
de analistas que se dedicam a vasculhar empresas, dados,
estatísticas, projeções para saber onde ganhar
dinheiro. Esta força poderosa faria a seleção
natural.
Nada funcionou. A Arthur Andersen
era ao mesmo tempo auditora externa e interna da empresa. Fazia as
contas e depois atesta va que elas estavam certas. O contrato entre
Enron e Andersen tinha duas décadas. Ex-funcionários da
auditoria eram da equipe financeira da Enron. A Andersen prestava
consultoria de gestão. A mesma empresa fiscalizava os números
dentro da Enron, fazia a auditagem externa de resultados dos
ex-colegas a quem dava conselhos.
Ninguém via nada porque o
próprio sistema criou áreas de sombras ou a
possibilidade de criar entidades paralelas às empresas.
A lei do país que alega ter
o mercado mais perfeito do planeta permite que empresas possam criar
outras empresas nas quais jogam tudo o que não é
conveniente ser visto. Uma Sociedade de Propósito Específico
(Special Purpose Entities) é considerada independente se tiver
3% de capital de fora. A "Business weeK" dá um
exemplo de uma empresa saudável: a Dell. Ela tem 70% do
capital de uma SPE que concede os financiamentos para a compra dos
seus produtos. E se os devedores não pagarem suas dívidas?
Outro dos mais caros valores do
capitalismo americano em xeque é a idéia de que a
empresa é também do empregado.
Ele é acionista diretamente
ou indiretamente através do seu fundo de pensão. Na
Enron, o fundo jogou as aposentadorias dos funcionários em
ações da empresa que faliu dando lucros aos diretores,
únicos que sabiam o que se passava no colosso texano.
Enquanto isto acontecia no
mercado, assumiu o governo um presidente que há nove anos
recebe contribuições desta empresa para a sua carreira
política. Vários dos seus secretários também.
O vice-presidente intercedeu por ela junto ao governo da Índia,
fez sete reuniões com os diretores sobre assuntos que não
quer revelar. As investigações dirão da dimensão
desta promiscuidade.
Inquietante e fértil este
momento porque ele ensina verdades para além das ideologias.
Os valores do capitalismo estão em xeque no caso Enron. Os
adversários do capitalismo nada propõem de novo. A
globalização é um fato objetivo mas é
tratado com a paixão das ideologias.
Nestes últimos dias as
atenções do mundo estão divididas em dois
fóruns. De um lado, os dirigentes financeiros globais não
têm como explicar o caso Enron, que contamina a receita de
bolo. De outro, todos os meios e facilidades da tecnologia de
comunicação, que permitiu a globalização,
são usados por ativistas dos mais variados e contraditórios
movimentos para culpá-la pelos males do mundo.
Noam Chomsky explica que o erro da
globalização é que os conservadores se
apropriaram dela, alegam que ela é a consagração
do seu projeto, e querem transformar todos os dissidentes em seres
primitivos, quando eles querem discutir as bases da nova
integração.
Em Nova York há consenso
demais. Porto Alegre é puro dissenso. Não deixa de ser
animador tanto debate. Quando as ideologias são insuficientes
para explicar o mundo é hora para novas idéias.
COM MARIANA MAINENTI
(DIÁRIO DE S. PAULO,
DIÁRIO ECONÔMICO, 2/2/2002, P.B-4)