ESPÍRITO DA ÉPOCA


THOMAZ WOOD JR.


Quem passou um mês fora, em Biringüi ou lugar parecido, deve ter se espantado com a troca de manchetes na mídia internacional: saiu o Afeganis tão, entrou a Enron. Há poucos meses, a empresa era uma das maiores e mais valiosas do mundo. Agora, é o maior caso de falência da história americana. Além de provocar o naufrágio de funcionários, acionistas e investidores de fundos de pensão (aquelas simpáticas velhinhas da Flórida), ameaça levar junto a Andersen (responsável pela auditoria da empresa). De quebra, está espalhando detritos por toda a Washington.


Este escriba tomou conhecimento da existência da Enron há menos de um ano, por meio de uma matéria publicada em The Economist: junto com a Merryll Linch, a Siemens e a General Electric, a empresa era citada como exemplo de inovação e estratégia bem-sucedida na era digital. Como diriam os gurus empresariais, a Enron quebrou paradigmas e tornou-se um novo benchmarking para toda a indústria. Meu (inocente) entusiasmo foi transmitido a alguns alunos da GV, que chega ram a estudar o inovador modelo de gestão da empresa. Mea culpa! Sinto-me agora como um Aedes aegypti corporativo.


MAS O QUE FAZIA A ENRON? Simples: comercializava energia. Agora, some-se a isso complexas manobras financeiras, diversos truques contábeis, variadas pirotecnias na comunicação com o público e surge uma empresa da "nova economia", ou um titanic, ou ambos. Quando a empresa foi criada, gás natural e eletricidade eram produzidos, transportados (ou transmitidos) e vendidos por monopólios controlados pelo Estado. A Enron aproveitou a desregulamentação do setor e usou a mágica de Wall Street para transformar energia em produtos financeiros. Segundo meu amigo Edmundo, expert no tema, a Enron introduziu inovações importantes num setor tradicional, boas idéias que agora podem ser soterradas pela conduta temerária da empresa.


E quais foram as faltas? Seguindo prática comum entre grandes conglomerados, a Enron passou a diversificar e a comercializar outros produtos e serviços. Em certos casos a estratégia funcionou, noutros não. Os sucessos apareciam nos balanços da empresa. os fracassos eram "criativamente" escondidos. Enquanto as perdas se avolumavam, as ações continuavam valorizadas. Depois de algum tempo, o buraco ficou maior que a empresa e já não era possível ocultá-lo. Manobras de última hora foram tentadas: ajuda do governo norte-americano, fusão com outras empresas, etc. Mas o rombo era grande demais. As acusações sobre os dirigentes da empresa são as mais diversas: fraude na contabilidade, uso de informações privilegiadas, destruição de documentos e outros crimes.


Porém, é essencial entender a ambigüidade da situação. Em seu auge, a Enron representava o melhor e o pior do espírito da época. Era inovadora, rápida e orientada para o mercado. Seguia à risca a cartilha de gestão dos anos 90, que induzia as empresas a se desfazer de ativos "fora de moda" como as instalações industriais, e concentrar em marca, imagem, serviços e produtos financeiros. Com a inovação, veio uma cultura corporativa de cassino. No limite, esse ideário levou

à busca de grandes jogadas, armações financeiras "criativas e nem sempre previstas nos "antiquados" controles legais.


A essa altura, muita gente deve estar perguntando: afinal, para que servem os auditores? A Andersen não deveria garantir a integridade das contas da Enron? O que aconteceu ainda está para ser apurado. Durante muitos anos, o símbolo da Andersen foi uma pesada porta de madeira, que representava consistência, sigilo e confiança. Há uns dois anos, a imagem foi trocada por uma laranja! Agora, essa tradicional empresa, com quem este colunista mantém relações profissionais, vive sua maior crise e corre risco de sobrevivência.


Enquanto isso, o que se assiste agora é a uma verdadeira caça às bruxas. David Duncan, ex-sócio da Andersen responsável pela conta da Enron, acusado de destruir documentos relacionados ao caso, é sério candidato à fogueira. Em audiência no Congresso americano, ouviu, pálido, a acusação: "senhor Duncan, a Enron roubou o banco, a Andersen forneceu o carro para a fuga e eles dizem que o senhor estava ao volante". Dezenas de processos estão em andamento. Aguardemos os próximos capítulos!





(CARTA CAPITAL, GESTÃO, 6/2/2002, P. 41)