A
SUCESSÃO SAI DO CONTROLE DO JARDIM AMÉRICA
Roque
Citadini
Nesta
semana o PMDB de São Paulo escolhe Quércia como
candidato a governador.
Foi
a mais intrincada disputa que uma pessoa enfrentou, embora chegue à
convenção como candidato único. As restrições
a Quércia expressas em múltiplas formas têm uma
matriz: a fina burguesia paulista não o tolera. Aliás,
as famílias de bem deste Estado não
conseguem engolir o PMDB. Tendo participado ativamente da conspiração
de 64, os melhores filhos daqui foram os maiores defensores da
ditadura, tendo dela tirado as maiores vantagens para seus negócios.
A participação desses senhores da
resistência democrática foi residual. Aqui e ali
aparecia alguém não concordando com o regime
autoritário ou salpicando alguma crítica.
Dá
pra contar nos dedos os empresários da resistência. É
certo que hoje fazem um esforço danado para apagar seu
passado. A família Ermírio de Moraes, por exemplo,
apresenta-se como resistente da ditadura embora sua maior obra
política tenha sido contratar um escritor de extrema direita
para escrever as biografias do pai (este sim, digno e democrata),
retirando todas as coisas ruins de sua história.
Seu acordo com Arraes e os comunistas de Pernambuco foi apagado assim
como Stalin alterou a história da Revolução
Russa. Era preciso fazer média com os militares. Foi, no
entanto, sem qualquer participação significativa da
grande burguesia paulista (o Gasparian talvez seja a única voz
distoante) que se organizou, cresceu e venceu a oposição
democrática em São Paulo. Nesta construção
da resistência o PMDB tem participação central e
Quércia é presença marcante.
No
período mais avançado de transição os
senhores de bem aderiram, mas sempre com o pé
atrás. Essa gente fina, com enorme poder de
dinheiro (controlam quase 80% da parte industrial do país) não
aguenta o PMDB, que ainda aparece com um candidato indigerível.
Estranho este Estado.
Os três outros concorrentes de Quércia têm a mesmíssima origem. Ermírio, Suplicy e Maluf, são filhos de respeitáveis famílias (agora, seus avós não). Estudaram nos melhores colégios da cidade, tiveram aulas de piano, violino; passaram férias na Europa; frequentaram os melhores clubes. Os três estudaram nos Estados Unidos, já que a colônia ainda não chegou ao nível ideal e nasceram, moraram ou moram na mesma rua Costa Rica, no Jardim América. São filhos de boa família, por isso as diferenças políticas, que são grandes, procuram se atenuar.
Não
há um grã-fino da cidade mesmo o mais
reacionário que referindo-se ao Suplicy não
reconhece que é bem intencionado, ingênuo
sem, contudo, negar-se o berço.
Isto
não acontece com Quércia.
Este
é despreparado (não frequentou o Colégio São
Luiz, fez curso de Direito no interior), grosso (canta música
de viola, não toca violino) e por todos os cantos insinuam-se
afirmações sobre sua vida comercial, apresentando como
prova um relatório do Serviço de Informação
do Exército, e acusador um famoso trambiqueiro da praça,
Herbert Levy. Esta poderosa elite empresarial que tudo pode,
encontra-se em polvorosa. Não participou da resistência
democrática, foi residual na transição e corre o
risco de Ter que aguentar um caipira no governo do Estado. A
tentativa de golpear o PMDB em São Paulo, visa alterar o rumo
que o país ganhou nos últimos anos.
Chegamos à democracia, iniciamos reformas em áreas sensíveis e só há um culpado direto: o PMDB. Isto tudo já era difícil de aguentar e ainda agora vem com o Quércia de candidato. O Quércia controla delegados. Esta acusação era feita aos adversários internos e externos. Com uma mínima participação na máquina de governo o vice teria operado o milagre de controlar os delegados à convenção.
Nada
mais falso.
O Quércia expressa a militância do partido muito mais que meros delegados porque tem uma forte e acumulada presença na luta política.
O
Quércia não é santo.
Nem
a Igreja tem encontrado nos dias de hoje, por mais que se esforce.
Sua candidatura, tem uma enorme contribuição para a
democracia nascente porque ele traz um lado moderno e avançado.
É uma candidatura de partido.
O
Quércia é o primeiro político de São
Paulo que constrói sua alternativa político-eleitoral
junto com milhares e milhares de pessoas, ultrapassando uma proposta
autoritária e pessoal. Ele é seu lado avançado;
seus compromissos estão amarrados ao PMDB e com ele se
confundem. Tem também uma face de político
convencional. Pudera, se assim não fosse, seria no máximo
vereador. Não erro ao afirmar que vamos ganhar. E por uma
larga margem.
O Quércia fará um governo afinado com o PMDB e dará uma enorme contribuição para a consolidação da democracia e avanço nas reformas sociais no país.
Seu
passado e seu presente no PMDB são avais incontestáveis.
Roque
Citadini é membro da executiva estadual do PMDB e candidato a
deputado estadual.
(Pasquim
São Paulo. Ano XVIII, nº 1. São Paulo, de 3 a 10
de julho de 1986, p.29)