O
DIREITO DE VOTO AO ANALFABETO
A comissão interpartidária
que estuda as mudanças na legislação eleitoral
tornou público o primeiro lote de modificações
que será proposto para discussão no Congresso Nacional,
trazendo algumas questões extremamente importantespara o
sistema eleitoral brasileiro.
Dentre as modificações
propostas, algumas tímidas, destaque-se o direito de voto ao
analfabeto, questão que sempre é fruto de intensa
polêmica entre políticos e juristas. Pela proposta da
comissão inter-partidária, o analfabeto, além de
votar, poderá candidatar-se à Câmara Municipal,
enquanto cabos e soldados das polícias militares também
terão direito a voto.
De todos os casos previstos em
nossa atual legislação, o mais discutido caso de
inalistáveis é o dos analfabetos. votavam no Império
(onde o critério de alistamento eleitoral era econômico)
e foram excluídos pela legislação eleitoral da
República.
Os defensores da manutenção
do voto ao alistamento dos analfabetos sustentam que a pessoa que não
sabe ler e escrever não está apta a escolher seus
dirigentes, constituindo-se em frágil "massa" a ser
manobrada pelos mais letrados. Assinalam, ainda, que permitir o
direito de votar seria um estímulo ao analfabetismo.
O ex-ministro Carlos Maximiliano
sintetizava a posição dos defensores do voto somente à
elite alfabetizada, afirmando que faltava ao analfabeto "o meio
de acompanhar atentamente a marcha dos negócios públicos
e até o de verificar a exatidão da cédula
fornecida por outra pessoa e por ele deposta na urna eleitoral".
O eminente jurista indicava o caminho a ser trilhado pelos
analfabetos: "Procure ele os mestres, freqüente escolas
gratuitas e terá adquirido a plenitude dos direitos do
cidadão". (Comentários à CF de 1946, pág.
22).
Como Carlos Maximiliano, o
ex-presidente do TSE, Edgard Costa, também defende a exclusão
dos analfabetos do processo eleitoral,lembrando que este preceito
"não contraria o do sufrágio universal... porque
esta expressão não deve ser traduzida ao pé da
letra, mas entendida como excludente de condições
relativas à fortuna, profissão, sexo, posição
ou classe social". (A Legislação Eleitoral
Brasileira, pág. 301).
Contrapondo-se a essa visão
elitista, que apregoa uma democracia dos preparados, conceituados
juristas têm ao longo dos anos contestado largamente o atual
veto ao alistamento do analfabeto.
Gomes Neto classifica a exclusão
dos analfabetos du quadro de eleitores como "absurda e
berrantemente injustificável". (Teoria e Prática
do Código Eleitoral Vigente, pág. 37).
O deputado e professor de Direito
Constitucional Ulysses Guimarães, em 1975, apresentou notável
contribuição aos defensores do voto do analfabeto em
sua pruposta "Reforma com Democracia", onde defendeu a
instituição do que chamou de "voto igual".
"Voto igual para todos, expulsos os privilégios. Igual
para o homem e a mulher, para o brasileiro nato e o naturalizado,
para o empregador e o empregado, para o branco, amarelo e o preto,
para o religioso e o agnóstico. lgual inclusive para o
alfabetizado e o analfabeto."
O eminente jurista de formação
conservadora, prof. Manoel Gonçalves Ferreira Filho, também
defende o direito ao alistamento de todos dizendo que "o
analfabetismo é antes de mais nada fruto de uma situação
social e econômica contra a qual a vontade do indivíduo
isolado não pode muito". Acrescenta o renomado professor
que a difusão do rádio e da televisão puseram a
informação ao alcance do analfabeto. (Comentários.
A Constituição Brasileira, pág. 557/558).
Parece-nos que a matriz do
pensamento dos que advogam a permanência da exclusão do
analfabeto do processo eleitoral é a de acreditar-se que o
Pais deva ser governado por uma elite, preparada e culta, a qual
estaria à frente da gestão dos negócios
públicos.
A proposta da comissão
interpartidária constituiu-se em notável avanço
que terminará com a exclusão de milhões de
brasileiros do processo político e será um marco no
processo de democratização do País.
Ainda que seja restrita, pois
mantém alguns vetos ao analfabeto, a medida pruposta pela
comissão de congressistas é provavelmente - a
maior contribuição que a Nova República dá
para o avanço democrático da sociedade brasileira.
ANTONIO ROQUE CITADINI
(DIÁRIO
COMÉRCIO & INDÚSTRIA, 22/4/1985)