Entrevista dr. Antonio Roque Citadini
“Todos
os administradores flostariam de ter absoluta liberdade para gerir
seus orçamentos, mas isso não existe.”
Mais
moderado nos assuntos que se referem ao orçamento público
do que ao futebol, o presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE)
e ex-dirigente do Corinthians, dr. Antonio Roque Citadini, acredita
que o país progride no que diz respeito ao dinheiro destinado
à educação. Isso ocorre especialmente nos
pequenos municípios paulistas que, segundo ele, têm
alcançado maior sucesso na questão de recursos
obrigatórios para o ensino do que os grandes. “Os
problemas na educação hoje em dia estão
localizados nos grandes municípios metropolitanos. Nas cidades
menores e médias, a situação é bem
melhor. É quase uma regra”,
afirma.
Citadini aplaude a criação do Fundeb
(Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação
Básica), que determina nova distribuição dos
investimentos para garantir a educação básica
dos brasileiros, desde a creche ao final do ensino médio.
“Infelizmente
há municípios que patinaram. Mas a idéia de
vincular um percentual obrigatório é positiva”,
diz.
No terceiro mandato como presidente do Tribunal, Citadini
afirma que o órgão passa por um período de
grandes transformações, a partir da descentralização
dos processos possibilitada pelas novas Unidades Regionais e com a
expectativa da implantação da auditoria on-line.
“Este ano, muitos municípios começarão a
prestar contas pela internet. No ano que vem já será
obrigatório a todas as cidades enviar os balancetes de forma
eletrônica”,
diz. A inovação é considerada um marco da atual
gestão.
Sobre as alterações na lei de
Licitações, em estudo no Congresso, o presidente do
Tribunal acredita que não deverão atingir a perfeição,
mas que é preciso trabalhar diante da nova realidade do país.
“É
natural que uma lei como essa não consiga abraçar todas
as situações. A lei 8.666/93 cumpriu um papel
importante nos anos 90, mas precisa ser readequada”,
diz ele. Para o presidente do TCE, a postura do Tribunal perante a
lei de Responsabilidade Fiscal pode ser avaliada como antipática,
mas está de acordo com o papel de um órgão de
controle. “Aplicamos
a LRF como ela é: restritiva. Pode ser reformada, mas é
boa nesse sentido”,
afirma.
-Fale
um pouco da sua missão frente ao Tribunal de Contas do Estado
de São Paulo.
CITADINI
- Sou presidente do TCE pela terceira vez. Esses anos todos são
de muitas transformações. A partir de 1988, mudou o
modelo de fiscalização e com isso o Tribunal teve de
alterar a forma de trabalhar, mexer nos manuais de auditoria. Tivemos
um processo grande de descentralização com a criação
das Unidades Regionais. Passamos a fiscalizar mais o resultado do que
a forma. Essa é uma coisa que o Tribunal tem perseguido muito,
não ter uma visão forma lista sobre tudo. É
preciso fiscalizar o resultado, para não se perder a essência
da condição de um órgão de controle.
Nesses anos tivemos muitas leis: a Constituição de
1988, a lei de Responsabilidade Fiscal, o Fundeb, o Fundep (Fundação
de Desenvolvimento da Pesquisa), a lei de Diretrizes e Bases, a nova
Lei de Licitações. Foi toda uma seqüência de
mudanças que fizeram com que o Tribunal procurasse se
reciclar.
-Houve
alguma transformação na gestão do
Tribunal?
CITADINI
- Como mudou o modelo de fiscalização, mudou também
a forma de gerir. Nós hoje contamos com 11 Unidades Regionais
que alteraram bastante a relação do jurisdicionado com
o Tribunal. Hoje, quem mora numa cidade pequena se reporta ao
escritório regional. Isso teve impacto nos próprios
fiscalizados.
-O
diálogo tem progredido com os municípios?
CITADINI
- Nós fazemos anualmente um roteiro de, em média, 36
encontros regionais. Eu vou a boa parte deles. Nesses encontros, os
auditores discutem temas específicos, como lei de
Responsabilidade Fiscal, mudanças na lei de Licitações
e gastos no ensino. Mais do que debater, nós procuramos
responder às questões para atender à demanda dos
municípios. Isso tem sido muito positivo. Por outro lado, o
Tribunal edita cartilhas explicando sua posição sobre
diversos assuntos como fiscalização de empresas,
sociedades de economia mista, fundações e organizações
sociais. Essas cartilhas são colocadas para os municípios
e o Estado para que não se tenham surpresas sobre a
interpretação do Tribunal.
-O
que pode ser considerado marco em sua gestão?
CITADINI
- Minha não, uma vez que o Tribunal não tem uma gestão
personalizada, mas do colegiado. Nós vivemos hoje um momento
muito importante, pois estamos implantando a auditoria on-line.
Este
ano, muitos municípios já começarão a
prestar contas pela internet. No ano que vem já será
obrigatório a todas as cidades enviar os balancetes de forma
eletrônica. Essa mudança é um grande avanço.
O sistema é desenvolvido pela Prodesp (Companhia de
Processamento de Dados do Estado de São Paulo) e valerá
para todos, que também terão acesso às situações
de gastos, pagamentos e orçamento. Com isso, ganharemos em
celeridade e eliminaremos papelada. Os relatórios hoje são
calhamaços enormes e, a partir do ano que vem, não
existirão mais.
-Essa
burocratização prejudica o andamento dos processos e
faz com que haja acúmulo?
CITADINI
- Estamos atendendo hoje a uma nova realidade. Antes da Lei de
Responsabilidade Fiscal não existia o acompanhamento mensal da
execução orçamentária que temos hoje. Se
não tratarmos de transpor isso para o mecanismo eletrônico,
ficaremos numa situação muito ruim. É o que
estamos fazendo. Ainda assim, o Tribunal de Contas é
seguramente o organismo mais rápido que há. Não
há celeridade como a nossa.
-A
estrutura do Tribunal é compatível com a
demanda?
CITADINI
- Não achamos que devemos pleitear seguidamente aumento de
estrutura. Devemos racionalizar melhor a produção de
forma a aplicar as ferramentas de informática para diminuir o
trabalho, e não querer expandir o número de servidores
e áreas.
-Como
o sr. avalia a aplicação da Lei de Responsabilidade
Fiscal?
CITADINI
- É uma lei de restrição. Ninguém gosta
de uma lei que diga "não pode gastar assim, tem de ser de
outro modo". Nosso papel é acompanhar o que está
sendo gasto com as restrições impostas. Por isso nossa
postura pode ser antipática. Todos os administradores
gostariam de ter absoluta liberdade para gerir seus orçamentos,
mas isso não existe. Por isso nós aplicamos a lei de
Responsabilidade Fiscal como ela é: restritiva. Pode ser
reformada, mas é boa nesse sentido. É uma lei de
disciplina e tem o sentido de obrigar a não gastar em algumas
situações e o contrário em outras. Por exemplo,
existe a obrigação de gastar 25% no ensino. Por outro
lado, não se pode gastar mais do que determinado percentual na
área de pessoal.
-Isso
não engessa a capacidade de administrar?
CITADINI
- Não. Eu acho que ela organiza a capacidade do munidpio para
atender demandas.
-A
chegada do Fundeb pode ser traumática ou ter impacto muito
forte nas contas dos municípios?
CITADINI
- Não deve alterar muito. O impacto maior aconteceu com o
Fundef, uma mudança muito grande. No caso do Fundeb, não
chega a ser traumática. É uma mudança
importante, mas não substancial. A questão da aplicação
no ensino vem de um pouco antes da Constituição de 1988
e depois nela própria. A grande discussão inicial era
se poderia haver um gasto obrigatório. Alguns juristas diziam
que não era possível vincular gastos à receita.
Foi a primeira batalha. Hoje está claro que isso é
viável, o que representou uma ~udança muito grande. A
Constituição de 1988 determinou duas coisas. Primeiro
que era possível fazer gastos vinculados. Depois, elegeu a
educação como algo prioritário para o país.
Nesses 20 anos, quem está aplicando bem já experimenta
um grande avanço. Quem aplica mal vai mal. O quadro na
educação é muito diferente de uma área
para outra, mas não porque a lei seja ruim. Advogo que
continue a obrigatoriedade de aplicar no ensino porque os resultados
têm sido muito bons. O país está progredindo
nessa área. Infelizmente hámunicípios que
patinaram. Mas a idéia de vincular um percentual obrigatório
ao ensino é positiva.
-Patinar
significa não conseguir gastar ou gastar mal?
CITADINI
- Gastar mal. Dizer que o município não tem como gastar
não existe. Sempre há condições de gastar
e cada vez melhor. É que no primeiro momento tem de construir
sala, depois equipar, investir em professor. Quando o município
for rico e tiver mais dinheiro, gastará mais ainda.
-Que
percentual de municípios consegue aplicar de maneira
adequada?
CITADINI
- Os munidpios pequenos são melhores que os médios, que
por sua vez são melhores que os grandes. Em geral, os
problemas na educação hoje em dia estão
localizados nos grandes municípios metropolitanos. Nas cidades
menores e médias, a situação é bem
melhor. É quase uma regra.
-Isso
também ocorre nas outras áreas da
administração?
CITADINI
- Também, mas no ensino é visível. As cidades
grandes em geral têm uma situação melhor na área
da saúde.
-Como
avalia as mudanças em estudo no Congresso referentes à
Lei de Licitações?
CITADINI
- Não existe uma lei perfeita, que não tenha brechas. É
natural que uma lei como essa não consiga abraçar todas
as situações que ocorrem na administração
pública. A lei 8.666 cumpriu um papel importante nos anos 90,
mas necessariamente precisa se readequar ao país que existe. O
Estado mudou muito nos últimos 15 anos. Hoje praticamente
quase não há empresas públicas, houve uma
transformação dramática na formulação
do Estado. Surgiram as organizações sociais, as
entidades do terceiro setor. Então é preciso trabalhar
diante da nova realidade.
-Qual
é sua opinião sobre a cobertura do TCE pela
imprensa?
CITADINI
- Nós não procuramos fazer um discurso maior de
divulgação, mas temos tido uma repercussão boa
do nosso trabalho. Inclusive nos jornais menores do
interior.
“Estamos
implantando a auditoria on-line. Os relatórios hoje em dia são
calhamaços enormes e, a partir do ano que vem, não
existirão mais.”
(Revsta
Expressão Jurídica, Secretaria de Assuntos Jurídicos
de Osasco, Agosto/2007, ano 1, nº 2, pp. 14-19)
Dirigente corinthiano
Um cartola sem papas na língua
Ex-vice-presielente
ele futebol elo Corinthians e membro do Cori, conselho de orientação
fiscal do clube, Roque Citadini não concorda com a fama de
provocador e dono de uma língua afiada quando o assunto é
esporte: “O futebol é um
mundo conservador, retrógrado, reacionário, onde há
resposta padrão para tudo. Isso vale para dirigente, jogador e
jornalista. Acham que sou afiado porque não falo o óbvio,
o que é uma bobagem sem tamanho”.
O
Conselheiro condena a atual situação do futebol
brasileiro, que classifica como “um
negócio sem barreiras, de tarifa zero”
pela pouca preocupação em tentar manter os melhores
jogadores no país. “É
como se qualquer empresa brasileira enfrentasse outra estrangeira sem
proteção. O mesmo atleta que hoje joga no Corinthians
pode amanhã estar no Inter de Milão”,
afirma.
As críticas são ainda mais ácidas
em relação à mídia esportiva. Segundo o
ex-dirigente, tirando poucos profissionais do jornalismo
especializado, “a
maioria é de sentar e chorar”.
Citadini reclama do espaço excessivo destinado à vida
de celebridades pela imprensa e lamenta a falta de atenção
àcobertura futebolística. “Uma
baboseira total. É o momento que o país vive, de uma
coisa inculta. Os jornais todos têm revistas de celebridade
estilo 'Big Brother'. E não é para falar de um novo
Einstein ou coisa parecida. É sobre uma celebridade imbecil”,
desabafa. Para ele, os donos de jornais não entendem nem
gostam de futebol porque também nunca foram ao
estádio.
Citadini lamenta a falta de mercado editorial
para livros sobre a vida dos atletas brasileiros. “Em
cem anos de futebol, não há 50 biografias de jogadores
daqui, enquanto nos Estados Unidos saem 50 por ano”,
diz. Segundo ele, há atletas de futebol americano e beisebol
que já estão na décima biografia, enquanto, no
Brasil, Mané Garrincha tem apenas uma. “Nesse
sentido somos um país pobre.”
O
Conselheiro foi também crítico ferrenho da parceria
entre Corinthians e MSI, encerrada no último dia 24 de julho,
por decisão do Conselho Deliberativo do Clube. Segundo
Citadini, a MSI é uma “organização
de fachada, que reúne investidores desconhecidos”,
como afirma o blog
do Conselheiro na web. “A
parceria era danosa. O contrato era ruim e feito por gente que não
soube defender os verdadeiros interesses do time. O melhor foi mesmo
cancelar”,
declara.
Sobraram farpas até para a torcida organizada,
com a qual ele diz não se identificar por não ser
considerado parte da mesma tribo. “Não
vou à escola de samba, nem freqüento quadra. Não
ando com colar de ouro. Então eles acham que não
pertenço ao mundo deles”,
afirma.
(Revsta Expressão Jurídica, Secretaria de Assuntos Jurídicos de Osasco, Agosto/2007, ano 1, nº 2, pp. 18-19)