CASA DE FERREIRO
Déficit
orçamentário e aplicação insuficiente no
ensino fundamental também pesaram na decisão do
tribunal
TCE
REJEITA CONTAS DE PALOCCI EM RIBEIRÃO
AFRA BALAZINA
FREE-LANCE PARA A
FOLHA RIBEIRÃO
O crescente endividamento do
município, o elevado déficit orçamentário
e a insuficiente aplicação de verbas no ensino
fundamental fizeram o TCE (Tribunal de Contas do Estado) rejeitar as
contas do ex-prefeito de Ribeirão Preto Antonio Palocci Filho
(PT) relativas ao exercício de 2002.
A decisão
atinge também o prefeito atual, Gilberto Maggioni (PT), já
que Palocci renunciou à prefeitura no dia 21 de novembro
daquele ano para assumir o cargo de ministro da Fazenda.
No total,
a fiscalização do TCE constatou 20 irregularidades,
mas, segundo o relator Antonio Roque Citadini, a dívida, o
déficit orçamentário e a aplicação
insuficiente no ensino fundamental foram falhas "capitais"
para a emissão de parecer desfavorável.
Segundo
relatório do tribunal, a dívida fundada (de longo
prazo) no período aumentou 58,5% entre 2001 e 2002 -de R$ 36,3
milhões para R$ 57,5 milhões- e a dívida
flutuante (de curto prazo) cresceu 13% -de R$ 38,6 milhões
para R$ 43,6 milhões. Além disso, os restos a pagar
cresceram 70%, chegando a R$ 40,4 milhões, enquanto a
prefeitura tinha em caixa apenas R$ 10,7 milhões. Já o
déficit orçamentário foi de 11,1%, ou R$ 39,7
milhões.
Na educação, Palocci investiu 25,1%
das receitas (percentual pouco acima dos 25% obrigatórios),
mas aplicou 58,7% desse montante no ensino fundamental, enquanto a
lei prevê 60%.
Entre as outras irregularidades apontadas
pelo TCE estão até furtos de bens patrimoniais, como
equipamentos portáteis, sem que fossem instauradas
sindicâncias e sem que fossem tomadas providências para
evitar os crimes.
Também foram considerados irregulares
pagamentos a maior de salários aos secretários
municipais e de R$ 307 mil a procuradores do município
relativos a ações vencidas pela administração.
Foram apontados ainda pelo TCE suspeita de direcionamento em
licitação, o pagamento a inativos com recursos do
Orçamento municipal e repasses com atrasos das contribuições
dos servidores para o IPM (Instituto de Previdência dos
Municipiários) e Sassom (Serviço de Assistência
Médica dos Municipiários).
A procuradora geral do
município à época, Vera Lúcia Zanetti,
disse que a prefeitura vai analisar a decisão e recorrer ao
TCE. Palocci foi procurado duas vezes por meio de seu assessor,
Marcelo Amorim Netto, mas o ministro não ligou de volta para o
jornal.
O presidente da Câmara, Leopoldo Paulino (PSB),
preferiu não comentar a decisão do TCE -a rejeição
das contas precisa ser referendada pela Câmara. Caso ela seja
confirmada, Palocci e Maggioni poderão ser declarados
inelegíveis por até oito anos, além de serem
multados em até 100% do dano causado ao município.
Segundo
o vereador da oposição Nicanor Lopes (PSDB), em 2002,
na campanha que levou Lula à Presidência, foram lançados
vários projetos "eleitoreiros" na cidade. Ele citou
o Vale dos Rios, megaprojeto feito por Palocci para reurbanizar o
centro. Esse foi o período em que ocorreu a licitação
para adquirir 41.787 cestas básicas por R$ 1,25 milhão
que incluía no edital a exigência de uma lata de "molho
de tomate peneirado com ervilhas", produto que só tinha
um fornecedor. A concorrência foi suspensa pela
Justiça.
Segundo o economista Afonso Reis Duarte, futuro
secretário da Fazenda do prefeito eleito Welson Gasparini
(PSDB), o PT recebeu a prefeitura com R$ 44,8 milhões em
caixa, mas deve terminar 2004 com um déficit de R$ 50
milhões.
(FOLHA DE S. PAULO,
BRASIL, 18/12/2004, p. A-7)
PARA AS PROCURADORAS, DESFECHO É EXEMPLAR
DA REPORTAGEM LOCAL
"Foi
muito difícil trazer o juiz João Carlos da Rocha Mattos
para o banco de réus", diz a procuradora regional da
República Ana Lúcia Amaral. A decisão do TRF "é
importante, pois chama a atenção para a necessidade de
mudança de postura do Judiciário". Ela diz que
Rocha Mattos tem uma longa trajetória de irregularidades,
tendo faltado ao Judiciário e ao Ministério Público
maior vigilância. Rocha Mattos havia sido afastado e tinha
voltado ao cargo "por incapacidade de se promover a ação
penal contra o juiz".
A procuradora Luiza Cristina
Frischeisen destaca o fato de que, depois da Operação
Anaconda, "de oito varas federais, quatro juizes foram
afastados". A decisão do TRF é um indicativo, cria
um clima para que outros juízes evitem a troca de favores e
outras irregularidades, afirma ela.
A procuradora Janice Ascari,
promotora natural do caso Anaconda, diz que "esse processo teve
começo, meio e fim, porque cada instituição
cumpriu bem o seu papel: a Polícia Federal, o Ministério
Público e o Poder Judiciário.
Apesar de terem
opiniões diferentes sobre o balanço da Anaconda, as
três procuradoras são unânimes em criticar a
decisão do STF que permitiu extinguir a ação
penal por formação de quadrilha contra o juiz Ali
Mazloum.
"Fomos surpreendidos pela decisão num habeas
corpus impetrado há quatro meses, exatamente no dia do
julgamento. Foi falta de respeito com o Tribunal Regional Federal",
afirma Janice.
Ana Lúcia diz que "o STJ também
foi desrespeitado", pois a denúncia havia sido mantida
por unanimidade pelo tribunal superior. Para Luiza Frischeisen, a
decisão do TRF revela a renovação por que o
órgão vem passando, processo que começou com o
afastamento dos desembargadores Paulo Theotonio Costa e Roberto
Haddad. (FV)
(FOLHA DE S. PAULO,
BRASIL, 18/12/2004, p. A-7)
OUTRO LADO
PREFEITURA
DIZ QUE VAI RECORRER
FREE-LANCE PARA A FOLHA RIBEIRÃO
O ex-prefeito de Ribeirão Preto (SP) e atual ministro
da Fazenda, Antonio Palocci Filho, foi procurado por meio de seu
assessor, Marcelo Amorim Netto, mas não ligou de volta para o
jornal até a conclusão desta edição.
O
atual prefeito de Ribeirão Preto, o petista Gilberto Maggioni
-que concorreu à reeleição, mas ficou apenas em
terceiro lugar, com 25,74% dos votos-, também foi procurado,
mas a assessoria da prefeitura indicou a procuradora geral do
município à época das falhas, Vera Lúcia
Zanetti, para falar sobre o caso.
Zanetti, que é
procuradora de carreira da administração, afirmou que a
prefeitura, que ainda não tem uma cópia do relatório
do TCE (Tribunal de Contas do Estado), irá analisar o parecer
e apresentar novas justificativas: "Temos 30 dias". O
recurso será encaminhado ao próprio TCE, órgão
encarregado de fazer a fiscalização contábil,
financeira e orçamentária do Estado de São Paulo
e de seus municípios.
IPTU
Antes da decisão
do tribunal, a prefeitura havia afirmado que o elevado déficit
orçamentário se deveu ao alto índice de
inadimplência na cobrança do IPTU (Imposto Predial e
Territorial e Urbano), que atingiu 47% em razão de os carnês
terem sido emitidos pela segunda vez após polêmica sobre
os valores cobrados.
Se não houvesse esse "contratempo",
de acordo com a administração local, a inadimplência
teria ficado em torno de 30%, o que representaria R$ 14 milhões
a mais aos cofres públicos.
Sobre os investimentos
insuficientes no ensino fundamental -a administração
petista gastou 58,7% da verba da educação no setor,
contra uma determinação legal de 60%-, a prefeitura
afirmou que o percentual não foi alcançado porque foi
suprimida a despesa inscrita em restos a pagar no valor de R$ 6,9
milhões. Foram pagos, no entanto, R$6,2 milhões.
GASTOS
EXTRAS
A prefeitura justificou também que os valores gastos
com psicólogos e assistentes sociais para atendimento de
deficientes mentais e os investimentos no ensino médio também
deveriam ser considerados, já que, segundo a prefeitura, teria
havido omissão do governo do Estado no setor.
A respeito do
pagamento indevido de R$307,9 mil em honorários a advogados da
Procuradoria do Município, a resposta da prefeitura foi que os
procuradores são vinculados ao regime estatutário e os
valores oriundos das condenações judiciais repassados
aos advogados não se enquadram como despesas, mas como
receitas extra-orçamentárias.
Sobre o não-pagamento
de precatórios, a administração disse que isso
não ocorreu em sua totalidade em razão de erros da
Secretaria Municipal da Fazenda.
(FOLHA DE S. PAULO,
BRASIL, 18/12/2004, p. A-7)
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AS CONTAS DE PALOCCI E MAGGIONI EM 2002 |
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Fontes: Folha de S. Paulo, 18/12/2004, p. A-7; TCE-SP. |
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LEIA MAIS:
Segunda Câmara,05/10/04: Voto.Contas da Pref. de Ribeirão Preto.