O SUPERÁVIT DE SEU ANTONINHO



RIO DE JANEIRO


Seu Antoninho, que não era dali, tinha sua casinha de negócio na “Vila 13”, perto de São Borja, nos tempos em que João Goulart vivia por lá. Vendia tudo. De carne de charque a chapéu Ramenzoni. O freguês chegava:
-Seu Antoninho, o senhor tem capa de chuva?
-Não sei. Se tiver, é a última. Vou fazer um preço sem lucro, pelo custo. Mas na próxima é mais cara.
E vendia. Chegava outro freguês:
-Seu Antoninho, o senhor tem sela?
-Não sei. Se tiver, é a última do estoque antigo.
Seu Antoninho ia lá dentro, trazia a sela:
-Era mesmo a última. E porque é a última, vendo pelo preço de custo, sem lucro. Mas a próxima será mais cara.
E vendia.


JANGO
Jango passou por lá para comprar um chapéu, ficou esperando e vendo seu Antoninho vender sempre o último produto de cada mercadoria. Na ponta do balcão, tomando suas cachaças, um velhinho, que ouvia todo dia aquela história, perdeu a paciência:
-Seu Antoninho, o senhor não tem lucro nenhum nesses artigos?
-Nenhum. É pelo preço de custo.
-O senhor nunca está ganhando nada?
-Nada. Nadinha.
-Quer dizer, seu Antoninho, que o senhor veio de tão longe só para ser bonzinho com nós? O senhor é um santo, seu Antoninho. Ou um mentiroso.
E nunca mais o velhinho bebeu sua cachaça no balcão de seu Antoninho.


SUPERÁVIT PRIMÁRIO
Nos governos, em todos eles, há sempre um punhado de Seu Antoninho enganando o povo. E, como na “Vila 13”, perto de São Borja, no Brasil, quando não são daqui mesmo, os Seu Antoninho vêm de fora.
Uma das mais sórdidas mentiras, porque criminosa e apresentadas como se fosse a salvação do País, é o tal “superávit primário”, um assalto às verbas aprovadas no Orçamento para obras públicas e destinações sociais e que são destinadas para dar ainda mais dinheiro aos banqueiros, além dos quase 50% do Orçamento vinculados e destinados às dívidas interna e externa. Como é aplicado no Brasil e na América Latina, não existe no resto do mundo. Na Europá, na Ásia, os países não dão bola, não tomam conhecimento dele. Aqui, virou símbolo das calças arriadas: quanto maior o “superávit primário”, mais os banqueiros aplaudem os governos e seus macacos.


ROQUE CITADINI
O Conselheiro e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, Roque Citadini, estudioso de finanças públicas, diz que é “uma fraude”:


1-O conceito de “superávit primário” é uma fraude contábil inventada e imposta pelo FMI (Fundo Mionetário Internacional) aos países da América Latina. A idéia básica da contabilidade é ser uma radiografia verdadeira da situação financeira. O “superávit primário” é uma radiografia falsa.

2-É como se o médico fizesse uma radiografia de um doente e depois lhe dissesse: “Você está ótimo, sua saúde está perfeita, excetuando um câncer incurável que você tem no fígado. Fora ele, está tudo muito bem”.

3-As dívidas, a interna e a externa, são o câncer que está inviabilizando e matando a economia nacional. Como crescem mês a mês (só a interna já chegou a R$1,2 trilhão, apesar dos juros pornográficos que o País paga), o FMI e o governo tiraram as dívidas da radiografia nacional e dizem que está tudo bem, porque o “superávit primário” garante o dinheiro dos juros.

E o paciente morrendo dia a dia, com o País trabalhando só para os juros
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SEBASTIÃO NERY




(DCI, POLÍTICA, 16, 17 e 18/10/2004, p. A-10)