VERBA
DESVIADA: SÓ 5% VOLTA AOS COFRES PÚBLICOS
Estudo
mostra que problemas estruturais emperram trabalho nos Tribunais de
Contas
FAUSTO
MACEDO
Falta
de planejamento e controle gerencial, morosidade, elevado acúmulo
de processos, recursos limitados para investimentos e baixa eficácia
das decisões. Estes são alguns dos problemas que marcam
a atuação dos 34 Tribunais de Contas Estaduais e
Municipais.
Apenas
4,81% do montante devido por administradores públicos pilhados
em contratações e atos irregulares é
efetivamente recolhido aos cofres públicos. O detalhe é
que as cortes de contas não têm legitimidade jurídica
para executar as cobranças relativas a sanções
pecuniárias destinadas a recompor o Tesouro.
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Em
2001, dos R$586,9 milhões que 21 tribunais determinaram que
fossem recolhidos aos cofres públicos, efetivamente foram
devolvidos R$28,2 milhões. No mesmo período, foram
examinados contratos de compras e serviços que somaram
gastos de R$284,5 bilhões.
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Os
tribunais de municípios e Estados têm missão de
fiscalizar a aplicação dos recursos públicos
de todas as unidades orçamentárias e auditar
contratos firmados por vereadores, prefeitos, secretários,
presidentes de autarquias, fundações, empresas
públicas e governadores.
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O
papel das cortes de contas nos 26 Estados, no Distrito Federal e em
5.568 municípios ganhou maior importância,
notadamente, a partir da implementação da Lei de
Responsabilidade Fiscal, em maio de 2000, e de emendas
constitucionais que canalizam verbas para o ensino e a saúde.
A Lei Fiscal exige do agente político orçamentos
enxutos, contenção de gastos e zelo extraordinário
com as chaves do cofre. Quem sai da linha pode perder o cargo e
sofrer processo criminal.
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O
levantamento sobre os tribunais foi realizado pela Fundação
Instituto de Administração (FIA), instituição
conveniada à Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), e
abriu caminho para o Programa de Modernização do
Sistema de Controle Externo dos Estados e Municípios
(Promoex), sob coordenação do Ministério do
Planejamento, Orçamento e Gestão.
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São
950 páginas que apontam necessidades, deficiências,
limitações e falhas que muitas vezes emperram
auditorias em quase todo o País. O controle simultâneo
da execução das despesas da máquina pública
é "praticamente inexistente", atesta o documento.
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O
raio X foi divulgado há duas semanas em São Paulo,
durante reunião no Tribunal de Contas do Estado, onde
conselheiros e auditores debateram plano de reequipamento e
financiamento para modernização das cortes. O
secretário-executivo do Ministério do Planejamento,
Nélson Machado, expôs detalhes do projeto.
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A
pesquisa da FIA/USP foi realizada com a participação
de um grupo executivo constituído por sete representantes
dos Tribunais de Contas, além de dois técnicos do
Ministério do Planejamento e do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
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PERSONALIDADE
- Três pontos ganham destaque no documento. O primeiro é
que a verba disponível para investimentos é
"extremamente baixa", ou 1,8% do orçamento total
dos tribunais em 2001. O segundo é que a despesa total das
cortes, no mesmo período, representou apenas 0,35% de todo o
montante que esses órgãos auditaram - essa proporção
é ainda menor, porque a pesquisa não computou
auditorias em fundações e autarquias.
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O
terceiro ponto é a ausência de personalidade jurídica
dos Tribunais de Contas. Isso quer dizer que as cortes não
têm legitimidade para executar as cobranças relativas
a sanções pecuniárias destinadas a recompor o
Tesouro.
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Ou
seja: amparados na ineficácia das decisões dos
tribunais, a maioria dos governantes e ordenadores de despesas
livra-se da obrigação de devolver recursos
desembolsados irregularmente.
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Nessa
linha, 95,19% do valor investido irregularmente por administradores
públicos não voltou ao erário. "Esse é
o nosso calcanhar-de-aquiles", admite o presidente da
Associação dos Tribunais de Contas, Carlos Pinna de
Assis, conselheiro do TCE de Sergipe. "É muito baixo o
índice de recuperação por causa da falta de
legitimidade jurídica dos tribunais."
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A
maioria dos administradores multados recorre à Justiça.
A disputa cai na armadilha dos recursos e nunca chega ao seu fim.
Assis espera que o Supremo Tribunal Federal (STF) decida,
brevemente, pelo reconhecimento da competência dos Tribunais
de Contas para executar dívidas. Para ele, "os maus
administradores se valem desse sistema e acabam sendo premiados
freqüentemente".
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"Quem
deve cobrar é o órgão da Procuradoria da
Fazenda", alerta o conselheiro do TCE de São Paulo
Antonio Roque Citadini. "Nós não cobramos, quem
cobra multa é a procuradoria, nos municípios ou no
Estado." Para Citadini, "essa questão reforça
a necessidade de adoção de mecanismos que dêem
eficácia à cobrança".
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O
presidente do Instituto Ruy Barbosa - órgão de apoio
aos tribunais - e conselheiro do TCE do Rio, Sérgio
Quintela, reforça Citadini. "Muitas vezes, cria-se uma
situação de conflito porque o tribunal aplica a multa
ou cita servidores do Executivo, mas quem deve executar a ordem de
cobrança para ressarcimento são as procuradorias."
Quintela observou que o mecanismo legal existente (para cobrança)
"não está dentro dos tribunais".
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Para
superar esse obstáculo, no Rio o Tribunal de Contas montou
uma procuradoria própria - criada por lei estadual, que
confere ao TCE legitimidade para execução das
dívidas. Quintela considera que o papel preventivo dos
tribunais, por meio de fiscalizações, verificação
de obras e exames prévios de editais, "é muito
mais importante e eficaz que a punição".
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Sobre
o levantamento da FIA/USP, que revela falhas na atuação
dos tribunais, Quintela destacou que muitas cortes "já
estão bastante avançadas" em termos de
mecanismos de descentralização e inspeções
de execução contratual.
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ARTESANAL
- O diagnóstico mostra que, "apesar dos grandes avanços
verificados nas tecnologias da informação, a
informática tem papel coadjuvante nos procedimentos- chave
dos Tribunais de Contas". Segundo o documento, "a
essência do trabalho de auditoria e julgamento ocorre por
meio de processos físicos, em papel".
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O
relatório enfatiza que "como os procedimentos tiraram
pouco proveito do potencial da informática, verifica-se a
fragmentação do trabalho, a morosidade, a criação
de estoques físicos de processos em salas, a necessidade de
um grande número de operações manuais e de
funções de apoio".
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E
revela: "Em resumo, procedimentos tipicamente manuais, com
trâmite burocrático, consumidor de recursos em
atividades-meio, lento, ineficaz, custoso e arriscado."
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"Trabalhar
com documentos em papel traz para um processo riscos de diversas
naturezas: desaparecimento, perda, dano, adulteração,
subtração de partes, quebra de sigilo", adverte
o estudo, que identificou ainda baixa colocação da
frota de veículos nas atividades de auditoria e
fiscalização. Cerca de 70% do sistema de computação
dos tribunais está defasado tecnologicamente.
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Menos
de um terço das cortes participa junto ao Poder Legislativo
da discussão da proposta orçamentária, do
Plano Plurianual e da Lei de Diretrizes Orçamentárias.
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"Observa-se
trabalho excessivamente manual e artesanal, pautando-se
essencialmente pela análise e produção de
documentos em papel, produzindo estoques de processos, morosidade e
ineficácia", diz o documento. "A descontinuidade
administrativa é problema."
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ENTRAVES
NA ATUAÇÃO DOS TRABALHADORES DE CONTAS
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Modernização
de sistema terá verba do BID
Só
para os tribunais, investimento será de US$ 121,4 milhões
nos próximos seis anos
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Dispostos
a dinamizar e uniformizar a atuação dos Tribunais de
Contas, conselheiros e auditores de todo o País depositam
esperança no Programa de Modernização do
Sistema de Controle Externo dos Estados e Municípios
(Promoex). O projeto inclui investimento nos tribunais de US$ 121,4
milhões, nos próximos seis anos. Parte dessa verba
(60%) deve ser financiada pelo Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID).
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Do
total aplicado na modernização, 31% serão
canalizados para fiscalização, 17,5% para
"transparência das atividades" das cortes de
contas, 15,5% para planejamento e controle gerencial, 13,7% para
política e gestão de recursos humanos e 22,25% para
gestão de tecnologia de informação. "O
controle externo no Brasil é um dos mais baratos do mundo",
afirma o conselheiro Carlos Pinna de Assis, presidente da
Associação dos Tribunais de Contas.
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"É
muito comum o BID financiar saneamento e projetos habitacionais",
anotou Marco Antônio Scovino, técnico do Tribunal de
Contas do Município do Rio que acompanhou o rastreamento
realizado pela FIA-USP. "Pela primeira vez, o banco vai
financiar o controle externo de um país."
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ENERGIA
- Scovino considera que "os Tribunais de Contas são
muito mal falados, mas muito pouco conhecidos". Ele prega bom
senso nos trabalhos de fiscalização. "Não
adianta multar prefeito que não publicou o relatório
de gestão fiscal porque em sua cidade sequer tem iluminação
pública", observa. Recentemente, lembra Scovino,
durante reunião no Pará, um prefeito do interior
pediu a palavra. "Eu preciso de computador, mas também
de energia, porque na minha cidade não tem luz."
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A
necessidade de um diagnóstico dos Tribunais de Contas foi
levantada no início de 2002 pelo conselheiro Antônio
Roque Citadini, do TCE de São Paulo.
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Na
época, ele também presidia o Instituto Ruy Barbosa. O
mapeamento dos tribunais mostra que "a falta de procedimentos
e práticas consolidadas, que criam diferentes interpretações
sobre os atos julgados, abrem espaço para contestações
judiciais e, conseqüentemente, para a protelação
da aplicação das decisões".
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SAÍDAS
- O trabalho da FIA-USP mostra que os tribunais apresentaram
"processos incipientes de planejamento". Treinamentos
atendem a necessidades imediatas, não há plano
estratégico de capacitação.
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"A
maioria dos tribunais compromete seus recursos quase que
exclusivamente com custeio, notadamente de pessoal, restando
porcentual residual para investimentos", informa o texto. "É
notável a carência de mecanismos de avaliação
de desempenho e acompanhamento do resultado de ações
e investimentos."
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Enquanto
o projeto de modernização não vira realidade,
o presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo,
conselheiro Fulvio Julião Biazzi, procura saídas para
as dificuldades enfrentadas pelas equipes de auditoria.
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Por
meio de ato publicado no Diário Oficial, Biazzi ampliou a
competência dos Departamentos de Supervisão da
Fiscalização e uniformizou os procedimentos.
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(F.M.)
(O
ESTADO DE S. PAULO, POLÍTICA, 20/7/2003)