INVESTIGAÇÃO
AUDITORIA
APONTA ALTO CUSTO DO PROGRAMA MUTIRÃO
Preço da unidade habitacional chega a ser 73,35% maior do que o de obras particulares.
FAUSTO
MACEDO
Auditoria
do Tribunal de Contas do Estado revela que o preço médio
da unidade habitacional construída pelo Programa Mutirão
em empreendimento na zona oeste da cidade teve um custo 73,35%
superior ao verificado no Programa Empreitada Global. O mutirão
e a empreitada são programas desenvolvidos pela mesma empresa
pública, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano
(CDHU).
Vinculada
à Secretaria da Habitação, a CDHU é
responsável pelo maior volume de contratos sob suspeita da
administração Mário Covas (PSDB) e pode servir
de munição para os candidatos de oposição
à Prefeitura de São Paulo. O assessor especial de Covas
e ex-presidente da companhia, Goro Hama, é réu em ações
judiciais sob acusação de improbidade e enriquecimento
ilícito. Os bens móveis e imóveis de Goro estão
bloqueados por ordem da Justiça.
Os
resultados da auditoria do TCE fazem parte de documento produzido
pelo conselheiro Antônio Roque Citadini, relator do contrato
firmado pela CDHU com a União Comunitária de
Assistência ao Povo da Favela Cabuçu. O negócio,
batizado de Empreendimento Jaraguá A 7, foi assinado em junho
de 1996 no valor de R$ 847,9 mil para construção de 80
apartamentos.
Os
auditores destacaram que, para os serviços de fundação
e estrutura, foram investidos R$ 488 mil - pagos a uma única
empreiteira. Para os serviços de contabilidade, alvenaria,
hidráulica e outros foram gastos R$ 140,4 mil por meio da
contratação de várias empresas. Segundo
Citadini, a realização da obra e dos serviços
contratados pela associação, sem licitação,
"elevou o seu custo, vez que a escolha das empresas não
obedece a qualquer critério seletivo".
O
TCE verificou a assinatura de aditamentos contratuais que provocaram
aumento do valor inicial acertado. O mutirão é um
projeto tocado por associações de bairros que recebem
recursos da CDHU para erguer os conjuntos. Os técnicos
compararam os gastos com a construção de unidades
habitacionais do Jaraguá A 7 com o valor desembolsado em
empreendimento de características similares do Programa
Empreitada Global - executado diretamente por empreiteiras. "Em
conseqüência, os custos do mutirão em destaque
mostram-se elevados, superando até mesmo os custos das
unidades habitacionais do Empreitada Global, cujas obras são
realizadas por empreiteiras que não deixam de apropriar
lucros", assinala Citadini.
No
contrato analisado, o valor da unidade foi de R$ 14,52 mil, sem a
parcela referente ao terreno - que representou um custo de R$ 9, 76
mil. O valor médio da unidade do Empreitada Global ficou em R$
14.013,00. Os órgãos de instrução do TCE,
em conjunto com as Unidades Jurídica e de Engenharia, fizeram
inspeção na obra e constataram "a
descaracterização do espírito principal da
contratação".
Foram
apontadas 11 irregularidades no contrato do mutirão - como
restrição da participação dos mutirantes,
custo elevado dos terrenos e das obras, má qualidade na
execução dos conjuntos, falta de controle nas
prestações de contas, ausência de justificativa
dos critérios utilizados na escolha da associação
e favorecimento a empresas por meio de burla ao processo de
concorrência.
O
contrato começou a ser julgado terça-feira pela 2ª
Câmara do TCE. Em seu voto, Citadini considerou irregulares o
contrato, a inexigibilidade de licitação e os termos
aditivos. "Recomendo que a CDHU estabeleça com clareza os
critérios que permitam o acesso de forma democrática às
associações interessadas em celebrar contratos do
mutirão", despachou.
Citadini
ressalta "a indispensável participação do
mutirante na obra".
Segundo
ele, neste caso "prevaleceram os serviços contratados de
empresas enquanto o trabalho do mutirante interessado ficou reduzido
a parte insignificante". O conselheiro anotou que "a casa
própria a preço módico, finalidade precípua
do mutirão, ficou distante na presente contratação".
O
relator destacou, ainda, que as duas câmaras de contas já
concluíram pela irregularidade de outros 18 contratos do
mutirão, nas sessões realizadas em 21 de setembro de
1999 e 29 de fevereiro. Tais decisões foram confirmadas em
grau de recurso pelo Tribunal Pleno do TCE, em 26 de abril.
LEIA
MAIS:
-
Diário
Popular,23/8/2000: TCE considera irregular mais um contrato de
mutirão da CDHU.
-
Agora,
23/8/2000: Mutirão de Covas é muito caro, diz TCE.
-
Segunda
Câmara, 22/8/2000: Julgado irregular contrato da CDHU - mutirão
União Com. Assist. Povo da Favela Cabuçu
.
-
Segunda Câmara, 25/7/2000: Julgado irregular contrato da CDHU -
mutirão Ass. Trab. Sem Terra Zona Norte.
-
Segunda Câmara,11/7/2000: Julgado irregular mutirão CDHU
- Conj. Res. Vila Verde
-
Segunda
Câmara,11/7/2000: Julgado irregular mutirão CDHU x
Assoc. de Mulheres C.Jesus.
-
Diário
Popular,11/7/2000: Promotores vão investigar gastos de Covas
com a CDHU.
-
Diário Popular,9/7/2000: CDHU: Mutirão faz casas
mais caras que obra de empreiteiras.
-
Diário
Popular,9/7/2000: Mutirão: CDHU destaca participação
popular.
-
Diário
Popular,9/7/2000: CDHU: Tucanos barraram abertura de CPI.
-
Diário
Popular,13/4/2000: TCE aponta irregularidades em 96 mutirões
da CDHU.
-
Despacho,
11/3/2000. Irregularidades. Contrato CDHU x Assoc. Mutirantes/Sem
Terra.
-
O
Estado de S.Paulo,25/2/2000: Julgado do TCE leva MP a entrar com
ação.
- O
Estado de S. Paulo, 14/1/2000: CDHU - Alterações em
contratos serão investigadas.
-
Folha
de S. Paulo, 11/1/2000: Irregularidades geram saída do
presidente da CDHU.
-
Agora
S. Paulo, 11/1/2000: Contratos julgados irregulares pelo TCE forçam
mudanças na CDHU.
-
Despacho de Citadini. 13/5/1999. Irregularidades: CDHU x Associação
de Defesa dos Direitos da Cidadania Adão Manoel da
Silva.
-
Despacho
de Citadini. 16/10/1997. Irregularidades: CDHU x Sociedade União
de Amigos de Itaberaba e Adjacências.