VERSÃO DE DIRETOR É INCRÍVEL


da Reportagem Local


Personagem principal da trama que levou ao desaparecimento de US$ 242 milhões do banco Noroeste, Nelson Sakagushi, de 51 anos, tem um perfil surpreendente.

Sakagushi trabalhou durante 14 anos no Noroeste, é casado, pai de tr?s filhos, tem uma casa em Cotia (SP), um s?tio e dois carros. Parece levar uma vida pacata e assume uma postura autoritária no trabalho.

Reunido diante de 20 representantes do Noroeste, advogados e investigadores no final do ano passado, Sakagushi contou uma história incrível.

O ex-diretor da área internacional do Noroeste disse que o dinheiro desviado do banco foi usado para financiar a construção de um aeroporto na Nigéria - negócio negado pela embaixada nigeriana- e disse que uma parte do dinheiro foi para "oferendas" em um terreiro de umbanda.

De acordo com pessoas ligadas à investigação, Sakagushi vinha frequentando as sessões espirituais e chegou a levar alguns subordinados com ele.

Desde que o desfalque veio à tona, Sakagushi procurou se aconselhar com antigos colegas do BCN, banco onde trabalhou durante muito tempo antes de entrar para o Noroeste.

Sua linha de defesa é o ataque. Sakagushi entrou com uma ação trabalhista contra o Noroeste, questionando sua demissão, e alega que o banco sabe onde buscar o dinheiro.

Esse é mais um processo no emaranhado de acusações e suspeitas que envolvem a fraude no caso Noroeste. O caso é tão surpreendente que já surgiu todo tipo de suspeita e troca de acusações.

Os antigos donos do Noroeste contrataram auditores para checar o trabalho feito pela Price Waterhouse. Também contrataram a Kroll, empresa norte-americana que investiga crimes do colarinho branco e trabalha em casos rumorosos como o rastreamento do dinheiro de PC Farias.

O Santander também promoveu auditorias internas para entender o que aconteceu no Noroeste. Outra auditoria corre no Banco Central e a polícia civil de São Paulo investiga "todos, doa a quem doer", nas palavras de Tuma Júnior.

Para explicar o que ocorreu já se levantaram suspeitas sobre seitas religiosas, máfia japonesa, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e um esquema de corrupção conhecido como "nigeriano".

Até o investidor Naji Nahas foi motivo de debate, por ter participação acionária no Noroeste. Assim como em relação a Nahas, a grande maioria das teses se limitou a especulações, aparentemente sem o menor fundamento.

De concreto, o que os investigadores sabem é que parte do dinheiro foi parar em bancos nigerianos, mas essas aplicações têm sido consideradas "cortinas de fumaça", para desviar a atenção das investigações.

"Os métodos de condução dos recursos são de lavagem do dinheiro. Mas não temos nenhuma indicação de que haja lavagem ou alguma suspeita de tráfico de drogas", diz Tuma Júnior.

(RG)


(PUBLICADO NO JORNAL "FOLHA DE S. PAULO", DINHEIRO, EM 19/7/1998, P.2-10)


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