O CIPOAL DAS AVALIAÇÕES
LUÍS NASSIF
A falta de controle e
de critério das avaliações está começando a se transformar em uma epidemia no
país. A quantidade de avaliações polêmicas, sem critério, ou claramente
incorretas coloca em risco não apenas a reputação das empresas de auditoria e
de avaliação como a própria solidez do mercado de capitais brasileiro e o
próprio processo de privatização.
No início do processo de privatização, ainda no governo Collor, empresas de
consultoria foram contratadas a peso de ouro para efetuar os cálculos. O método
básico de avaliação consiste em estimar o fluxo de resultados da companhia e
trazê-lo a valor presente de acordo com determinada taxa de desconto.
Calcula-se quanto deve ser a rentabilidade esperada do investimento (em áreas
de maior volatilidade a rentabilidade esperada é maior e em áreas mais estáveis
é menor). Depois estima-se quanto a empresa pode render no período. Em seguida
calcula-se o valor presente que proporcione a rentabilidade esperada.
No primeiro período de privatização, as consultorias utilizavam um conceito
obtuso de risco internacional Brasil (que media a capacidade de o país honrar
seus compromissos externos), mesmo para privatizações de empresas que operavam
apenas no mercado interno e que seriam adquiridas por empresários brasileiros.
Posteriormente reviu-se essa metodologia, mas os erros continuaram de maneira
reiterada. Quando se trata de novos setores da economia, aceita-se. Ninguém tem
condições claras de avaliar o valor de uma companhia em uma atividade nova, sem
histórico. Mas em atividades tradicionais existem metodologias internacionais
consagradas. Ainda mais agora que o real se estabilizou e nem se tem que
considerar o fator inflacionário nas projeções.
No entanto coube ao Tribunal de Contas da União e seus auditores -funcionários
públicos, com seus salários contidos há quatro anos, ganhando dezenas de vezes
menos que os yuppies de mercado- identificar erros primários de avaliação do
Banespa, alguns cometidos por companhias de reputação internacional, que
ganharam alguns milhões de dólares unicamente para avaliar corretamente o preço
mínimo do banco.
Como fica a CVM nesse caso Banespa, e não apenas nele? Como é possível uma
avaliação apontar patrimônio líquido positivo em uma companhia aérea, incluindo
ativos bolivianos por determinado valor e, em seguida, a companhia boliviana
ser vendida por valores quase simbólicos? Como é possível essa mesma companhia
aérea ter de devolver aviões por falta de pagamento, não pagar seus tributos e
registrar balanço com lucro? Recentemente, uma auditoria revelou que a AmBev
teria uma economia determinada com a fusão entre Antarctica e Brahma. Menos de
seis meses depois, as estimativas de ganho se reduzem à metade. E quem adquiriu
ações com base nessas avaliações?
Se a CVM não atuar com rigor, auditorias e avaliações serão produzidas de
acordo com a vontade do contratante. Uma das peças fundamentais de qualquer
mercado moderno é a criação de padrões de avaliação confiáveis, que permitam ao
investidor tomar suas decisões em cima de análises corretas.
Há um enorme alarido em torno de mudanças necessárias na Lei das Sociedades
Anônimas, em ampliar o direito dos minoritários. Mas como ficam as avaliações
incorretas, como ficam as auditorias que não conseguiram detectar rombos
gigantescos em bancos?
(PUBLICADO NO JORNAL "FOLHA DE S. PAULO", EM
6/10/2000, "DINHEIRO", P.B-3)