Subject:
Tribunal de Contas
Date:
Sun, 15 Oct 2000 10:25:01 -0300
From:
Antonio Roque Citadini <arcit@uol.com.br>
To:
sucaldas@estado.com.br
Prezada
jornalista Suely Caldas,
Cumprimento-a
pelo artigo de hoje (15.10.2000) no Estado ("Para não
repetir o caso Lalau"), mas desejo prestar-lhe alguns
esclarecimentos.
O
artigo, no todo crítico aos Tribunais de Contas, acerta em
alguns pontos mas erra em outros, especialmente quando cita algumas
opiniões de "especialistas" como o ex-ministro
Mailson da Nóbrega.
Discordo
da sua opinião sobre a reunião dos Tribunais de Contas,
na última semana no Rio de Janeiro, no BNDES,com o Ministro
Martus Tavares. Diz seu artigo que os conselheiros "com extremas
desfaçatez e clareza... resistem às mudanças"
já que, como afirma, "temem perder privilégios e
defendem seus interesses".
Nada
disso ocorreu. O ministro falou do projeto em discussão no
governo, que introduz várias mudanças na ficalização
do controle interno e externo e indagou das opiniões dos
membros dos Tribunais de Contas. Que deveríamos fazer?
Concordar, simplesmente? Aplaudir? Silenciar?
Ora,
esta não deve ser nossa postura como membros envolvidos
diariamente na atividade de controle dos atos da
administração.
Dissémos
o que pensávamos, sem rodeios - em público - com o sr.
ministro presente - com os jornalistas tudo ouvindo.
Reconhecemos
a importância de se promover reformas na fiscalização
externa. Há longos anos, reiteradaniente, propomos mudanças.-
Aplaudimos a disposição do governo de promover a
modernização das instituições de
controle.
Ao
nos manifestarmos com clareza, sem rodeios, estamos ajudando na
reestruturação do sistema. Em alguns pontos concordamos
com o governo, noutros divergimos.
Vejamos
os pontos de destaque da reforma:
1-
Fim da vitaliciedade dos ministros e conselheiros e instituição
do sistema de mandato (por 6 anos). Sem nada de corporativo, até
porque os atuais ministros e conselheiros não serão
atingidos por esta medida, discordamos do governo.
A
nomeação de julgadores para um mandato de 6 anos
enfraquece a instituição,desprotege e deixa-o submetido
ao executivo. Em tão curto tempo é difícil de
conhecer os mecanismo de controle e os sistema da
administração.Vulnerável, pois após o
mandato deverá retornar a sua situção anterior
(funcionário público, professor, empresário) o
que poderemos exigir dos jugadores com mandato? Heroísmo! Como
deverá o julgador comportar-se nos diários confrontos
com o Executivo!
Há
paises onde não existe o instituto da vitaliciedade. Mas são
países onde nunca ocorreu uma retaliação de
membro do executivo contra qualquer juiz ou conselheiro. Nos poucos
países onde existe alguma forma de mandato ele é longo
e o membro recebe um tratamentoapós o mandato, igual ao
período em que o exercia (salários etc).
As
críticas das nomeações de conselheiros e
ministros são procedentes. Como alterá-las? Certamente
o puro fim da vitaliciedade não resolve. Até porque
poderão ser nomeados conselheiros para os mandatos com os
mesmo defeitos e virtudes que os atuais.Existem várias
proposta mais interessantes. Parcela dos nomeados seriam de listas
indicadas pelo Judiciário (com juízes de carreira),
OAB, Ministério Público, Conselhos de Contabilidade
etc.
Estes
problemas de provimento de conselheiros ocorrem também na área
do Judiciário. Veja-se que os últimos ministros do STF
são todos ex-ministros da Justiça: Nelson Jobim e
Maurício Correia.
Qualquer
alteração na fórmula de provimento das vagas de
ministros e conselheiros dos TCs deve ser acompanhada de mudanças
na área do Judiciário. Ex-ministros e ex-secretários
impedidos de nomeação para os TCs também o
seriam para os cargos dos Tribunais judiciários.
Quanto
ao fim da vitalicidade é um erro do governo. Não
melhorará o sistema e criará problemas maiores.
2-
Embora seu artigo não faça referência, uma das
boas medidas do governo é estabelecer prazos mais
rígidos para fiscalização e
julgamento das contas públicas. Nós também
defendemos estas medidas. Em geral, o governo cria uma série
de amarras, prazos,notificações que atrasam as decisões
. A proposta do governo deve ser aprofudanda e auditorias e
julgamentos deverão ser mais rápidos ainda.
3-
A proposta do ex-ministro Mailson da Nóbrega de contratação
de auditorias privadas demonstra o pouco conhecimento do setor de
auditoria,ou então,muito conhecimento.
Ora,
a qualidade das auditorias privadas no Brasil não deixa margem
a dúvidas:é horrível.
Veja-se
os últimos problemas causados pelas tão famosas e tão
bem remuneradas auditorias no caso BANESPA: a Boz Allen, contratada a
peso de ouro, errou na avaliação do Banco numa conta
vulgar,primária, quase de aluno de supletivo. Erro de 1 bilhão
contra o interesse público.
No
caso do Banco Nacional, por quase 10 anos, tivemos contas frias de
mais de 5 bilhões de doláres, sem que a auditoria
tivesse notado qualquer anomalia; no caso do Banco Noroeste,quando da
sua venda ao Santader apreceu um rombo de 240 milhões, sem
qualquer anotação por parte da empresa que auditava o
banco. Pasmem, ainda. No caso do Noroeste um buraco de 18 milhões
de doláres de um investimento feito pelo Banco a um pai-de
santo. Acho que nenhum prefeito produziu história mais
ridículo que esta: investir quase 20 milhões em um
centro de macumba. E a Auditoria nada apontou. Banco Econômico...
Bamerindus... e vai por aí...
A
proposta do ex-ministro não tem qualquer sustentação.
Nenhum país adota tal sistema. Também não
devemos ser tão radicais com o que propõe o
ex-ministro. Com o que ele já fez (é o ministro
recordista em inflação per capita do século) com
o que já falou (lembra da defesa do populismo cambial do
Gustavo Franco) esta nova proposta encaixa-se bem no perfil de
Mailson da Nóbrega.
Os
Tribunais de Contas vem fazendo grande esforço na fiscalização
da Adminstração especialmente agora com a chegada da
Lei de Responsabilidade Fiscal. No encontro citado pela matéria,
realizado no BNDES, no Rio de Janeiro, discutiu-se como cada Tribunal
estava implementado a nova lei-Busca -se unificar a s formas de
procedimento da lei de Responsabiliade fiscal. Defendemos a lei bem
como sua aplicação rigorosa em todo país.
Com
os esclarecimentos que presto, aqui coloco-me para qualquer futura
informação sobre a matéria.
Obrigado.
Antonio
Roque Citadini
Conselheiro
do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo
Presidente
do Instituto Ruy Barbosa.
email:
arcit@uol.com.br
URL:
http://www.citadini.com.br
LEIA
MAIS:
-
O Estado de S.Paulo,15/10/2000: A nova função dos
tribunais de contas.
-
Encontro dos Tribunais de Contas, 10 e 11/10/2000: Lei de
Responsabilidade Fiscal . Abertura pelo Min. Martus Tavares.
-
Artigo
Revista Licitar, JUL/2000: O TCE e a Lei de Responsabilidade
Fiscal.