TCE QUER FISCALIZAR FUNDO DE DESPESA SUSPEITO DE DESVIO


Verba dirigida a órgãos públicos foi usada na compra de carros para uso de desembargadores


SILVIO BRESSAN


O Tribunal de Contas do Estado (TCE) está estudando uma forma de fiscalizar a aplicação dos recursos dos Fundos Especiais de Despesa, criados para financiar gastos de órgãos públicos fora do orçamento. Conforme reportagem publicada no domingo pelo Estado, o Tribunal de Justiça (TJ) usou R$ 3,5 milhões na compra de carros para uso exclusivo dos 132 desembargadores do tribunal.
O presidente do TJ, Dirceu de Mello, que aposentou-se ontem por completar 70 anos, disse que a compra foi respaldada pela
"modernização administrativa" prevista na lei que criou o fundo. Alguns juristas, porém, consideram inaceitável enquadrar a compra desses veículos como modernização do tribunal. Para eles, essa despesa teria deve ser feita com recursos orçamentários, e não com a verba de um fundo, que tem sempre finalidades específicas.
A compra também foi criticada no TCE. Um dos conselheiros, que não quis se identificar, considerou descabida a justificativa do presidente do TJ.
"O dinheiro do fundo não pode servir para despesas corriqueiras, como a troca da frota, que devem ser feitas com os recursos orçamentários", anotou o conselheiro. Exatamente por ficarem fora do orçamento, esses fundos não são fiscalizados pelo TCE. "Não sei o que pode ser feito nesse caso, mas temos de estudar algo, porque esses fundos viraram um orçamento paralelo sem nenhum controle."
Essa proposta, aliás, foi apresentada há três meses pelo conselheiro Roque Citadini. Ele não quis discutir o caso do TJ, mas confirmou que sua sugestão está sendo estudada pela presidência do TCE.
"Está na hora de o tribunal fixar normas de auditoria para fiscalizar os fundos", afirmou Citadini. Além do TJ, existem vários fundos especiais, como os do Ministério Público, das universidades e da Assembléia Legislativa. São fundos milionários, que ficam livres das amarras do orçamento e permitem a esses órgãos gastar sem qualquer fiscalização.
"As universidades, por exemplo, resistiram muito à centralização do controle de todas as despesas do Estado", observa um conselheiro do TCE. Com essa centralização, na Secretaria da Fazenda, é possível saber de todas as compras feitas pelos órgãos do Estado, inclusive aquelas financiadas pelos fundos. Difícil continua sendo punir esse tipo de despesa, quando feita de forma irregular.


(PUBLICADO NO JORNAL "O ESTADO DE S. PAULO", EM 03/08/1999, P.8)




Leia o ofício com a proposta de Citadini.




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