LUÍS NASSIF

As concessões rodoviárias


O modelo de concessão de estradas vai ter que ser revisto. Há um erro básico de concepção que aparece, só agora, no valor extraordinariamente elevado dos pedágios. Não se trata de acabar com o modelo, mas de reavaliar com serenidade e ter coragem de proceder às correções que se fazem necessárias.
Entregar a manutenção de estradas a particulares, mediante licitação, é boa prática. Em vez da estrutura onerosa dos departamentos de estrada e rodagem, da descontinuidade e ingerências políticas, tem-se apenas um contrato a ser fiscalizado.

Ocorre que o governo federal e muitos estaduais viram nas concessões a oportunidade de obter receitas fiscais adicionais. O pedágio comporta a manutenção das estradas. Em cima disso, incluíram obras de melhoria, ampliação e até a construção de novos trechos. Não satisfeitos, viram a oportunidade de obter lucro com a estrada construída. Assim, as licitações passaram a exigir lances em dinheiro. Ou seja, receberam dinheiro extra para investimentos e desobrigaram-se de investimentos futuros na construção de novas estradas.

Até então, estradas eram construídas com recursos orçamentários, decorrentes da arrecadação de impostos. Numa ponta, aumentou-se o pedágio, mas na outra não se reduziram os impostos. O resultado foi um aumento de tributos. Até hoje não foi feita a conta, mas creio que em São Paulo, se somar o valor dos lances mais o que o governo gastava com manutenção de estradas e investimentos dos quais se viu desobrigado pelas concessões, é possível que corresponda a quase 2 pontos percentuais do ICMS.
Não adianta paliativos, como o anúncio de que o governo de São Paulo vai "subsidiar" os caminhoneiros, reduzindo as tarifas de pedágio para eles. Os contratos de concessão foram feitos em cima de direitos e obrigações. Reduzindo o pedágio para caminhões, a contrapartida será a redução das obrigações de investimento futuro.

Implicitamente, está se reconhecendo que o pedágio não poderá bancar investimentos futuros em estradas - que terão de ser mantidos com recursos orçamentários. Mas por que reduzir apenas para caminhões? E os vendedores autônomos, que correm todo o Estado com seus carros populares? E os estudantes, que viajam diariamente pelas rodovias para estudar em outras cidades?

Some-se o fato de que os investimentos na concessão foram feitos, muitas vezes, com empréstimos internacionais, garantidos pelas próprias receitas de pedágio. Lembra o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, Roque Citadini, que o único país que tentou jogar todo o peso dos investimentos rodoviários no pedágio foi o México. As concessionárias tomaram empréstimos externos, com aval do governo. O modelo ruiu e o governo teve que reassumir as estradas.

Decisões como a do governador paranaense Jaime Lerner -que reduziu unilateralmente o preço dos pedágios locais à véspera das eleições, mediante uma mera portaria- corroem a credibilidade do setor público. Embora com menos repercussão, representou um atento à credibilidade do setor público como contratante maior até que do governador gaúcho Olívio Dutra no episódio Ford.

A solução passa por uma rediscussão do modelo de concessão. Reduz-se o valor dos pedágios cobrados, restringe-se a responsabilidade das concessionárias na manutenção das estradas, e, em contrapartida, o Estado chama novamente a si a responsabilidade de financiar os novos investimentos com recursos orçamentários.


PUBLICADO NO JORNAL "FOLHA DE S. PAULO", EM 12/08/1999, P.2-3, Dinheiro.




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