HOMENAGEM AO CONSELHEIRO JOSÉ LUIZ DE ANHAIA MELLO
Senhor
Presidente,
Senhores Conselheiros,
Senhor Procurador Chefe da Procuradoria da Fazenda,
Senhores Funcionários
Por duas vezes, Eminentes Conselheiros, caros funcionários, eisque
recai sobre mim pronunciar palavras de despedidas ao nossoDecano de
sempre, o Conselheiro Professor José Luiz de AnhaiaMello.Duas vezes,
Vossas Excelências, Senhor Presidente e SenhoresConselheiros,
incumbiram-me de falar em nome deste EgrégioTribunal para homenagear
o companheiro Anhaia Mello, quando seafastou do nosso convívio.Na
primeira vez – em março de 1997, quando da última sessão
doEgrégio Tribunal Pleno, de que participara o eminente Conselheiro
– quando tudo eram flores de louvores pelo encerramento gloriosode
uma bela carreira pública – e agora, quando tudo são
floresde dor e de saudade.Da primeira vez, não foi tão
difícil, porque ainda quesentíssemos, e muito, o afastamento,
para este fomos nospreparando aos poucos e nos restaria a convivência
com o eminentecolega – cuja presença física não
deixaria esta Casa, que tantoamou.Hoje, ainda, sob o impacto do irreversível,
esforçar-me-ei pordeixar um condigno adeus deste Tribunal a Anhaia
Mello.O momento é de despedida – agora definitiva. E, por isso,
é derecordação.Começo, pois – e talvez,
assim, isto me ajude a encontrar umcaminho -, a relembrar alguns fatos
e feitos da longa vidapública do eminente Ministro e Conselheiro,
enumerados em seucurrículo oficial, publicado na Revista deste
Tribunal (nº 78,set 94/jan 95), quando de sua posse na Presidência,
a que, pelaquinta vez, o conduzira a confiança de seus pares.Refiro-me,
por primeiro, à sua formação acadêmica e à
carreira nomagistério universitário.Quando aluno da sua –
e nossa – “velha e sempre nova” Academia doLargo de São
Francisco, prestigiado pelos seus colegas, elegeu-sePresidente do Centro
Acadêmico “Onze de Agosto”. Bacharelou-se,com brilho,
em Ciências Jurídicas e Sociais e, pela mesmaFaculdade,
já seria Doutor em Direito, em 1960, e, por concurso,Professor Livre-Docente
de Direito Constitucional em 1961,ascendendo mais tarde a Professor
Adjunto, aposentando-se apósmais de trinta anos de magistério,
durante o qual – como opróprio Anhaia Mello disse, um dia,
“entoou, cantou, e porque nãodizer, rezou, perante a mocidade”.
Mais tarde, após 1964, já professor veio a ser Interventor
noCentro Acadêmico, em razão de feliz decisão da
Congregação daFaculdade, que, antecipando-se a ato do
Governo Federal, onomeou para a interventoria, com isto evitando a
interferênciaexterna e estranha. No exercício da interventoria,
o ProfessorAnhaia Mello soube manter ameno convívio com os
alunos,preservando espaço para que logo promovessem eleições
econstituíssem os próprios órgãos diretivos.
Cedo começou a sua vida pública, a sua dedicação
à AdministraçãoPública, às coisas do Estado.
Assim, ainda no verdor dos anos, Estagiário do Ministério
Público, Advogado da Reitoria da Universidade de São
Paulo,Advogado do Estado, por concurso, Oficial de Gabinete e Sub-Chefeda
Casa Civil do Governador, Consultor Jurídico, Diretor Geral eChefe
de Gabinete da Secretaria da Justiça.E ainda, em plena mocidade,
Ministro Substituto deste Tribunal,de 1963 a 1967 em cujo exercício
tanto se destacou, que mereceuser nomeado para o cargo vitalício
de Ministro desta Corte, comaprovação da nobre Assembléia
Legislativa, pelo eminenteGovernador Abreu Sodré.Iniciava-se,
assim, a longa carreira, de excelentes serviços, eincomparáveis
lições, prestados a esta Casa e à causa pública.
Orador primoroso, conferencista de escol, articulista rematado,deixou
centenas de excelentes trabalhos jurídicos e sobre afiscalização
exercida pelos Tribunais de Contas, publicados naImprensa e em revistas
especializadas.Entre os livros que publicou, ao longo de sua carreira
noMagistério e neste Tribunal, destacam-se: "O Estado Federal
eSuas Novas Perspectivas" (1960), "Da Competência dos Tribunais de
Contas para Negar Aplicação a Leis Inconstitucionais" (1964),
"DaSeparação dos Poderes à Guarda da Constituição"
(1968), "RuyInstituidor da Justiça de Contas" (1974), "Fiscalização
dasEmpresas Públicas" (1977).Tal era o seu amor à Corte que
integrava, e a dedicação exemplarno exercício da sua
magistratura, que o Egrégio Plenário, já em1982 –
quando ainda lhe restariam quinze anos presumíveis defunção
– outorgava o seu nome a este austero salão: “Auditório
Professor José Luiz de Anhaia Mello”. Selava-se, assim,
o“amálgama indissociável”, como mais tarde
viria a dizer oeminente Conselheiro Renato Martins Costa, tomando
posse naPresidência, em janeiro de 1997, de Anhaia Mello com esta
Casa, a“sua Casa, aquela que se confunde com sua personalidade”.
O reconhecimento é geral, por parte de seus Pares.Dele disse o eminente
Conselheiro Claudio Ferraz de Alvarenga, naúltima sessão
da Primeira Câmara, de que participava oConselheiro Anhaia
Mello.“Nos vemos em uma situação que não é
rara na vida. É uma situaçãoem que se mescla, de um
lado, um sentimento de imensa tristeza;de outro, um sentimento de enorme
felicidade. A tristeza vai porconta de que hoje será a última
sessão desta Câmara em quecontamos com a presença
do eminente Decano, nosso mestre, nossoguia. Foram décadas de
trabalho, foram décadas de presençaconstante neste Tribunal
e nesta Câmara; a falta que SuaExcelência fará
é algo imenso, é algo que não se pode traduzir empalavras,
é algo que todos sentimos, é algo que todos teríamos
imensa dificuldade em expressar”.Rememoro, mais, as palavras do
eminente Conselheiro EdgardCamargo Rodrigues, naquele mesmo momento, que
constaram da ata eda publicação na nossa Revista, - e assim
se vai desenhando oretrato de Anhaia Mello, que restará para a posteridade:
“ Nós,que ficamos, que continuamos, ficamos tristes, porque
perdemos oconvívio. Mas Anhaia Mello, o artista, quando termina
sua obra,não fica triste. Ele a completa. Ele entrega a sua produção,
oseu trabalho, perfeito e acabado. Vossa Excelência é um artista.
Termina a sua obra e só pode sentir-se contente”.Colho, a
seguir, o pensamento do eminente Conselheiro RobsonMarinho, ao ser investido
como membro deste Tribunal, em sessãode 28 de abril de 1997,
quando se dirigiu ao Conselheiroaposentado Anhaia Mello, que comparecia
à posse: “A derradeirapalavra não poderia deixar
de ser dirigida ao eminenteConselheiro Anhaia Mello, a quem tenho
a honra de suceder nesteTribunal, mas jamais a pretensão de
substituir. Eméritoprofessor, insigne homem público e respeitabilíssimo
juiz. Suafigura amável e paterna, austera e digna é a própria
imagem destaCorte, à qual reservou a maior parte de sua vida, com
exemplardedicação, inigualável brilho e – penso
não ser exagero dizer –com obsessiva paixão. É
difícil imaginá-la sem a sua presença”.De Vossa
Excelência, eminente Conselheiro Eduardo BittencourtCarvalho, destaco
a homenagem que prestou a Anhaia Mello – queencerrava sua judicatura
nesta Corte, com brilhante e difícildecisão sobre ilegalidade
de momentosa licitação sobre concessãode sistema rodoviário.
Soube Vossa Excelência formular juízo firme, em palavras
candentes, e ao mesmo tempo serenas e de rara beleza literária,ao
manifestar o seu apoio e o desta Corte, à atuação
doConselheiro Anhaia Mello.Seleciono palavras de Vossa Excelência,
que me vão ajudando acompor aquele retrato da personalidade de
Anhaia Mello que estouprocurando deixar desenhado:“A admiração
pela sabedoria jurídica, manifestada com paciênciapródiga;
o civismo e amor pela “res publica”, que permearam todaa fala
do mestre; a lucidez e o descortino com que foramesmiuçados
todos os aspectos e pormenores da matéria, referindo-os, todos, à
medula legal do processo julgado... A soma de tudo oque se ouviu, no voto
comentado, resumiu de forma precisa a vidado Professor, do Conselheiro,
do Jurista Emérito, doMultipresidente, do Decano, do Patriota
Anhaia Mello. A História,tal qual a vida monástica, impõe
um nome de glória ao vulto. Porisso, desde logo omito o prenome de
nosso Mestre.A qualidade e o resumo de uma vida inteira de saber e civismo,
desvelados no desfilar dos termos do relatório, dos argumentos,do
voto afinal, isto sim, repita-se, despertou assombro”.Rebatendo injustas
críticas da imprensa, àquela atuação ilibada
do Conselheiro Anhaia Mello, continuava Vossa Excelência, SenhorConselheiro
Eduardo Bittencourt Carvalho:“O Egrégio Tribunal de Contas
de São Paulo não sofreu em vão osdesqualificados destemperos
jornalísticos. Estes serviram, maisque nada, para caracterizar
e dar ênfase à glorificação de nossoDecano e
Mestre Anhaia Mello que pontificou com seu voto último.Jóia
que mereceu o destino de fecho e marco histórico defecundíssima
carreira.Perpetue-se a memória de lição tão
grande e tão oportuna. Assimse constrói o Estado de Direito.
Exalte-se o grande obreiroAnhaia Mello.Foram tais seus efeitos, tão
fecundos, de consequências tãoduradouras; foi tão
longa e tão profícua sua vida profissional;seu exemplo deixa
marcas tão fundas, de tal maneira indeléveis eirremovíveis,
que conferem caráter ao Tribunal de Contas doEstado de São
Paulo. Seus funcionários, seus Conselheiros,assimilaram as lições
de Anhaia Mello (...).Assim, proclama-se o verdadeiro caráter que
a Corte assume. O deAnhaia Mello. Ele transforma-se de nosso Decano
em entidadetitular da nossa vida institucional. Da Corte e de nós
mesmos.Como separar-se dele sem perdermos identidade? Afastar-se dele é
tão impossível quanto o sair de si. Despedir-se dele tão
absurdocomo despedir-se de si mesmo.Assim consuma-se a celebração.
Salve Anhaia Mello! Bem vindo àtutela desta Corte e de todos nós
para sempre!”E após a aposentadoria, a Corte inaugura o retrato
de AnhaiaMello neste Plenário. Não posso, Senhor Presidente
e SenhoresConselheiros, deixar de transcrever – porque vou ainda
tentandogizar a imagem do nosso homenageado, com os pincéis
alheios,carinhosas palavras do eminente Conselheiro Fulvio Julião
Biazzi,proferidas na ocasião:“A homenagem que hoje se presta
a Vossa Excelência, é de Justiça,i devida. Afinal este
palco é seu, o brilho de seu saber ofuscaas luzes, suas lições
ditam a majestade do ambiente. A lembrançade sua perene presença
encoraja o julgador. Seu nome emprestado aeste Plenário confere o
respeito, a dignidade e o equilíbrio doque aqui se decide.Faltava
algo. Era preciso que se eternizasse nesta Casa quem aela legou sua vida
de conhecimentos, a quem se doou para que opapel constitucional desta
Corte merecesse o reconhecimento dasociedade (...)O descerramento deste
retrato nas paredes deste Plenário rende-lhe, querido Professor,
a mais justa das homenagens que nóspoderíamos conferir
a Vossa Excelência(...)Disse Vossa Excelência em uma carta vinda
de Portugal que nadafez e o que fez ficou na janela do tempo para ser
aberta dequando em vez enquanto o destino passar.O destino passará
e com ele todos passarão.Seu retrato, querido amigo, Professor Anhaia
Mello, será a janeladeste Tribunal e por ela entrarão a inspiração
e o amparo de quetodos precisamos e precisaremos”.Até aqui
as palavras do nobre Conselheiro Fulvio Julião Biazzi.A janela,
Senhor Presidente e Senhores Conselheiros, acaba defechar-se para a
vida, mas abrindo-se para a eternidade dalembrança e da lição
de que esta Casa não deverá esquecer-se.Ao encerrar a cerimônia
o então eminente Presidente, ConselheiroRenato Martins Costa, lembrava
que Anhaia Mello “colocou estaCasa como uma extensão
da sua” e congratulava-se com ohomenageado, “com sua família
e com este Tribunal, que pode ter aventura de, ao longo de mais de 30 anos,
contar com sua presençadiária, cotidiana, a espargir sabedoria
e conhecimento a todosquantos tinham o privilégio de privar desse
contato e dizer que,mesmo gozando de um merecido descanso de sua aposentadoria,
VossaExcelência continuará aqui presente a nos inspirar,
agoramaterializado neste quadro que adorna o auditório que tem
o seunome”Peço licença, agora, Senhor Presidente e
Senhores Conselheiros,para repetir, neste momento, as palavras com que
encerrei ahomenagem ao Conselheiro Professor Anhaia Mello, prestada
emsessão plenária:“Perpassando, ainda que em largos
traços, a carreira de bonscombates do Conselheiro Anhaia Mello,
que ora se encerra nessaapoteose de homenagem, como poderia concluir a minha
– a nossa- adespedida da Casa?Certamente estas palavras já foram
ditas e repetidas, mas agoraelas são mais verdadeiras do que nas
melhores ocasiões em queporventura houveram sido proferidas:Com
a sua partida, eminente Professor e Conselheiro, eminentemestre de ontem
e de hoje e amigo de sempre, não é um juiz quenos deixa:
é uma lição que fica!”Senhor Presidente, Senhores
Conselheiros, Senhor Procurador daFazenda, Senhores Funcionários,
Anhaia Mello amou esta Casa e o seu trabalho, como os que melhoro fizeram,
muito além do que lhe exigia o estrito cumprimento dodever.Inclino-me
– como este Tribunal se inclina hoje, reverente –diante
do seu grande exemplo e quero encerrar este preito dehomenagem e de
saudade invocando a célebre imagem que o maiorépico da
língua portuguesa – Camões -, nos deixou no conhecido
soneto SETE ANOS DE PASTOR.Eu lembraria os mais de trinta anos de labor
de Anhaia Mellonesta Casa – à qual serviu – servindo
a São Paulo e ao Brasil –com o que de melhor havia na sua
inteligência, no seu talento ena sua dedicação
– e queria servir mais, não fosse ainexorabilidade do
implemento constitucional.Tão grande foi o seu amor a esta Casa,
que Anhaia Mello aindamais a queria servir, que posso terminar com
as palavras deCamões – que certamente também brotariam,
da boca, do coração eda alma de Anhaia Mello, depois de
ter servido a este Tribunalpor tão longo tempo: “mais servira
se não fora, para tão longoamor, tão curta a vida”.
Sala das Sessões, em 28 de Julho de 1999.
ANTONIO
ROQUE CITADINI
CONSELHEIRO