Ruth Escobar prepara festival internacional
Falta de verba pode prejudicar o evento, que em 98 estará voltado a grupos orientais
BETH NÉSPOLI A polêmica realmente parece acompanhar a atriz e empresária Ruth Escobar. Morando atualmente nos Estados Unidos, ela veio ao Brasil para organizar o 7º Festival Internacional de Artes Cênicas, previsto para ocorrer entre os dias 7 e 19 de julho, e também para tentar receber os R$ 3,5 milhões que ainda lhe devem pela venda de seu teatro. Mal pisou na terrinha e seu nome já aparece em reportagens que tratam de malversação de verbas, envolvendo não só a venda como também o aluguel de seu teatro.
"Os processos não me abalam, pois sei que vamos ganhar, mas tudo isso machuca; não sou uma banqueira que construiu um teatro, ele sempre foi minha fonte de renda", comentou Ruth Escobar em sua casa, no bairro do Pacaembu, onde recebeu o Estado. Logo após rebater as acusações (leia texto abaixo), ela diz não saber se vai conseguir realizar o festival em 98. Com orçamento previsto para R$ 5 milhões, alega só ter conseguido, até agora, "uma promessa de apoio no valor de R$ 500 mil". Mas as dúvidas desaparecem quando se trata da programação do festival, toda voltada a grupos orientais. "No mundo inteiro o teatro oriental está influenciando o ocidental." Dentro de duas semanas ela viaja para Paris, onde assiste ao festival de teatro de outono, este ano dedicado ao teatro japonês.
Caso tudo dê certo, a atriz vai realizar um velho desejo, trazendo para o festival brasileiro a Ópera de Pequim. Já convidou o conjunto da cidade de Dalian. "Existem várias óperas de Pequim, mas totalmente descaracterizadas, são shows para turistas; a Ópera de Pequim da cidade de Dalian conserva uma linguagem pura", explica.
"Daí a importância de conhecer bem os grupos." Numa viagem à Índia ela conta ter ficado fascinada com o Tambayaka, um grupo de percussão da província de Kerala, também convidado para o festival. "Entre eles há um homem de 90 anos tocando tambor com uma energia espantosa; e o diálogo dos tambores é mágico." Os outros grupos programados são a Ópera Javanesa, da Indonésia, o Le Khôn, grupo de teatro e dança da Tailândia, Marionetes de Fujian, da China, os monges dançarinos do Tibete e cantos, músicas e danças tradicionais do norte do Vietnã.
Ao comentar o conceito do festival, ela lembra que a função da arte é questionar a relação do homem com o mundo. "A relação dos orientais com o espaço e o tempo é diferente da ocidental." O contato com o teatro oriental pode significar um importante enriquecimento para o ator ocidental. "Os atores sofreram a influência das teorias brechtianas de distanciamento ou stanislaviskianas, de busca interior de sua emoção." Já o teatro oriental está próximo do ritual religioso. "A religiosidade no sentido de conexão com o divino, em harmonia com o universo.
"Não foi só para organizar o festival que Ruth veio ao Brasil. "Vim para resolver o problema do teatro, agora agravado com essa denúncia absurda." Ela explicou que, embora o projeto de compra de seu teatro pela Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do EStado de São Paulo (Apetesp) tenha sido aprovado para captação pela Lei Rouanet no valor de R$ 5,5 milhões, até agora a Apetesp só conseguiu captar R$ 2,4 milhões. O Bradesco participou da compra com R$ 400 mil e a Telesp com o restante. Nesta semana, Ruth irá a Brasília para tentar conseguir apoio para que a Apetesp possa captar o que resta, ainda que por empréstimo. "Do contrário, a associação terá de repassar o teatro e aí a classe artística corre o risco de vê-lo transformado em sacolão ou igreja evangélica."
Publicado no Estado de São Paulo em 18.11.97 p. D-4
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