COVAS VAI HERDAR ROMBO DE US$30 BILHÕES


Fleury deixa para sucessor dívida recorde, obras paralisadas e uma máquina

administrativa desmantelada pelo empreguismo


MILTON ABRUCIO JR.


SÃO PAULO - Mário Covas ficou famoso como o prefeito que mais tapou buracos na periferia de São Paulo. Ao tomar posse, em 1º de janeiro, como governador do estado, Covas enfrentará o desafio de tapar simultaneamente dois buracos muito mais profundos. O primeiro é financeiro: uma dívida de US$ 30 bilhões, um quarto com vencimento imediato. A segunda cratera é social: o estado paga salários tão baixos a professores, médicos e policiais que não consegue preencher as vagas existentes. Nos quatro anos do governo de Luiz Antonio Fleury, o estado não conseguiu avançar um metro das três linhas de metrô iniciadas por Orestes Quércia. Há também uma lista de hospitais com obras paradas.

O mais dramático para Covas: falta asfalto financeiro para fechar a buraqueira. Em 1993, para cada R$ 100 reais arrecadados, o governo Fleury gastou R$ 132, resultado que pode se repetir em 1994.

Origem - A chave para entender a bancarrota do maior estado da Federação está no governo Orestes Quércia, vício de origem do governo Fleury. Aspirante à Presidência, Quércia fez um governo voltado para obras de boa visibilidade, especialmente estradas e linhas de metrô - a maior parte delas sob suspeita de superfaturamento investigada pelo Ministério Público.

Em 1990, último ano de seu governo, Quércia enfrentava queda na arrecadação de impostos, em conseqüência da política recessiva do governo Collor. Isso não o impediu de gastar 24% a mais do que tinha no cofre, deixando ainda um rombo de US$ 600 milhões no Banespa, para eleger Fleury seu sucessor. "Quebrei o estado, mas ganhei a eleição", admitiu na época.

Fleury não provocou grande inchaço na administração direta, composta pelos servidores que trabalham nas secretarias. Eram 700 mil quando assumiu e 881.303 até outubro passado. A maior parte do aumento ocorreu por substituição de aposentados - 100 mil em 1991 e 260 mil hoje. Entre os ativos, o aumento foi de 600 mil para 621-303 servidores. Esses números, na verdade, foram escamoteados pela prática, iniciada no governo Quércia e generalizada por seu, cessor, de contratar indiretamente, sem concurso público. O símbolo desta prática é o Baneser, esta criada para fornecer vigilantes Banespa e que Quércia transformou em cabide de empregos.

Contratações - Quando Fleury assumiu, o Baneser tinha: mil Funcionários. Hoje, são perto de 20 mil. Fleury, além de inclementar a contratarão de parente de políticos - incluindo quatro seus e quatro de Quércia - usou o Baneser para encher as secretarias estaduais de servidores contratam sem concurso público. Além do Beneser, Fleury usou empresas locadoras de mão-de-obra, que hoje cedem perto de 100 mil pessoas ao estado.

"Essa prática é danosa, pois não é possível saber se as empresas fornecem os empregados de acordo com o contrato", condena o conselheiro Roque Citadini, do Tribunal de Contas. "Há gente até no setor de licitações contratada através dessas empresas", diz o deputado Lucas Buzato, do PT, que denunciou o escândalo Baneser.


(Publicado no Jornal do Brasil em 20.11.1994 p. 14)


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